Ondas quebrando na escuridão

Fugi para essa praia

porque ninguém pensaria

em me procurar aqui.

Talvez em outras praias,

mas não aqui.

 

Armei minha barraca na linha

onde o mato começa a crescer

e a areia a desaparecer,

andei até o mar

onde as ondas quebravam

para dar um mergulho

e nadei alguns metros.

Fiquei estirado ao sol

na areia quente

esperando me secar

fumando um atrás do outro.

 

De noite, se acenderam as luzes no quiosque

na outra ponta da praia

e fui ver se arranjava alguma coisa para comer.

O dono havia posto um forró para tocar

e estava vendendo caipirinhas

a cinco reais para outros campistas.

Comi camarões, bebi alguns

copos e dancei algumas músicas

com uma moça da Alemanha

que estava de férias

e dançava melhor que eu.

 

Voltei para minha barraca

sozinho.

Fumei mais alguns

vendo o mar de estrelas no céu,

ouvindo as ondas quebrando

na escuridão

e fui dormir

tranquilizado, escondido,

sem saber que

ninguém me procurava.

Anúncios

Marcolino e o mar

Ou uma fábula da pós-modernidade

HotDogLegs6 (1)

No início das férias de verão, Marcolino decidiu sair da cidade e viajar para o litoral.

“Aonde vai, Marcolino?” Perguntou sua mãe ao vê-lo abrir a porta da frente e começar a sair.

“Estou indo conhecer o mar!” Respondeu com certa empolgação, pois nunca havia visto o mar.

“Ah, o mar, que coisa linda”, suspirou sua mãe, “é imenso! Um mundo de água que se extende até o horizonte! Às vezes sua cor é de um azul profundo, outras de um verde bem escuro. Você vai amar! Quando eu era mais jovem…”, ela começou, mas Marcolino logo se esquivou de suas histórias e se pôs a caminho. Os mais jovens nunca tem paciência para a experiência dos mais velhos.

Caminhou e caminhou pela estrada, sempre em direção ao mar. Estava quente, e muitas vezes pensou em desistir, mas seguiu em frente, apesar do esforço. Não demorou muito, chegou à serra, onde encontrou filas de carros parados até aonde seus olhos podiam enxergar. Marcolino não entendeu direito o que era tudo aquilo e resolveu perguntar às pessoas dentro de um dos carros:

“Com licença, amigos”, disse Marcolino, “esse engarrafamento leva aonde?”

“Leva à praia”, respondeu o motorista, que estava suando e sem camisa, mostrando uma corrente de ouro no peito cabeludo.

Marcolino ficou muito feliz de saber que estava na direção certa, e indagou: “Falta muito para chegar lá?”

O motorista o olhou com cara de dúvida quando respondeu: “Pra caralho, filho. Ainda mais com esse engarrafamento.”

“Que pena”, respondeu Marcolino.

“Você está à pé?”, perguntou o homem.

“Estou sim.”

“Então você deve estar louco, não vai chegar lá nem fodendo! Escuta, você pode pegar uma carona comigo no banco de trás, ainda tem um lugar se o pessoal apertar um pouco, o que me diz?”

“Muito obrigado, amigo, mas prefiro ir à pé, acho que chego ainda antes de você. Tenho muita pressa, pois vou conhecer o mar”, Marcolino respondeu com um sorriso no rosto.

“Nunca viu o mar?”

“Nunca vi, amigo. Essa será a primeira vez.”

“Pois tome cuidado, garoto, o mar é incerto como uma puta. Pode parecer calmo às vezes, mas fica revolto sem nenhum aviso e te engole de uma tragada só.”

Marcolino agradeceu os conselhos do motorista e se despediram amigavelmente. Seguiu sua viagem sem parar, e não encontrou o carro novamente em toda a descida da serra. Ao chegar ao litoral, cruzou com um surfista, que tinha os cabelos lambidos para trás e deixava um rastro de pingos atrás de si.

“Com licença, amigo”, chamou Marcolino, “sabe em que direção fica o mar?”

“Claro, brother, tô voltando de lá agora”, ele respondeu com um sorriso no rosto, “é só seguir a rua até o final e virar à direita, não tem como errar. A água tá uma delícia, perfeita pra esse calorão.”

“Obrigado, amigo”, respondeu Marcolino, e seguiu até o final da rua. Ao virar à direita, se deparou com uma visão surpreendente: o mar, imenso, rugindo com voracidade a cada onda quebrada. Pé ante pé, Marcolino cruzou a avenida beira-mar e caminhou pela areia, estarrecido pela beleza do mar, que nunca vira igual.

“É realmente grande, como disse minha mãe, e sua cor parece mesmo de um azul profundo ou de um verde bem escuro”, pensou Marcolino, “e assim como disse o motorista, parece calmo, mas no tamanho e na força de suas ondas vejo que está também um tanto bravio”.

Marcolino estava feliz, seu sorriso ia de bochecha a bochecha sem nem se esforçar. Aproveitou a naturalidade para sacar o celular do bolso e tirar três fotos: uma selfie  com óculos escuros e o mar ao fundo; suas pernas estendidas sobre a areia, uma das mãos à frente, segurando uma lata de cerveja; e a visão da praia e das ondas quebrando. Postou as três com filtro Lo-Fi, usando a mesma legenda:

#mar #praia #sol #verão #tudodebom #férias #descansomerecido #paz #gratidão #sun #litoral #breja #amomuito #calor #verao40graus #pedeserra #areia #delicia #beach #nofilter #sand #summer #love #surf #diversao #aventura #queroparasempre #deboa #naoquerovoltar #bronzeado

“E aí, brother”, cumprimentou o surfista, que voltava para pegar mais uma série e reconheceu Marcolino sentado na areia, “a água tá boa ainda?”

“Não sei, amigo, ainda não entrei”, respondeu Marcolino, rolando por seu feed de notícias.

“Ih, fica de bobeira não, brother, bora lá dar um tchibum”, encorajou o surfista, “tá esperando o que?”

“Os likes”, respondeu Marcolino sem tirar os olhos da tela, “estou esperando os likes.”

Beijo Lisérgico

Ela terminou sua frase com um olhar profundo, irresistivelmente sensual. Tinha controle sobre mim, e com seus olhos me trouxe para perto e me beijou. O gosto lisérgico de nossas bocas era forte, mas não conseguia mascarar o seu sabor natural. Sua língua possuía uma certa aspereza macia e seus lábios massageavam os meus. Não tinha volta, eu sabia que não conseguiria dormir com apenas um desses beijos.

Sua pele era extremamente macia, mais do que o normal, e parecia acariciar também minhas mãos quando elas passaram suavemente por toda a extensão de seu corpo. Havia uma espécie  de alegria absoluta que emanava do encontro de nossos lábios, percorrendo completamente nossos seres, correndo por cada nervo, por cada veia, aquecendo nossa carne em pulsações cadenciadas de um prelúdio barroco. Suas mãos percorriam a nudez das minhas costas, me fazendo sentir uma série de cócegas sutis que penetravam minha pele, escalavam minha coluna e estimulavam a base do meu crânio com arrepios de puro prazer.

Quando, levemente, percorri a ponta de meus dedos dos seus ombros à sua nuca e senti a raiz de cada um dos fios do seu cabelo, pude sentí-la emanando ondas que acompanhavam a frequência das ondas que criam a essência do universo: caos e ordem, ordem e caos. Meus lábios se perderam no seu pescoço, nossas peles nuas se uniram e nos tornamos um. Nos dissolvemos no Universo, no ritmo ondulante do oceano, que nos fazia companhia junto com as estrelas pulsantes em sua morada celeste. Sua voz era minha voz, meu corpo era seu corpo, e nossas mentes se tornaram uma enquanto nossas almas se contorciam e gemiam em um gozo espiritual em que cada célula nervosa do nosso único ser desabrochava em uma flor com todas as cores do mundo, exalando um perfume que apenas a união profunda de dois seres consegue produzir.

Enquanto permanecíamos nus, deitados sobre a morna e macia areia daquela praia deserta, procurando por todas as cores do Universo com os curiosos olhos de uma criança que percebe o mundo ao seu redor pela primeira vez, hipnotizados pelas canções do oceano, que nos contava de mil e mais histórias de suas profundezas desconhecidas, eu vi em seu rosto o rosto de deus, me convidando para me tornar um com ela, para me tornar um com o Cosmos. Ela tomou minha mão e me guiou suavemente para cima, deslumbrado, para dentro de si.

E eu senti amor.