Eu te amo

Ele diz eu te amo

enquanto me faz um cafuné.

Diz eu te amo

depois de um beijo gostoso.

Num jantar de aniversário

ele diz eu te amo.

Depois do sexo, diz:

Eu te amo.

 

Ele diz eu te amo

ao fim de cada ligação.

Um ponto final:

Beijos te amo.

Diz eu te amo

quando dirijo depois da festa

e quando cuido de sua ressaca

ele diz eu te amo.

 

Sempre que acaba o assunto:

Eu te amo.

Estamos os dois quietos

e ele diz eu te amo.

“Eu te amo”

às vezes em sequência

como se precisasse repetir

eu te amo eu te amo.

 

Ele diz eu te amo

depois que lhe passo o sal

que usei em minha salada.

Pego sua outra mão

olho em seus olhos

desejando ser Medusa

e antes que venha eu te amo:

eu também.

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Dança do Universo

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Como se um buraco negro

entrasse pela porta

ela sentou no balcão,

sozinha,

fazendo toda a matéria

e toda a luz

(que já era pouca)

se curvarem ao seu redor

— o horizonte de eventos

para o qual todos os astrônomos

apontavam telescópios naquela noite

de poucas estrelas,

sentindo o tempo distender-se

infinito, quieto, primordial,

em antecipação.

 

Até que da escuridão fez-se

luz e calor

no estrondo

(um segundo big bang)

que fez seu sorriso

para o garçom,

aquele meteoro desgarrado

que por vontade própria

ou pura gravidade,

se tornou a mais nova lua

da qual se tem conhecimento.

 

A partir daí

se tornou muito difícil

pedir uma cerveja.

Ondas quebrando na escuridão

Fugi para essa praia

porque ninguém pensaria

em me procurar aqui.

Talvez em outras praias,

mas não aqui.

 

Armei minha barraca na linha

onde o mato começa a crescer

e a areia a desaparecer,

andei até o mar

onde as ondas quebravam

para dar um mergulho

e nadei alguns metros.

Fiquei estirado ao sol

na areia quente

esperando me secar

fumando um atrás do outro.

 

De noite, se acenderam as luzes no quiosque

na outra ponta da praia

e fui ver se arranjava alguma coisa para comer.

O dono havia posto um forró para tocar

e estava vendendo caipirinhas

a cinco reais para outros campistas.

Comi camarões, bebi alguns

copos e dancei algumas músicas

com uma moça da Alemanha

que estava de férias

e dançava melhor que eu.

 

Voltei para minha barraca

sozinho.

Fumei mais alguns

vendo o mar de estrelas no céu,

ouvindo as ondas quebrando

na escuridão

e fui dormir

tranquilizado, escondido,

sem saber que

ninguém me procurava.

tenra manhã

café café café café

café café café café

  café café café café

      café café café café

          café café café café

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      café café café café café café café café              café

   café café café café café café café           café

café café café café café café

        e ainda tenho sono

Aqui estou

Como um brilho de purpurina descoberto sobre o ombro esquerdo

semanas após o carnaval um canhoto de cinema encontrado

no bolso de um casaco pendurado desde o último inverno

o perfume de um antigo amor sentido em lençóis

há meses guardados certas lembranças nos

surpreendem em locais inesperados

revelando onde estavam e que

nunca saíram de lá.