Melhor que dois voando

Um passarinho cagou no meu ombro hoje. O fato, completamente ordinário, apesar de não tão comum quanto possa parecer ao se olhar as carecas e ombros das estátuas no centro, tomou, para mim, ares inquietantes pelo fato já constatado de que não há pássaros no meu bairro. Essas ruas, esses prédios, não foram feitos para eles. Não temos árvores para sentarem ou construírem ninhos. Não temos terra nem grama para procurarem alimento. Nem os velhos nos bancos da pracinha levam comida para engordá-los. Moro há mais de vinte anos na mesma travessa da Luciano Guaporanga, duas abaixo do cruzamento com a São Miguel, e em todos esses anos nunca vi por aqui um passarinho que fosse cruzando o céu cinzento. Bom, se nem as pombas vem nos visitar, porque então viriam sabiás, beija-flores, bem-te-vis, maritacas?

Por isso a surpresa hoje pela manhã. Parei em frente à loja de sapatos para ler a manchete do jornal que acabara de comprar na banca e fui atingido no ombro por um projétil branco-amarelado ainda morno. Demorei um segundo para que o susto passasse e eu entendesse o que era aquela massa que começava a se derreter pelo algodão da minha camisa. Tive que entrar na loja para pedir um papel, por gentileza, para não ter que usar o jornal.

Mais tarde, conversando com um amigo que mora na rua de baixo, fiquei sabendo que também fora atingido por uma descarga semelhante. Em seu caso, porém, a gravidade foi maior, pois o pássaro, consciente ou não de onde mirava, acertou-o bem na cabeça quando estava entrando no ônibus e ele só foi reparar que não era um pingo gordo de chuva após pagar a passagem. Em seguida, me contou que seu vizinho também fora alvo, sendo acertado na mão quando a colocou para fora da janela para ver se a chuva tinha parado. E esse vizinho, por sua vez, contou que sua nora, que mora duas ruas pra baixo, por pouco não foi acertada também. O dejeto se espatifou logo à frente de seus pés, passando a centímetros do nariz.

“O bairro virou uma grande privada, hoje,” ele disse, “amanhã não saio sem meu guarda-chuva!” Rimos da situação e a conversa tomou outros rumos: futebol, política, religião. O assunto das fezes só voltou à tona quando nos despedimos, antes do sol se pôr. “No fundo eu estou feliz,” meu vizinho disse, “é bom saber que os pássaros estão de volta pelo bairro. Mesmo que para cagar em cima de nós.”

Voltei para o prédio caminhando, tentando ao máximo não sair debaixo das marquises das lojas. Atento a qualquer movimentação nos ares, bater de asas, pios, o que fosse, mantive sempre um olho no céu, que, de tão colorido, mais parecia uma pintura.