Meu encontro com Papai Noel

Era natal, e estávamos na casa da vovó, em Salvador. Mais de vinte membros da família reunidos na sala e eu não sabia o nome da maioria, muito menos as relações exatas de parentesco. Só sei que usava uma roupa que fui obrigado a vestir e tentava evitar as passas escondidas no arroz da ceia. Perto da meia noite avistaram-no.

“Olha o Papai Noel ali! Na janela!” disse um dos adultos, e nós, as crianças, corremos para o parapeito, mas tudo o que vimos foram os prédios do bairro da Graça e suas decorações luminosas.

“Acabou de passar com o trenó, entrou naquele prédio ali!” nos explicaram com entusiasmo.

“Olha ele passando aqui!” alguém gritou da área de serviço, nos chamando.

Chegando lá, nem sinal dele. Nos levaram em seguida para um dos quartos: “Acabou de passar ali!”

“Olha lá ele de novo!” uma tia gritou entusiasmada da sala, e voltamos ao ponto inicial, rindo, mas também com medo. Papai Noel existia e estava perto, brincando de esconde-esconde atrás dos prédios.

O telefone tocou e um dos adultos atendeu.

“Alô? Ivan, vem aqui, é pra você.”

“Ho ho ho! Feliz Natal!” disse a voz do outro lado, muito parecida com a de meu avô.

“Quem é?” desconfiei.

“Ho ho ho, é o Papai Noel!”

“Não é, não. É o vovô que tá falando,” eu disse.

Minha mãe sorriu e apontou para o vovô, mostrando que ele estava longe do telefone.

“É o tio Tito, então.”

Também não, ele estava logo ali, na cozinha.

Olhei em volta. Todos que poderiam estar interpretando o bom velhinho do outro lado da linha estavam à vista, longe de qualquer telefone. E isso só poderia significar uma coisa.

Papai Noel disse que os presentes estavam no térreo, e as crianças deveriam ir buscá-los. Descemos em seis no elevador, que tinha um cheiro inegável de elevador e não se movia rápido o suficiente para nossa animação. Lá embaixo, saímos adoidados pela porta, buscando os presentes no salão de festas, no jardim perto da portaria e nas escadas de incêncio, sem sucesso.

Algum tempo depois o porteiro veio até nós, dizendo que o Papai Noel havia ligado. Estava lá em cima, com os presentes. Voltamos direto para o elevador, sem conter o riso e o nervosismo que cresciam a cada andar. Entramos no apartamento esperando encontrá-lo em seu trenó ocupando toda a sala, mas foi a família quem nos recebeu sorrindo.

“Poxa, vocês perderam, ele acabou de sair! Mas deixou os presentes ali embaixo da árvore pra vocês.”

Passei o resto da noite rasgando embrulhos e brincando com meus primos e primas, todos felizes com os brinquedos novos. Apostamos corridas com os carrinhos, desviando de obstáculos sobre a mesa de jantar; brigamos para ver qual Power Ranger era o mais forte; e montamos torres imensas de Lego, agradecendo ao bom velhinho por seguir à risca as instruções de nossas cartinhas, perdoando-o por eventuais erros. Em nenhum momento nos perguntamos porque só os adultos conseguiram vê-lo.

Com os anos, deixei de acreditar nele, e as noites de Natal assumiram uma atmosfera menos mágica, mais mundana. Mas me lembro dessa noite todo dia 24, quando digo aos priminhos, após a ceia, que o Papai Noel acabou de passar pela janela da sala.

Último capítulo

Adeus, livro chato. Sei que prometi que dessa vez seria para valer, que você ia sair da espera na minha fila de leituras e iríamos juntos até o final. Mas infelizmente chegou a hora de nos separarmos.

Foi bom no começo, nós dois nos conhecendo, tímidos, tentando nos decifrar. Sabíamos tão pouco um do outro que o mistério apimentava um pouco as coisas. E tudo que eu já tinha ouvido falar sobre você me deixava curioso, foi o que mais me atraiu a princípio. Todas as boas recomendações que me davam de você; todas as críticas positivas que lia nos jornais; todas as hitórias de que você era uma leitura essencial; todos os relatos de como você mudou a vida de tantos leitores; tudo isso foi o que me fez tomar uma atitude quando te vi de longe na estante, te pegar em minhas mãos e dizer que iria ler de cabo a rabo suas mil e duzentas páginas.

Tudo eram rosas naqueles tempos. Estávamos tão em sincronia nas primeiras páginas que o mundo parecia não existir, éramos só nós dois e nada mais. Mas depois de um tempo as coisas foram amornando. Você ficava sempre na mesma, não acontecia nada de novo, se fechava no seu próprio mundinho e não me dizia nada com clareza. A leitura não estava engatando, mas eu não queria desistir assim tão fácil de você, ficava me convencendo de que logo, logo ia encontrar esse lado seu que encantou tanta gente. Mas depois de cem páginas, senti que o esforço para te decifrar não estava valendo a pena e, tenho que admitir, comecei a ficar entediado. Quando estávamos juntos eu até me esforçava, mas acabava te lendo por obrigação, sem guardar informações, pensando apenas quando aquilo tudo ia acabar. Enquanto isso, meus amigos estavam por aí lendo livros deliciosos e já partindo para outros, sempre me dando recomendação atrás de recomendação. E eu sentia vontade de ler outras coisas, mas me controlava para focar a leitura em você.

O problema é que esse desejo, esse impulso, foi ficando mais forte, difícil de controlar. Quando a gente começou a se desentender, acabei indo para um sebo com um colega. Ele estava procurando uma edição específica de um Cervantes e eu acabei indo junto, só para fazer companhia mesmo. Não dei muita bola para todas aquelas lombadas me encarando, mas quando vi, já estava nas mãos de um volume de poesia que me tirou os pés do chão. Aquelas poesias tinham um gingado maroto, uma malemolência que eu não consegui resistir, e acabamos indo juntos para casa. Eu sei que nós nunca firmamos nenhum contrato de exclusividade nem nada, mas eu me senti culpado fazendo isso. Me perdoe.

Ele acabou me levando para conhecer algumas antologias de contos e reuniões de ensaios do mesmo autor. Nós ríamos e nos divertíamos, passava horas com eles, e isso me fazia bem. Enquanto isso, nós dois fomos nos vendo cada vez menos. Me ensinaram tantas coisas novas e me fizeram refletir sobre tantas outras que não sei se nós dois ainda combinamos. Você sabe, as pessoas mudam. Não é você, sou eu.

Por isso, acho melhor terminarmos aqui mesmo essa relação que já não está boa, vamos admitir, esfriou. Mas podemos ser amigos ainda. Se quiser, posso te apresentar uma amiga que está louca para te conhecer. E o aniversário dela está chegando, vai ser perfeito! Quem sabe vocês dois não combinam e a leitura engata logo de primeira?

Adeus, livro chato. Te desejo tudo de bom nessa vida, mas nós dois, me desculpe, não fomos feitos um para o outro.

Assalto

Pode levar tudo, moço, pode levar. Só não me machuca, por favor. Toma aqui o dinheiro, o celular e a carteira. Os cartões? As senhas estão nesse papelzinho aqui. Pega o relógio e a mochila também. Leva o carro, aqui as chaves. É o sedan preto parado na frente da farmácia, pode levar. Leva a chave da casa também, pode ficar com ela, com a tv, os móveis, o computador e os livros. Embaixo do colchão tem um dinheirinho guardado, pode pegar. Só não me machuca, por favor.

Toma meus sapatos, e as meias. As roupas também, pode levar. Aqui, essa correntinha. É de prata, herança do meu pai, mas pode levar. Só não me machuca, por favor. Pode ficar com meu emprego, leva minha mesa e meu horário de almoço. Meus rins? Aqui, pode levar. Os olhos e a vesícula biliar também. Leva minhas digitais. Leva os pulmões, os pelos encravados, leva o corpo, leva tudo. Só não me machuca, por favor.

Pode pegar meus sonhos também, as memórias de infância e os amores todos, pode pegar. Leva minha preguiça matinal, leva meu pico de café, leva tudo, pode levar. Leva minhas frustrações e meus medos irracionais, moço. Leva meus pesadelos. Leva minhas noites sem sono. Leva minhas esperanças. Leva minhas expectativas. Leva minhas preocupações. Leva minhas paranóias. Leva minhas certezas. Leva tudo, moço. Leva tudo.

Obrigado, já me sinto mais leve.

burnout

…e por conta disso sofro de uma ansiedade terrível, que não me deixa dormir direito e faz os dias passarem rápidos demais, as horas parecem minutos, estou sempre apressado, atrasado, entro no trabalho e já é hora do almoço, saio para almoçar, já é hora de voltar, se assisto um filme, já é hora de dormir e quando durmo, já é hora de acordar, me sinto sufocado, sem tempo para nada, nem para respirar, tudo são vírgulas, orações emparelhadas, sem uma pausa, um ponto para descansar um pouco, nem parágrafos para mudar de assunto, dar um senso de transição às coisas, fui ao médico fazer uns exames, meu colesterol estava alto, minha pressão também, é stress, ele disse, se não tomar cuidado vai ter um ataque de nervos, ou coisa pior, me recomendou tirar férias, espairecer, descansar e melhorar minha alimentação, e foi o que eu fiz, cortei as carnes vermelhas, frituras e cerveja, peguei um mês de folga no trabalho e fui para a europa pela primeira vez, sempre foi um sonho, o aeroporto foi estressante, não consegui dormir no voo, assisti três filmes e comi frango, achei que tinham perdido minha mala, mas acharam e fui turistar, londres é cinza, paris é lotada, berlim é triste, roma é chata, veneza fede, lisboa é feia e barcelona é linda, na volta perderam minha mala de fato, voltei direto para o trabalho, abracei a rotina, o stress voltou, tente se exercitar, recomendou o médico, comecei a correr três vezes por semana, não ajudou, me ofereceram remédios, passei a ter sono, minha chefe reclamou, disse que não estava rendendo, fui demitido, entrei em depressão, perdi meu amigos, me afastei da família, adotei um, dois, três gatos, o athos, o porthos e o aramis, ia adotar o d’artagnan, mas eles encheram a casa de pelos e me deram alergia, o médico recomendou me livrar deles, e foi o que fiz, arranjei outro emprego, ganho pouco, o chefe é um escroto, estou sempre correndo de lá para cá, daqui para lá, levo trabalho pra casa, pego trânsito para ir, pego trânsito para voltar, não tenho sossego, quase não paro em casa, doutor, e por conta disso sofro de uma ansiedade terrível, que…

Área de serviço

Gosto de vir aqui para pensar de vez em quando. Aqui, pelo menos, consigo me afastar das luzes acesas e do som das televisões ligadas em três cômodos diferentes. Aqui, pelo menos, consigo fumar meus cigarros em paz, vendo a fumaça se dispersar. Basta vir para cá e fechar a porta da cozinha.

Daqui, gosto de olhar para as outras varandas, que se empilham e se encaram, umas em cima das outras, umas de frente para as outras. São todas iguais: o mesmo espaço planejado, o mesmo tanque, a mesma porta para o quarto de empregada, o mesmo buraco na parede para passar a mangueira do botijão de gás, a mesma porta fechada para a cozinha.

E mesmo assim são diferentes. As roupas no varal, as máquinas de lavar, as redes para não deixar os gatos caírem, as plantas em vasinhos coloridos, nada se repete. Acho bonito isso, essa coisa de serem únicas apesar de iguais; as infinitas possibilidades de transformação do mesmo espaço, como um reflexo da personalidade dos moradores. Talvez escreva algo sobre isso mais tarde. Por enquanto, fumo.

Bato o cigarro na beirada do cinzeiro. Uma coluna cinzenta de tabaco queimado despenca sem estrondo, dispersando no ar flocos esbranquiçados do mesmo material. E esses flocos pairam no ar incertos, alheios à gravidade -que os puxa para baixo- e ao vento -que os empurra para cima. Sobem, descem e vagueiam sem que o destino implique qualquer sentido ou direção: os arbustos do canteiro, no térreo; o chão gelado de uma das varandas, onde passarão despercebidos; o topo de um saco de lixo fechado; um outro lugar que nunca saberei onde é. Tanto faz, nada disso importa. Flutuam, apenas, livres de preocupações, dançando e rodopiando alegres até não poderem mais.

Filhos da puta. Sabem viver a vida melhor do que eu.

Boas lembranças

Algo curioso me aconteceu certa vez, e gostaria de compartilhar a experiência. Era abril, acho, porque lembro de estar lendo On The Road numa edição de bolso de capa amarela que não cabia direito no bolso traseiro da bermuda, deixando o título visível próximo à minha cintura. Saí de casa em direção à rodoviária do Tietê, levando nas costas uma mochila grande visivelmente lotada. Era menor do que essas de 60 ou 70 litros que usamos em mochilões ou viagens longas, porém maior do que a mochila para laptop cotidiana. Nas laterais estavam presos um saco de dormir e uma barraca, cada um de um lado para balancear o peso, que mesmo assim pendia mais para o direito, o da barraca. Me aproximava da estação Clínicas do metrô pelo lado do hospital, quando um homem de cabelos brancos e camiseta preta veio falar comigo.

“Você me lembra da minha juventude”, ele começou sem introduções, “era muito boa aquela época”. Logo imaginei que ele seria um desses jovens buscando doações para ONGs beneficientes, mas a ausência de uma prancheta ou de um colete colorido me pôs em dúvida do que aquele homem queria comigo. Não o ignorei, mas também não parei para conversar, e ele seguiu ao meu lado, falando: “Eu costumava viajar muito, desse jeito aí, com mochila nas costas e barraca. Naquela época a gente não usava saco de dormir, tinha que se virar pra se aquecer de noite, e às vezes fazia uma friaca danada, mas era muito bom de qualquer jeito.” Notei que sua fala possuía um certo espírito jovem, assim como seu jeito de andar, que não condiziam com a idade avançada que imaginei para ele.

Caminhamos lado a lado, e na entrada do longo corredor dividido em dois que sempre achei muito semelhante à silhueta de dois pulmões, me contou a história de uma de suas viagens: “Tem uma vez que eu nunca me esqueço. A gente pegou uma kombi –há muito tempo atrás- colocou as malas no fundo e fomos rodar o estado.” Enquanto contava, não olhava para mim nem para o caminho, mas para algum outro lugar, longe. “Era muito gostoso aquilo. Quando a gente cansava de dirigir, parava em algum lugar, montava a barraca e dormia. De manhã a gente tomava banho em rios, em cachoeiras, às vezes nem tomava banho, era muito bom. Não gastava quase nada também –porque, afinal, a gente não tinha quase nada também- mas dinheiro não fazia falta, porque a gente se virava com o que encontrava, na natureza mesmo.” Notei que ele sorria bastante enquanto falava, e não fiz muito além de concordar, para não atrapalhar suas memórias com minhas falas. “E aí a gente foi viajando, conhecemos muitas cachoeiras, dormimos a céu aberto, fomos até Minas e acabamos a viagem no Rio, depois de mês já, sem nada na mão, sem nem gasolina pra voltar pra cá!”, e riu uma risada sincera, gostosa de ouvir.

“É viajando que a gente conhece as pessoas de verdade, vemos quem sabe lidar com problemas e quem só liga pra si mesmo. Tinha o Alemão, que foi com a gente, que era o mais responsável do grupo, e todo mundo achava que ele ia saber como resolver os problemas, mas na hora do perrengue que a gente viu: o cara foi o primeiro a se deseperar, saiu correndo e não deu a mão pra ninguém. Mas tiveram outros que deu pra ver que se importavam com todo mundo, e quando a água batia na bunda eles conseguiam ficar calmos e ajudar o resto a resolver a situação.”

Conversamos um pouco mais até o final do corredor, logo antes da bilheteria: “Viajar é uma das melhores coisas a se fazer”, ele disse, e eu não tinha como discordar, “pelo Brasil e pelo exterior, especialmente quando se é jovem. Viajar e ler são as duas melhores e mais ricas experiências para qualquer um.” Concordei com um aceno de cabeça e quando fui comentar, ele continuou: “Por isso eu achei muito legal te ver passando ali na entrada, com a mochila, me fez pensar pra onde estava indo.” Sorrimos um para o outro. “Você me lembrou de uma época boa da minha vida. Obrigado.” E se despediu, subindo de dois em dois os degraus da escadaria, desaparecendo na claridade do dia tão rápido quanto apareceu.

“Foi um prazer”, respondi, sem saber se ele me escutou. Me permiti um tempinho para absorver melhor aquela situação antes de ir para a plataforma e seguir viagem.

Nunca mais vi o homem de cabelos brancos de novo, e nunca soube nada dele além do que me contou naqueles breves minutos. Mas lembro de nossa conversa às vezes, quando por ventura abro um livro novo ou fecho a mala mais uma vez, e tenho certeza de que ele estava certo.

Esse episódio se passou há mais de dois anos, e é uma lembrança muito boa que tenho. Obrigado por escutarem.

Avenida fechada, cidade aberta

Apesar do tempo invernal desse princípio de primavera que durante a semana mais parecia alto verão, da ameaça constante de chuva e do vento gélido que teima em atravessar as blusas finas de algodão que usamos quando abaixo dos 20 graus, os paulistanos mais uma vez compareceram à avenida-cartão-postal mais famosa da cidade para desfrutar de um domingo longe do marasmo do almoço familiar. Sobre rodas, somente ciclistas, patinadores, skatistas e um cara meio diferente com um monociclo, indo e voltando dentro e fora da ciclovia. Os pedestres caminhavam com calma fora da faixa, sem receio de atropelamento, aproveitando essa visão diferente da avenida que conhecem tão bem, mas não dessa forma: era possível ver os prédios, o asfalto, as pessoas e as poesias em lambe-lambe, tudo sem pressa.

Na frente do Market Paulista, em frente à Frei Caneca, uma banda de cinquentões tocava composições próprias dos tempos de Jovem Guarda, alternando-as com piadas que os mais jovens não entendiam. Um pouco à frente, do outro lado da calçada, uma discotecagem de sucessos dos anos 70-80 remixadas com batidas mais contemporâneas criava um microclima de festa descontraída ao ar livre, com direito a pufs esverdeados, óculos de sol e cervejas em lata. Na esquina da Peixoto Gomide um grupo com contrabaixo, teclado, clarinete, trompete e vocais grossos tocavam um jazz animado de Nova Orleans, coreografados por um casal de dançarinos espontâneos que pareciam nunca se cansar e roubavam um pouco da atenção, mas não das gorjetas. Em outra esquina, uma moça ruiva de sorriso encantador dividia um microfone com um violonista de camisa jeans, embalando aquelas canções bonitinhas em francês que não entendemos a letra, mas nos fazem sorrir com o ritmo simples e leve. Em frente ao Parque Trianon, um homem solitário de voz surpreendente iniciava uma série de músicas do Alceu Valença com público mais intimista, e do outro lado, depois do Masp, um grupo que alternava batuques em lata e no corpo fazia todos ali perto delirarem com as formas mais inusitadas de se produzir som. Aplausos, aplausos.

A avenida respirava cultura, música, poesia e felicidades que davam um pouco mais de cor ao céu cinzento e pesado do domingo. Vi sorrisos daqueles que vem despercebidos e ficam ainda por um tempo nos lábios; amores de todas as formas e cores de mãos dadas e bocas coladas; duplas jogando frescobol; e um clima gostoso que, antes, soava estranho a São Paulo. E toda a gente ali pôde respirar um fôlego profundo, sem pressa, que -certeza- deixará a segunda um pouco mais leve. Esse foi meu primeiro domingo nessa nova Paulista, e, posso afirmar, não será o último. Pois assim eu gosto de ver a avenida, assim eu gosto de ver a cidade: fechada para nossos carros; aberta para nós.

Caixa eletrônico

Insira o cartão no leitor. Retire o cartão. Aguarde. Processando….

Aí, foi! Selecione a operação desejada: saldo. Pronto. Insira o cartão. Agora retire. Aguarde. Processando…

Insira a senha. Caralho, porque essas letras mudam de lugar depois que eu aperto?! Cadê, cadê? Aqui, achei! Cadê a terceira… Pronto. Aguarde. Processando…

Posicione seu dedo no leitor digital. Eita, não sabia dessa! Mas vamos lá. Mais luzinhas piscando… Aí, vamos ver… Puta que pariu, cadê aquele dinheiro? Jurava que tinha mais na conta. Vamos lá, ver o extrato. Como é que eu volto pro menu?

Operação finalizada.

O que? Como assim? Taquipariu. Vai, de novo: Insira o cartão no leitor. Retire o cartão. Aguarde. Processando…

Menu. Extrato. Últimos 30 dias. Quando foi que eu usei esse dinheiro? Imprimir? Pra quê, gastar papel? Melhor ver na tela mesmo. Insira sua senha. Aqui… Aqui… Cadê? Aqui, foi! Posicione seu dedo no leitor digital. Até que eu gostei dessa parte. Aguarde. Processando…

Aí, foi. Vamos ver, vamos ver, mais pra baixo, talvez… Ah, tá, lembrei. Merda, preciso parar de sair com o Marquinhos, só vai em lugar careiro. Quem tem a cara de pau de vender uma long neck a doze reais? Tá, cadê a opção de saque? Será que é aqui?

Operação finalizada.

Ah, vai à merda!

Insira o cartão no caralho do leitor. Retire a merda do cartão. Aguarde. Processando…

Vai, saque. Insira a porra da senha: Aqui. Aqui. Aqui. Posicione seu dedo na luzinha bonitinha. Aguarde. Porra! Processando…

Valor: Melhor tirar um pouco a mais, vai ver tenho que pegar um táxi. Insira seu cartão. De novo?! Retire seu… Tá, tá, já sei! Aguarde. Processando…

(Suspiro).

Contando as cédulas…

Ô barulhinho infernal!

Pra que tanta demora só pra… Piiiiiiiii! Retire suas cédulas abaixo. Dobre-as em dois e guarde-as na carteira. Mande uma mensagem pro Marquinhos dizendo que está chegando.

Operação finalizada.

São Paulo registra manhã mais lenta do ano

O fato ocorreu na segunda-feira, afetando apenas a capital. Enquanto parte da população põe culpa na prefeitura, cientistas dizem que a culpa é do Cosmos.

A cidade de São Paulo amanheceu nesta segunda-feira (24) nublada e com chuva, registrando temperaturas abaixo dos 15 graus celsius. Afora isso, um outro fenômeno de características similares afetou a cidade: o tempo, cansado, adquiriu um ritmo muito mais lento e arrastado do que o esperado para o mês de agosto.

Nas principais avenidas foi registrada lentidão, bem como nos prédios, lojas e apartamentos de norte a sul da cidade, chegando a ser agoniante nas primeiras horas.

O fato não agradou muitos dos cidadãos, como relata Agustino Pereira, mecânico, preso no trânsito costumeiro das marginais: “Isso é um absurdo! Saí de casa às seis da manhã para chegar mais cedo e, olha aí, estou parado no trânsito faz sete horas e ainda não passa nem das nove!” Lupo Angostinni, empresário, preso no trânsito da Faria Lima, declarou: “Isso é culpa desse governo estapafúrdio, que mal consegue administrar a cidade, e agora perdeu controle até do tempo! Absurdo! Fora!” Luciana Braga, contadora, também relatou desgosto: “Assim não dá pra trabalhar no escritório! Já li tudo o que postaram no facebook, curti todas as fotos do instagram e respondi todas as mensagens de todos os grupos do whatsapp! Não tenho mais o que fazer, e nada do horário do almoço chegar.”

Nas escolas, a notícia foi recebida com entusiasmo pelos professores, mas não pelos alunos. Anderson Lima, professor de história  do ensino médio relatou: “Isso é uma maravilha! Já adiantei com a classe todo o conteúdo da semana, desse jeito não vai ter um que não vai passar no vestibular.” Já Lucas Martinez, estudante, comentou: “Podiam aproveitar pelo menos pra colocar uns recreios a mais, né?”

Em outros municípios da Grande São Paulo, o tempo pareceu correr normalmente, e os cidadãos evitaram entrar na capital, com medo do ocorrido. “Seria loucura querer estender ainda mais essa minha segunda-feira indo pra lá! Com esse frio ainda?”, questionou Olavo Santana, morador de Santo André que, hoje, decidiu ficar em casa.

Glécio Watachiro, professor do departamento de física da Universidade de São Paulo, procurado pela redação, explicou o evento: “Nunca antes observei algo do tipo. Parece que uma Supernova em uma galáxia próxima liberou quantidades imensas de energia que, ao entrar em contato com as nuvens de melancolia que pairam sobre a cidade, alterou a estrutura do espaço-tempo no local. Isso resultou num desaceleramento não necessariamente do tempo, mas da nossa percepção do tempo.” Watachiro comentou que ainda não é possível determinar o porquê de apenas a capital ter sido afetada, mas sua equipe já está trabalhando em busca de uma resposta. A NASA foi contactada pela redação, mas não houve resposta.

Ao meio dia, perto do horário de almoço, um grupo de oposição já havia se juntado em frente à prefeitura para protestar contra o desaceleramento imposto, exigindo estudos que comprovassem que ele realmente beneficiaria a população. Michel Alencar, aposentado e um dos organizadores da manifestação, ainda tentou puxar palavras de ordem contra as ciclovias, mas todos viram que ele não sabia do que estava falando e o ignoraram. O grupo se dispersou depois de mais de cinco horas de bate-panela na calçada, que já estava liberada às 13h30min. A prefeitura emitiu nota sobre os benefícios das ciclovias, mas nada comentou sobre a passagem do tempo.

Vista aérea da cidade durante o fenômeno.
Vista aérea da cidade durante o fenômeno.

Por volta das 18h, após uma exaustiva jornada de trabalho de quarenta e duas horas, os paulistanos, ao saírem do expediente, foram pegos de surpresa em mais uma reviravolta. O tempo, ao contrário de como vinha se portando, passou a correr em um ritmo frenético e acelerado, recobrando a normalidade apenas na terça-feira de madrugada. “Foi uma coisa de dar nó na cabeça. Quando cheguei em casa, já tudo começou a correr, os ponteiros do relógio ficaram doidos, e quando eu vi, já tinha que me aprontar pro trabalho de novo”, comentou Lúcia Braga, lojista. Pérfiro Pereira, porteiro, relatou: “Mal consegui sair da guarita, já tive que sentar nela de novo. Não descansei, mas pelo menos economizei na passagem do ônibus.”

Procurado novamente pela redação, Watachiro comentou que o tempo, entrando novamente nos eixos, padeceu de uma rápida aceleração para compensar o descompasso previamente sofrido. Concluiu que faz-se necessário refletir sobre o acontecido em outros campos além do seu. Declarou: “Se não mudarmos nossa rotina de vida, que dá mais e mais importância a coisas que não nos definem, como um trabalho ou uma carreira, vamos continuar experienciando esse fenômeno mais e mais vezes até, pelo menos, a chegada do fim de semana.” A redação não recebeu relatos de novos fenômenos temporais antes da conclusão desta edição.

Apesar da aparente normalidade que agora paira no ar, os paulistanos vão esta noite dormir incertos. Veremos como será a quarta-feira.