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Era noite e eu não tinha nada melhor para fazer. Peguei o celular para me distrair. Abri o Facebook.

Escreva aqui o que está pensando.

Eu não estava pensando em nada. Queria apenas ver o que todo mundo estava fazendo. Desci para o feed.

Luiza Henrique Freitas compartilhou o vídeo de Dog Lovers. Não assiti.

Sofia Lima, Victor Sabino e 47 pessoas curtiram a foto de Henrique José: “Meu melhor amigo.” A foto mostrava um cara de óculos escuros abraçado em um labrador. Nunca vi.

Anderson Costa publicou no grupo Acervo de gifs e imagens chiques: “É aquele ditado…” Um gif da Inês Brasil. 329 curtidas. 330.

Milena Hermann compartilhou um link do Estado de S. Paulo. Li a manchete. Uma crítica à educação. Curti.

Diego Rodriguez tem interesse no evento Virada Cultural 2017.

Milena Hermann compartilhou um link do Estado de S. Paulo. Uma matéria sobre o trânsito em São Paulo. Não li.

Mateus Franco atualizou sua foto de perfil. Uma foto de quando era criança. Fofo. Curti. Comentei: “Feio desde sempre.”

Thais Passos compartilhou a publicação de Renan Neto. Textão. Li até o final. Concordei. Curti. Fui ver os comentários. Tive nojo.

Paula Guimarães compartilhou o link de Buzzfeed Brasil: “16 motivos para amar Belo Horizonte.” Abri o link. Não li.

Fernando Meyer e Sensacionalista compartilharam um link. Ri. Compartilhei.

Guilherme Almeida publicou uma foto. Os pés dele na areia da praia. Curti.

Publicação sugerida: “Não deixe que a rotina te deixe pra baixo. Baixe o Messer e receba dicas diárias para quebrar o hábito!”

Recebi uma notificação.

Fernando Meyer curtiu sua publicação. Aproveitei para ver as outras.

Joyce Lima publicou no grupo Troca e Vendas São Paulo.

Mônica Monteiro publicou no grupo Todo Mundo Juntoooo.

Marcos Fernandéz te convidou para o evento Despedida!

Não abri nenhuma. Voltei para o feed.

Paula Guimarães compartilhou o vídeo de Catraca Foods: “Aprenda a fazer uma deliciosa coxinha de goiabada.” Assisti. Deve ficar bom mesmo. Algum dia eu faço.

Recebi outra notificação.

Sofia Lima curtiu seu comentário na foto de Mateus Franco.

Sofia Lima respondeu seu comentário na foto de Mateus Franco: “HAHAHAH.”

Abri a foto. Curti a risada. Voltei para o feed.

BBC News publicou um vídeo: “If you love animals but are afraid of heights, look away now.” Um vídeo da polícia de Taiwan resgatando um gatinho de um incêndio no 12º andar. Tenso.

Sofia Lima publicou uma foto: “Meu gatíneo lindo!” Ela segurando um filhote que adotou. Curti.

Henrique Herbert compartilhou a foto de Sou Hétero Mesmo! Meio homofóbico. Desfiz a amizade.

Manuel Nascimento Silva curtiu I Fucking Love Science.

Hiaité Siquit atualizou a foto de perfil. Duas pessoas de frente para a câmera usando máscaras. Uma de coelho, outra de cavalo. Qual delas era Hiaité?

Mônica Monteiro está em Museu do Louvre. Uma foto dela na frente da pirâmide de vidro. Curti.

Talita Nandes compartilhou a foto de Bonde da Esquerda. Não estava a fim de ler sobre política.

Stephany Limas Borges publicou uma foto. Os pés dela na areia da praia. Curti.

Beatriz Jardim compartilhou uma lembrança: “Lembram disso Antônio Tônio Hiaité Siquit?? 2 anos já!!!” Na foto, os 3 abraçados no que parece ser uma balada. Acho que não era  Hiaité com nenhuma das máscaras.

Caio Marinho publicou: “Vamos falar de política…” Textão. Passo.

Elaine Silva compartilhou a foto de Margarida. Na foto, uma mulher com jeito de modelo vestindo uma regata listrada e uma coroa de flores brancas. Loja de flores? Loja de roupa? Sei lá.

Paula Guimarães compartilhou o link de Buzzfeed Brasil: “8 sentimentos que só quem não gosta de acordar cedo conhece.” Já li esse.

Mônica Monteiro está em Torre Eifell. Uma foto dela na frente da torre. Fui curtir. Já tinha curtido mais cedo.

Apertei F5 e fui levado de volta ao começo da página. Ainda não estava pensando em nada. Reli as primeiras publicações. Nada de novo. Olhei para o relógio e me surpreendi: havia passado uma hora. E eu ainda estava entediado. Fiquei triste comigo mesmo por perder todo esse tempo.

Fechei o Facebook.

Abri o Instagram.

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Autobiografia

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“Minha vida daria um livro,” pensou diante do maço de folhas em branco.

“Um romance. 600 páginas,” decidiu, apontando o lápis.

Começou a escrever.

Na quinta palavra percebeu: “seria melhor uma novela.”

Após a primeira frase pensou melhor: “um conto, no máximo.”

Continuou a escrever.

“Cabe tudo em uma folha,” previu após a segunda frase.

“Três parágrafos: começo, meio e fim,” conformou-se, exausto.

Antes do segundo, já estava morto.

História condensada de um episódio romântico na era digital

Cruzaram-se numa das ruas onde por acaso passavam todos os dias a caminho do trabalho. Ele subia de ônibus, ela descia a pé. Foram se ver só de noite, quando apareceram um para o outro no Tinder. Não tinham amigos em comum nem descrições detalhadas no perfil, mas curtiam o Catraca Livre e a mesma página de memes. Ela gostou da foto dele no exterior. Ele gostou da foto dela na praia.

Combinaram.

Conversando, descobriram que ambos trabalhavam no mesmo bairro, gostavam de viajar e ir ao cinema. Marcaram num bar para tomarem uma cerveja. Os dois atrasaram e se desculparam pela demora. Tomaram três cervejas, conversaram sobre as séries que assistiam e sobre os textos do Gregório Duvivier. Ele chamou ela para seu apartamento. Ela aceitou.

Transaram.

Para ele foi bom. Para ela não foi ruim. Trocaram números e foram se falar dois dias depois. Marcaram de ver uma série na casa dela. No meio do primeiro episódio já estavam transando. Ele continuou achando bom. Ela achou que melhorou. Conversaram nus na cama sobre a vida e outras coisas. Transaram de novo. No dia seguinte ela adicionou ele no Facebook. Ele aceitou. Passaram a curtir as fotos e postagens um do outro. Às vezes comentavam, às vezes não.

Passaram-se dois meses.

Saíam juntos quase todos os finais de semana para um bar, uma balada ou um Netflix. Transavam regularmente, mas só depois do episódio que estavam assistindo. Ela o apresentou às suas amigas. Ele a apresentou aos seus amigos. Quando perguntavam se estavam namorando, desviavam de assunto. Ele não queria admitir, mas sentia ciúmes dos comentários de outros homens nas selfies dela. Ela não queria admitir, mas já estava cansada do sexo meia-boca dele.

Decidiram terminar.

Pararam de se falar por um tempo, mas continuam amigos no Facebook. Ele ainda curte algumas fotos que ela posta. Ela ainda curte alguns posts políticos dele. Seguem passando pela mesma rua todos os dias, sem se ver. Duas semanas atrás se encontraram por acaso no Happn.

Não combinaram.

Do diário de um gringo

Basileia2

Chegamos em Basileia, a famosa nação do sul, no fim do inverno. Apesar do frio e do tempo nublado, não deixou de nos surpreender a beleza natural do país, muito menos sua conturbada situação política, que conhecemos da boca de um taxista. Não demos muita bola, éramos apenas turistas, mas hoje, uma quarta-feira, pudemos ver a gravidade da situação.

Éstávamos na maior cidade do país, visitando um de seus pontos turísticos quando encontramos uma multidão. Vestiam todos as cores de sua bandeira nacional, cantavam a plenos pulmões e sopravam apitos. O clima parecia positivo, e resolvemos entrar no meio, para ver o que era. Nos sentimos com sorte, pois o povo de Basileia é famoso pela hospitalidade e a habilidade de fazer festa. Cantamos e gritamos palavras que nos ensinavam ali na hora, sem saber direito seu significado, e acompanhamos o trajeto.

Não demorou muito, vimos cartazes sendo erguidos e aplaudidos. Infelizmente quem os segurava não falava nossa língua, e ficamos sem entender. Quando um carro de som passou tocando o hino nacional e um homem de camisa começou a discursar lá de cima foi que ligamos os pontos e nos percebemos em algum tipo de manifestação política. Mas, diferente do que estávamos acostumados, ninguém parecia indignado ou sequer irritado. Não, estavam comemorando, estavam felizes.

Só mais tarde fomos encontrar alguém que pudesse nos explicar do que se tratava. Era um senhor de cabelos brancos, óculos escuros, bem vestido, usando a bandeira nacional amarrada ao pescoço, como uma capa. Felizmente falava nossa língua, apesar do sotaque forte e das pausas que fazia durante a conversa para achar a palavra certa. Perguntamos do que se tratava aquela passeata, e ele nos respondeu, entusiasmado:

“É um momento histórico! Um momento lindo da nossa nação! A corrupção venceu! Vencemos!”

Nos sentimos confusos com sua escolha de palavras. Veja bem, em nossa língua, as palavras para vencer e perder são graficamente semelhantes, porém a pronúncia é bem distinta. Sugerimos a correção, mas ele nos disse que era isso mesmo:

“Esse país foi feito na corrupção, faz parte do nosso cotidiano. É patrimônio cultural, que nem a desigualdade. E ultimamente tinha um povinho aí no poder que estava trabalhando para acabar com tudo isso. Não eram flor que se cheire, esses daí, também tinham suas roubalheiras. E como roubavam! Mas aí você veja só, começaram a apoiar projetos de lei para cassar quem estivesse envolvido com corrupção. Até investigação teve, escancarou tudo para o povo ver. Onde já se viu? É uma afronta!”

Nesse ponto a multidão passou a cantar algo e ele interrompeu sua fala para acompanhá-los, agitando os braços acima da cabeça. Depois se desculpou conosco e continuou:

“Se for  passar o pente fino no governo, não sobra um só político lá. E aí, como é que a gente fica? Numa anarquia? Num comunismo? Deus me livre! Melhor mesmo é deixar tudo como está, do jeito que a gente já se acostumou a viver. Por isso que o povo comemora. Conseguimos tirar aqueles trastes do poder e colocamos no lugar quem já garantiu que vai manter a roubalheira acontecendo, mas escondida, como deve ser. Viva a corrupção! Viva Basileia!”

Ele passou então a gritar o nome do país em direção à multidão, que respondia com aplausos e apitos. Queria que nos juntássemos a ele, mas apenas agradecemos a informação e nos retiramos. Viramos na próxima esquina e logo nos afastamos da manifestação em direção ao hotel, assustados.

Basileia é um lugar estranho. Não ficaremos aqui por muito tempo.

Adeus, Nova York

Pela janela do quarto vejo o pôr do sol. Se tivesse em mim alguma dessa matéria poética que encontro com tanta frequência nas palavras dos outros, fechadas nos livros que abarrotam minha estante em casa, arriscaria uns dez ou doze versos sobre as cores no céu, um quase degradé do azul profundo ao laranja em chamas. Um arco-íris de proporções homéricas. Talvez comparassse as cumulonimbus que começam a se acumular no horizonte com rochas místicas de alguma lenda do Oriente, assustadoramente escuras em seu cerne, mas que brilham como o ouro recém-nascido ao ver o dia pela primeira vez. Ou, muito provavelmente, as imaginaria como arranha-céus fantásticos que flutuam como (vejam só) nuvens, tornando o skyline nova-iorquino ainda mais alto. Mas como não tenho nada disso dentro de mim, me limito a contemplá-lo sem grandes interferências ou julgamentos de valor de minha parte.

Quando me sentei aqui para descobrir a fonte da luz dourada que nesse fim de tarde tornava as paredes mais agradáveis do que o branco impessoal deste quarto de hotel, não imaginava que ficaria aqui por tanto tempo, enfeitiçado por este espetáculo que agora transcorre sem se propagandear. O oposto ocorre a cinco estações de metrô daqui, no encontro da Broadway com a Sétima, e com mais cores ainda. Fui pego de surpresa, e aqui decidi ficar um tempo, como no sábado, em que encontrei por acaso um palco armado para uma apresentação do Shakespeare in the Park. Estava lá à procura de um Holden Caufield observando patos no lago congelado pela metade, mas acabei encontrando Othelo, Desdêmona e Iago. Encontrei ali também descanso para as pernas depois de um dia inteiro de turistagens, mas o frio manteve a tensão sobre os ombros e os maxilares, que logo começaram a tilintar à espera da neve que não caiu.

O sol desaparece por completo detrás de um prédio baixo de tijolos vermelhos levantado no pior lugar para este fim de tarde específico, e o quarto já está escuro demais para continuar escrevendo. Relutante, aciono o interruptor, obliterando o momento que vinha sendo construído do lado de fora. Era seu destino acabar, e não há nada que eu possa fazer. A memória vai se esvair, se alterar, e talvez desaparecer por completo daqui uns anos. Tirar uma foto não o faria juz, nem com todos os filtros possíveis. Também não sei desenhar bem o suficiente para retratá-lo. Mas uma máquina do tempo seria útil. Com ela, poderia voltar quantas vezes quisesse para assistir novamente a esse espetáculo. Ou talvez visitasse a Nova York dos filmes em preto e branco, dos homens de terno e chapéu, das mulheres de vestidos dourados e cabelos curtos, dos cigarros longos e do jazz. Chegando lá, descobriria quem construiu o maldito prédio e o convenceria a abandonar este trabalho. Assim, poderia ver o gran-finale, o dia sumindo no horizonte, a noite começando.

Esse devaneio me faz lembrar que a noite já começou de fato e em menos de uma hora devo estar no Dizzy’s Jazz Lounge se não quiser perder minha reserva. Minha última noite aqui merecia uma ocasião especial mas, infelizmente, não há tempo de me arrumar. Esvazio os bolsos de meu casaco e espalho sobre o lençol esticado os flyers, mapas de bolso e guias resumidos de todos os museus e pontos turísticos que visitei durante essa última semana. Enquanto faço isso, vou repassando mentalmente minha check-list para saber se, de acordo com o guia, cumpri todas as minhas tarefas nessa cidade: Museu de História Natural; Estátua da Liberdade; Times Square; Central Park; Grand Central Station; Empire State; Madison Square Garden; Carnegie Hall; Broadway e tantos outros que não deixaram rastros de papel. Encontro também um MetroCard que não sei se ainda possui créditos, e o levo comigo junto do mapa de bolso. Não quero me perder.

Saio para o ar frio da noite e logo sinto que deveria ter colocado um outro casaco por baixo deste. Duas esquinas à frente, decido parar um dos arquetípicos táxis amarelos, sento no banco de trás, me acomodando no ar quente e informo o destino para o motorista que, assim como eu, é estrangeiro. Cruzando as ruas dessa cidade, tenho a inquietante sensação de já conhecê-las. É como estar de volta a um lugar em que nunca se esteve, ou reencontrar um desconhecido. Culpa de Holywood e sua paixão por Manhatttan. Se um dia a Big Apple for de fato destruída em algum dos eventos apocalípticos que os norte-americanos adoram encenar, não será difícil reconstruí-la rua por rua, prédio por prédio, tomando como base somente as cenas dos filmes rodados aqui. Nós, os turistas, nem notaríamos a diferença.

Vejo na calçada um casal passeando abraçado e sinto que gostaria de estar lá fora, respirando o ar nova-iorquino. Peço para o motorista que pare, aqui está bom, obrigado. Dou o dinheiro e esqueço da gorjeta, mas ele me lembra do costume com um pigarro e um olhar perfurante pelo retrovisor. Desço, mas logo me arrependo da minha decisão. Enfio a cabeça nos ombros e vou andando encolhido até a esquina, de onde já posso ver o Central Park e, mais à frente, meu destino. Olho para o céu, está escuro, coberto de nuvens que os prédios iluminam. Tomara que neve hoje.

Eles

Eles sabem porque você está triste.

Eles sabem suas frustrações.

Eles sabem porque desistiu dos seus sonhos.

Eles sabem porque você está insatisfeito.

Eles sabem como melhorar.

Eles sabem que caminho seguir.

Eles sabem o que vai te alegrar.

Eles sabem sua personalidade.

Eles sabem o seu signo.

Eles sabem seu ascendente.

Eles sabem a cor da sua aura.

Eles sabem que gostos você deve ter.

Eles sabem que filmes assistir.

Eles sabem que livros ler.

Eles sabem como você deve se vestir.

Eles sabem como você deve se portar.

Eles sabem se você deve fazer a barba.

Eles sabem se é hora de se depilar.

Eles sabem como você deve transar.

Eles sabem com quem você deve transar.

Eles sabem quando engravidar.

Eles sabem porque seus filhos não te respeitam.

Eles sabem porque você não encontrou o amor.

Eles sabem aonde encontrá-lo.

Eles sabem que vícios largar.

Eles sabem que manias adotar.

Eles sabem o que você deve comer.

Eles sabem o quanto você deve beber.

Eles sabem quantas horas dormir.

Eles sabem que horas acordar.

Eles sabem que exercícios fazer.

Eles sabem quando tirar férias.

Eles sabem para onde viajar.

Eles sabem que decisões tomar.

Eles sabem como organizar sua sala.

Eles sabem como ganhar dinheiro.

Eles sabem como ter tempo.

Eles sabem como ser feliz.

Eles sabem como se deve viver.

Eles sabem.

Você não.

Pescadores

Dia desses tive uma recaída e inventei de voltar a escrever poesia. Era uma terça-feira bonita, e eu estava comemorando seis meses livre do vício com uma folga no serviço. Estava sentado num daqueles bancos ali, na outra margem do lago, fumando tranquilo um cigarro, o caderno aberto no colo, vendo o dia passar. O sol brilhava alegre, o vento farfalhava as folhas de leve e a sombra estava tão gostosa que não deu outra, comecei a sentir as pontadas na barriga. Tentei resistir, mas foi me dando um desarranjo no estômago, uns rebuliços de doer mesmo, aí subiu um borbulho quente na garganta, veio o gosto azedo na boca e pronto, vomitei verso e lasanha em cima do caderno todo. Uma imundice só. Passada a náusea, a boca já lavada, fui espiar o tamanho do estrago e vejam só vocês, não é que a coisa era linda? Rapaz, era uma obra-prima, poema lapidadinho assim, cristalino, 24 quilates. Li e reli o danado, e a cada volta eu via que era sem igual, poesia antológica, para os anais da literatura, um clássico. Era curtinho, uma página e meia, e isso deixava ele ainda mais bonito, porque terminava antes de cansar. Só de lembrar, olha só, já me vem esse sorriso besta no rosto e uma saudade aqui no peito. Mas só lendo mesmo para entender, vocês iriam adorar.

Como é? Pois então, é por isso que eu vim aqui falar com vocês. Não sei onde ele está. Quer dizer, acho que sei, mas é preciso procurar. O que aconteceu foi que fiquei tão impressionado com aquilo que arranquei a folha do caderno para ler o poema mais de perto. E não é que me bate um vento justo nessa hora? Levou aquela minha poesia embora e largou ela no meio do lago. Entrei nadando atrás dela, mas a danada, boa que era, afundou rapidinho, feito pedra. Não deu nem tempo de assinar. Aí vieram os guardas do parque correndo me tirar dali, levei multa e o escambau, nem deram ouvidos para minha história. Por isso, se algum dia vocês pescarem daí do fundo, em vez de um peixe, o poema mais lindo do mundo, não precisa me devolver não, que dessas coisas eu quero distância. Estou limpo. Só peço que acreditem que fui eu que escrevi, e que me deem os devidos créditos. Obrigado.

Pontos de vista

Dois senhores sentaram-se às seis em um dos bancos do mirante. O horizonte estava alaranjado, e o céu, escuro, exibia algumas estrelas. Do sol via-se apenas o cume, queimando num amarelo vivo.

— Como é belo o pôr-do-sol — disse o primeiro ajeitando seu chapéu para ver melhor.

— Perdão? — questionou o segundo apoiando as mãos sobre a bengala.

— O pôr-do-sol — repetiu o primeiro, se desculpando pela intromissão. — É magnífico de se ver, não acha?

— Acho que está enganado, — disse o segundo, — esse aí é o nascer do sol.

— Não, meu caro. Venho aqui todos os dias e posso lhe dizer que o sol está se pondo.

— Nada disso. Conheço muito bem o sol e posso afirmar com toda a razão que está nascendo.

— Ora, deixe de bobagens, não vê como o céu está escurecendo?

— Melhor trocar os óculos. É evidente que está clareando.

— Impossível! Veja aqui, meu relógio. Marca seis horas da tarde, e é sempre nessa hora que o sol desce.

— Pois o meu marca também seis horas, mas da manhã. E digo que o sol sobe.

— Nada disso. Acabo de passar um dia inteiro acordado, e sei muito bem que está se pondo.

— E eu lhe digo que acordei cedo justamente para vê-lo nascer. Mas o senhor está atrapalhando o momento com suas maluquices de velho gagá!

— Gagá? Ora, o senhor é que está maluco, achando que o sol está nascendo. Seu velhote demente!

— Cale a sua boca! — bradou o segundo. — Fique quieto para não me estragar a aurora!

— Aurora? Quantas vezes vou ter de dizer que o sol se põe! — berrou o primeiro, levantando-se e estufando o peito.

— Já te disse que nasce! — insistiu o segundo, levantando-se também e fechando os punhos à frente do rosto.

— Está se pondo! — gritou o primeiro, se atirando contra o segundo.

— Está nascendo! — retrucou o segundo, se atirando sobre o primeiro.

Atracaram-se disparando golpes altos e baixos com toda a ferocidade de seus corpos senis. O primeiro derrubou o segundo e logo se pôs sobre ele, acertando murros em seu rosto. O segundo, alcançando sua bengala, acertou-a em cheio nas costas do primeiro e, pondo-se de pé, atacou o outro enquanto estava caído. O primeiro conseguiu se defender de um dos golpes e jogar a bengala do segundo para longe. O segundo partiu para cima do primeiro, e os dois rolaram sobre a grama. Entre socos, chutes e joelhadas, os senhores seguiram se engulfinhando, derramando sangue um do outro.

— Canalha! — gritou o primeiro ao quebrar um dos dentes do segundo.

— Patife! — berrou o segundo afundando uma das costelas do primeiro.

Quando, exaustos, não conseguiram mais se acertar, decidiram que a briga não levaria a nada. Sentaram-se novamente sobre o banco e limparam o sangue do rosto. O primeiro rasgou um pedaço da camisa e enfaixou o rasgo aberto na testa. O segundo cuspiu uma bola de baba e sangue no chão, sentindo com a língua o novo buraco na gengiva. Propuseram, então, uma forma alternativa de resolver essa desavença.

— Vamos observar o horizonte — disse o primeiro. — Se o sol subir, está nascendo.

— Correto — disse o segundo. — E se descer, está se pondo.

— Exato. Estamos combinados?

— Estamos. Agora cale a boca.

E se puseram a observar atentamente o movimento no horizonte. Mas o sol, sem ter sido informado da disputa, preferiu ficar parado e observar como era linda a rotação de Vênus.

Último capítulo

Adeus, livro chato. Sei que prometi que dessa vez seria para valer, que você ia sair da espera na minha fila de leituras e iríamos juntos até o final. Mas infelizmente chegou a hora de nos separarmos.

Foi bom no começo, nós dois nos conhecendo, tímidos, tentando nos decifrar. Sabíamos tão pouco um do outro que o mistério apimentava um pouco as coisas. E tudo que eu já tinha ouvido falar sobre você me deixava curioso, foi o que mais me atraiu a princípio. Todas as boas recomendações que me davam de você; todas as críticas positivas que lia nos jornais; todas as hitórias de que você era uma leitura essencial; todos os relatos de como você mudou a vida de tantos leitores; tudo isso foi o que me fez tomar uma atitude quando te vi de longe na estante, te pegar em minhas mãos e dizer que iria ler de cabo a rabo suas mil e duzentas páginas.

Tudo eram rosas naqueles tempos. Estávamos tão em sincronia nas primeiras páginas que o mundo parecia não existir, éramos só nós dois e nada mais. Mas depois de um tempo as coisas foram amornando. Você ficava sempre na mesma, não acontecia nada de novo, se fechava no seu próprio mundinho e não me dizia nada com clareza. A leitura não estava engatando, mas eu não queria desistir assim tão fácil de você, ficava me convencendo de que logo, logo ia encontrar esse lado seu que encantou tanta gente. Mas depois de cem páginas, senti que o esforço para te decifrar não estava valendo a pena e, tenho que admitir, comecei a ficar entediado. Quando estávamos juntos eu até me esforçava, mas acabava te lendo por obrigação, sem guardar informações, pensando apenas quando aquilo tudo ia acabar. Enquanto isso, meus amigos estavam por aí lendo livros deliciosos e já partindo para outros, sempre me dando recomendação atrás de recomendação. E eu sentia vontade de ler outras coisas, mas me controlava para focar a leitura em você.

O problema é que esse desejo, esse impulso, foi ficando mais forte, difícil de controlar. Quando a gente começou a se desentender, acabei indo para um sebo com um colega. Ele estava procurando uma edição específica de um Cervantes e eu acabei indo junto, só para fazer companhia mesmo. Não dei muita bola para todas aquelas lombadas me encarando, mas quando vi, já estava nas mãos de um volume de poesia que me tirou os pés do chão. Aquelas poesias tinham um gingado maroto, uma malemolência que eu não consegui resistir, e acabamos indo juntos para casa. Eu sei que nós nunca firmamos nenhum contrato de exclusividade nem nada, mas eu me senti culpado fazendo isso. Me perdoe.

Ele acabou me levando para conhecer algumas antologias de contos e reuniões de ensaios do mesmo autor. Nós ríamos e nos divertíamos, passava horas com eles, e isso me fazia bem. Enquanto isso, nós dois fomos nos vendo cada vez menos. Me ensinaram tantas coisas novas e me fizeram refletir sobre tantas outras que não sei se nós dois ainda combinamos. Você sabe, as pessoas mudam. Não é você, sou eu.

Por isso, acho melhor terminarmos aqui mesmo essa relação que já não está boa, vamos admitir, esfriou. Mas podemos ser amigos ainda. Se quiser, posso te apresentar uma amiga que está louca para te conhecer. E o aniversário dela está chegando, vai ser perfeito! Quem sabe vocês dois não combinam e a leitura engata logo de primeira?

Adeus, livro chato. Te desejo tudo de bom nessa vida, mas nós dois, me desculpe, não fomos feitos um para o outro.