Meu encontro com Papai Noel

Era natal, e estávamos na casa da vovó, em Salvador. Mais de vinte membros da família reunidos na sala e eu não sabia o nome da maioria, muito menos as relações exatas de parentesco. Só sei que usava uma roupa que fui obrigado a vestir e tentava evitar as passas escondidas no arroz da ceia. Perto da meia noite avistaram-no.

“Olha o Papai Noel ali! Na janela!” disse um dos adultos, e nós, as crianças, corremos para o parapeito, mas tudo o que vimos foram os prédios do bairro da Graça e suas decorações luminosas.

“Acabou de passar com o trenó, entrou naquele prédio ali!” nos explicaram com entusiasmo.

“Olha ele passando aqui!” alguém gritou da área de serviço, nos chamando.

Chegando lá, nem sinal dele. Nos levaram em seguida para um dos quartos: “Acabou de passar ali!”

“Olha lá ele de novo!” uma tia gritou entusiasmada da sala, e voltamos ao ponto inicial, rindo, mas também com medo. Papai Noel existia e estava perto, brincando de esconde-esconde atrás dos prédios.

O telefone tocou e um dos adultos atendeu.

“Alô? Ivan, vem aqui, é pra você.”

“Ho ho ho! Feliz Natal!” disse a voz do outro lado, muito parecida com a de meu avô.

“Quem é?” desconfiei.

“Ho ho ho, é o Papai Noel!”

“Não é, não. É o vovô que tá falando,” eu disse.

Minha mãe sorriu e apontou para o vovô, mostrando que ele estava longe do telefone.

“É o tio Tito, então.”

Também não, ele estava logo ali, na cozinha.

Olhei em volta. Todos que poderiam estar interpretando o bom velhinho do outro lado da linha estavam à vista, longe de qualquer telefone. E isso só poderia significar uma coisa.

Papai Noel disse que os presentes estavam no térreo, e as crianças deveriam ir buscá-los. Descemos em seis no elevador, que tinha um cheiro inegável de elevador e não se movia rápido o suficiente para nossa animação. Lá embaixo, saímos adoidados pela porta, buscando os presentes no salão de festas, no jardim perto da portaria e nas escadas de incêncio, sem sucesso.

Algum tempo depois o porteiro veio até nós, dizendo que o Papai Noel havia ligado. Estava lá em cima, com os presentes. Voltamos direto para o elevador, sem conter o riso e o nervosismo que cresciam a cada andar. Entramos no apartamento esperando encontrá-lo em seu trenó ocupando toda a sala, mas foi a família quem nos recebeu sorrindo.

“Poxa, vocês perderam, ele acabou de sair! Mas deixou os presentes ali embaixo da árvore pra vocês.”

Passei o resto da noite rasgando embrulhos e brincando com meus primos e primas, todos felizes com os brinquedos novos. Apostamos corridas com os carrinhos, desviando de obstáculos sobre a mesa de jantar; brigamos para ver qual Power Ranger era o mais forte; e montamos torres imensas de Lego, agradecendo ao bom velhinho por seguir à risca as instruções de nossas cartinhas, perdoando-o por eventuais erros. Em nenhum momento nos perguntamos porque só os adultos conseguiram vê-lo.

Com os anos, deixei de acreditar nele, e as noites de Natal assumiram uma atmosfera menos mágica, mais mundana. Mas me lembro dessa noite todo dia 24, quando digo aos priminhos, após a ceia, que o Papai Noel acabou de passar pela janela da sala.

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Social

Era noite e eu não tinha nada melhor para fazer. Peguei o celular para me distrair. Abri o Facebook.

Escreva aqui o que está pensando.

Eu não estava pensando em nada. Queria apenas ver o que todo mundo estava fazendo. Desci para o feed.

Luiza Henrique Freitas compartilhou o vídeo de Dog Lovers. Não assiti.

Sofia Lima, Victor Sabino e 47 pessoas curtiram a foto de Henrique José: “Meu melhor amigo.” A foto mostrava um cara de óculos escuros abraçado em um labrador. Nunca vi.

Anderson Costa publicou no grupo Acervo de gifs e imagens chiques: “É aquele ditado…” Um gif da Inês Brasil. 329 curtidas. 330.

Milena Hermann compartilhou um link do Estado de S. Paulo. Li a manchete. Uma crítica à educação. Curti.

Diego Rodriguez tem interesse no evento Virada Cultural 2017.

Milena Hermann compartilhou um link do Estado de S. Paulo. Uma matéria sobre o trânsito em São Paulo. Não li.

Mateus Franco atualizou sua foto de perfil. Uma foto de quando era criança. Fofo. Curti. Comentei: “Feio desde sempre.”

Thais Passos compartilhou a publicação de Renan Neto. Textão. Li até o final. Concordei. Curti. Fui ver os comentários. Tive nojo.

Paula Guimarães compartilhou o link de Buzzfeed Brasil: “16 motivos para amar Belo Horizonte.” Abri o link. Não li.

Fernando Meyer e Sensacionalista compartilharam um link. Ri. Compartilhei.

Guilherme Almeida publicou uma foto. Os pés dele na areia da praia. Curti.

Publicação sugerida: “Não deixe que a rotina te deixe pra baixo. Baixe o Messer e receba dicas diárias para quebrar o hábito!”

Recebi uma notificação.

Fernando Meyer curtiu sua publicação. Aproveitei para ver as outras.

Joyce Lima publicou no grupo Troca e Vendas São Paulo.

Mônica Monteiro publicou no grupo Todo Mundo Juntoooo.

Marcos Fernandéz te convidou para o evento Despedida!

Não abri nenhuma. Voltei para o feed.

Paula Guimarães compartilhou o vídeo de Catraca Foods: “Aprenda a fazer uma deliciosa coxinha de goiabada.” Assisti. Deve ficar bom mesmo. Algum dia eu faço.

Recebi outra notificação.

Sofia Lima curtiu seu comentário na foto de Mateus Franco.

Sofia Lima respondeu seu comentário na foto de Mateus Franco: “HAHAHAH.”

Abri a foto. Curti a risada. Voltei para o feed.

BBC News publicou um vídeo: “If you love animals but are afraid of heights, look away now.” Um vídeo da polícia de Taiwan resgatando um gatinho de um incêndio no 12º andar. Tenso.

Sofia Lima publicou uma foto: “Meu gatíneo lindo!” Ela segurando um filhote que adotou. Curti.

Henrique Herbert compartilhou a foto de Sou Hétero Mesmo! Meio homofóbico. Desfiz a amizade.

Manuel Nascimento Silva curtiu I Fucking Love Science.

Hiaité Siquit atualizou a foto de perfil. Duas pessoas de frente para a câmera usando máscaras. Uma de coelho, outra de cavalo. Qual delas era Hiaité?

Mônica Monteiro está em Museu do Louvre. Uma foto dela na frente da pirâmide de vidro. Curti.

Talita Nandes compartilhou a foto de Bonde da Esquerda. Não estava a fim de ler sobre política.

Stephany Limas Borges publicou uma foto. Os pés dela na areia da praia. Curti.

Beatriz Jardim compartilhou uma lembrança: “Lembram disso Antônio Tônio Hiaité Siquit?? 2 anos já!!!” Na foto, os 3 abraçados no que parece ser uma balada. Acho que não era  Hiaité com nenhuma das máscaras.

Caio Marinho publicou: “Vamos falar de política…” Textão. Passo.

Elaine Silva compartilhou a foto de Margarida. Na foto, uma mulher com jeito de modelo vestindo uma regata listrada e uma coroa de flores brancas. Loja de flores? Loja de roupa? Sei lá.

Paula Guimarães compartilhou o link de Buzzfeed Brasil: “8 sentimentos que só quem não gosta de acordar cedo conhece.” Já li esse.

Mônica Monteiro está em Torre Eifell. Uma foto dela na frente da torre. Fui curtir. Já tinha curtido mais cedo.

Apertei F5 e fui levado de volta ao começo da página. Ainda não estava pensando em nada. Reli as primeiras publicações. Nada de novo. Olhei para o relógio e me surpreendi: havia passado uma hora. E eu ainda estava entediado. Fiquei triste comigo mesmo por perder todo esse tempo.

Fechei o Facebook.

Abri o Instagram.

esquerda

Pescadores

Dia desses tive uma recaída e inventei de voltar a escrever poesia. Era uma terça-feira bonita, e eu estava comemorando seis meses livre do vício com uma folga no serviço. Estava sentado num daqueles bancos ali, na outra margem do lago, fumando tranquilo um cigarro, o caderno aberto no colo, vendo o dia passar. O sol brilhava alegre, o vento farfalhava as folhas de leve e a sombra estava tão gostosa que não deu outra, comecei a sentir as pontadas na barriga. Tentei resistir, mas foi me dando um desarranjo no estômago, uns rebuliços de doer mesmo, aí subiu um borbulho quente na garganta, veio o gosto azedo na boca e pronto, vomitei verso e lasanha em cima do caderno todo. Uma imundice só. Passada a náusea, a boca já lavada, fui espiar o tamanho do estrago e vejam só vocês, não é que a coisa era linda? Rapaz, era uma obra-prima, poema lapidadinho assim, cristalino, 24 quilates. Li e reli o danado, e a cada volta eu via que era sem igual, poesia antológica, para os anais da literatura, um clássico. Era curtinho, uma página e meia, e isso deixava ele ainda mais bonito, porque terminava antes de cansar. Só de lembrar, olha só, já me vem esse sorriso besta no rosto e uma saudade aqui no peito. Mas só lendo mesmo para entender, vocês iriam adorar.

Como é? Pois então, é por isso que eu vim aqui falar com vocês. Não sei onde ele está. Quer dizer, acho que sei, mas é preciso procurar. O que aconteceu foi que fiquei tão impressionado com aquilo que arranquei a folha do caderno para ler o poema mais de perto. E não é que me bate um vento justo nessa hora? Levou aquela minha poesia embora e largou ela no meio do lago. Entrei nadando atrás dela, mas a danada, boa que era, afundou rapidinho, feito pedra. Não deu nem tempo de assinar. Aí vieram os guardas do parque correndo me tirar dali, levei multa e o escambau, nem deram ouvidos para minha história. Por isso, se algum dia vocês pescarem daí do fundo, em vez de um peixe, o poema mais lindo do mundo, não precisa me devolver não, que dessas coisas eu quero distância. Estou limpo. Só peço que acreditem que fui eu que escrevi, e que me deem os devidos créditos. Obrigado.

Último capítulo

Adeus, livro chato. Sei que prometi que dessa vez seria para valer, que você ia sair da espera na minha fila de leituras e iríamos juntos até o final. Mas infelizmente chegou a hora de nos separarmos.

Foi bom no começo, nós dois nos conhecendo, tímidos, tentando nos decifrar. Sabíamos tão pouco um do outro que o mistério apimentava um pouco as coisas. E tudo que eu já tinha ouvido falar sobre você me deixava curioso, foi o que mais me atraiu a princípio. Todas as boas recomendações que me davam de você; todas as críticas positivas que lia nos jornais; todas as hitórias de que você era uma leitura essencial; todos os relatos de como você mudou a vida de tantos leitores; tudo isso foi o que me fez tomar uma atitude quando te vi de longe na estante, te pegar em minhas mãos e dizer que iria ler de cabo a rabo suas mil e duzentas páginas.

Tudo eram rosas naqueles tempos. Estávamos tão em sincronia nas primeiras páginas que o mundo parecia não existir, éramos só nós dois e nada mais. Mas depois de um tempo as coisas foram amornando. Você ficava sempre na mesma, não acontecia nada de novo, se fechava no seu próprio mundinho e não me dizia nada com clareza. A leitura não estava engatando, mas eu não queria desistir assim tão fácil de você, ficava me convencendo de que logo, logo ia encontrar esse lado seu que encantou tanta gente. Mas depois de cem páginas, senti que o esforço para te decifrar não estava valendo a pena e, tenho que admitir, comecei a ficar entediado. Quando estávamos juntos eu até me esforçava, mas acabava te lendo por obrigação, sem guardar informações, pensando apenas quando aquilo tudo ia acabar. Enquanto isso, meus amigos estavam por aí lendo livros deliciosos e já partindo para outros, sempre me dando recomendação atrás de recomendação. E eu sentia vontade de ler outras coisas, mas me controlava para focar a leitura em você.

O problema é que esse desejo, esse impulso, foi ficando mais forte, difícil de controlar. Quando a gente começou a se desentender, acabei indo para um sebo com um colega. Ele estava procurando uma edição específica de um Cervantes e eu acabei indo junto, só para fazer companhia mesmo. Não dei muita bola para todas aquelas lombadas me encarando, mas quando vi, já estava nas mãos de um volume de poesia que me tirou os pés do chão. Aquelas poesias tinham um gingado maroto, uma malemolência que eu não consegui resistir, e acabamos indo juntos para casa. Eu sei que nós nunca firmamos nenhum contrato de exclusividade nem nada, mas eu me senti culpado fazendo isso. Me perdoe.

Ele acabou me levando para conhecer algumas antologias de contos e reuniões de ensaios do mesmo autor. Nós ríamos e nos divertíamos, passava horas com eles, e isso me fazia bem. Enquanto isso, nós dois fomos nos vendo cada vez menos. Me ensinaram tantas coisas novas e me fizeram refletir sobre tantas outras que não sei se nós dois ainda combinamos. Você sabe, as pessoas mudam. Não é você, sou eu.

Por isso, acho melhor terminarmos aqui mesmo essa relação que já não está boa, vamos admitir, esfriou. Mas podemos ser amigos ainda. Se quiser, posso te apresentar uma amiga que está louca para te conhecer. E o aniversário dela está chegando, vai ser perfeito! Quem sabe vocês dois não combinam e a leitura engata logo de primeira?

Adeus, livro chato. Te desejo tudo de bom nessa vida, mas nós dois, me desculpe, não fomos feitos um para o outro.

Assalto

Pode levar tudo, moço, pode levar. Só não me machuca, por favor. Toma aqui o dinheiro, o celular e a carteira. Os cartões? As senhas estão nesse papelzinho aqui. Pega o relógio e a mochila também. Leva o carro, aqui as chaves. É o sedan preto parado na frente da farmácia, pode levar. Leva a chave da casa também, pode ficar com ela, com a tv, os móveis, o computador e os livros. Embaixo do colchão tem um dinheirinho guardado, pode pegar. Só não me machuca, por favor.

Toma meus sapatos, e as meias. As roupas também, pode levar. Aqui, essa correntinha. É de prata, herança do meu pai, mas pode levar. Só não me machuca, por favor. Pode ficar com meu emprego, leva minha mesa e meu horário de almoço. Meus rins? Aqui, pode levar. Os olhos e a vesícula biliar também. Leva minhas digitais. Leva os pulmões, os pelos encravados, leva o corpo, leva tudo. Só não me machuca, por favor.

Pode pegar meus sonhos também, as memórias de infância e os amores todos, pode pegar. Leva minha preguiça matinal, leva meu pico de café, leva tudo, pode levar. Leva minhas frustrações e meus medos irracionais, moço. Leva meus pesadelos. Leva minhas noites sem sono. Leva minhas esperanças. Leva minhas expectativas. Leva minhas preocupações. Leva minhas paranóias. Leva minhas certezas. Leva tudo, moço. Leva tudo.

Obrigado, já me sinto mais leve.

burnout

…e por conta disso sofro de uma ansiedade terrível, que não me deixa dormir direito e faz os dias passarem rápidos demais, as horas parecem minutos, estou sempre apressado, atrasado, entro no trabalho e já é hora do almoço, saio para almoçar, já é hora de voltar, se assisto um filme, já é hora de dormir e quando durmo, já é hora de acordar, me sinto sufocado, sem tempo para nada, nem para respirar, tudo são vírgulas, orações emparelhadas, sem uma pausa, um ponto para descansar um pouco, nem parágrafos para mudar de assunto, dar um senso de transição às coisas, fui ao médico fazer uns exames, meu colesterol estava alto, minha pressão também, é stress, ele disse, se não tomar cuidado vai ter um ataque de nervos, ou coisa pior, me recomendou tirar férias, espairecer, descansar e melhorar minha alimentação, e foi o que eu fiz, cortei as carnes vermelhas, frituras e cerveja, peguei um mês de folga no trabalho e fui para a europa pela primeira vez, sempre foi um sonho, o aeroporto foi estressante, não consegui dormir no voo, assisti três filmes e comi frango, achei que tinham perdido minha mala, mas acharam e fui turistar, londres é cinza, paris é lotada, berlim é triste, roma é chata, veneza fede, lisboa é feia e barcelona é linda, na volta perderam minha mala de fato, voltei direto para o trabalho, abracei a rotina, o stress voltou, tente se exercitar, recomendou o médico, comecei a correr três vezes por semana, não ajudou, me ofereceram remédios, passei a ter sono, minha chefe reclamou, disse que não estava rendendo, fui demitido, entrei em depressão, perdi meu amigos, me afastei da família, adotei um, dois, três gatos, o athos, o porthos e o aramis, ia adotar o d’artagnan, mas eles encheram a casa de pelos e me deram alergia, o médico recomendou me livrar deles, e foi o que fiz, arranjei outro emprego, ganho pouco, o chefe é um escroto, estou sempre correndo de lá para cá, daqui para lá, levo trabalho pra casa, pego trânsito para ir, pego trânsito para voltar, não tenho sossego, quase não paro em casa, doutor, e por conta disso sofro de uma ansiedade terrível, que…

Área de serviço

Gosto de vir aqui para pensar de vez em quando. Aqui, pelo menos, consigo me afastar das luzes acesas e do som das televisões ligadas em três cômodos diferentes. Aqui, pelo menos, consigo fumar meus cigarros em paz, vendo a fumaça se dispersar. Basta vir para cá e fechar a porta da cozinha.

Daqui, gosto de olhar para as outras varandas, que se empilham e se encaram, umas em cima das outras, umas de frente para as outras. São todas iguais: o mesmo espaço planejado, o mesmo tanque, a mesma porta para o quarto de empregada, o mesmo buraco na parede para passar a mangueira do botijão de gás, a mesma porta fechada para a cozinha.

E mesmo assim são diferentes. As roupas no varal, as máquinas de lavar, as redes para não deixar os gatos caírem, as plantas em vasinhos coloridos, nada se repete. Acho bonito isso, essa coisa de serem únicas apesar de iguais; as infinitas possibilidades de transformação do mesmo espaço, como um reflexo da personalidade dos moradores. Talvez escreva algo sobre isso mais tarde. Por enquanto, fumo.

Bato o cigarro na beirada do cinzeiro. Uma coluna cinzenta de tabaco queimado despenca sem estrondo, dispersando no ar flocos esbranquiçados do mesmo material. E esses flocos pairam no ar incertos, alheios à gravidade -que os puxa para baixo- e ao vento -que os empurra para cima. Sobem, descem e vagueiam sem que o destino implique qualquer sentido ou direção: os arbustos do canteiro, no térreo; o chão gelado de uma das varandas, onde passarão despercebidos; o topo de um saco de lixo fechado; um outro lugar que nunca saberei onde é. Tanto faz, nada disso importa. Flutuam, apenas, livres de preocupações, dançando e rodopiando alegres até não poderem mais.

Filhos da puta. Sabem viver a vida melhor do que eu.

Boas lembranças

Algo curioso me aconteceu certa vez, e gostaria de compartilhar a experiência. Era abril, acho, porque lembro de estar lendo On The Road numa edição de bolso de capa amarela que não cabia direito no bolso traseiro da bermuda, deixando o título visível próximo à minha cintura. Saí de casa em direção à rodoviária do Tietê, levando nas costas uma mochila grande visivelmente lotada. Era menor do que essas de 60 ou 70 litros que usamos em mochilões ou viagens longas, porém maior do que a mochila para laptop cotidiana. Nas laterais estavam presos um saco de dormir e uma barraca, cada um de um lado para balancear o peso, que mesmo assim pendia mais para o direito, o da barraca. Me aproximava da estação Clínicas do metrô pelo lado do hospital, quando um homem de cabelos brancos e camiseta preta veio falar comigo.

“Você me lembra da minha juventude”, ele começou sem introduções, “era muito boa aquela época”. Logo imaginei que ele seria um desses jovens buscando doações para ONGs beneficientes, mas a ausência de uma prancheta ou de um colete colorido me pôs em dúvida do que aquele homem queria comigo. Não o ignorei, mas também não parei para conversar, e ele seguiu ao meu lado, falando: “Eu costumava viajar muito, desse jeito aí, com mochila nas costas e barraca. Naquela época a gente não usava saco de dormir, tinha que se virar pra se aquecer de noite, e às vezes fazia uma friaca danada, mas era muito bom de qualquer jeito.” Notei que sua fala possuía um certo espírito jovem, assim como seu jeito de andar, que não condiziam com a idade avançada que imaginei para ele.

Caminhamos lado a lado, e na entrada do longo corredor dividido em dois que sempre achei muito semelhante à silhueta de dois pulmões, me contou a história de uma de suas viagens: “Tem uma vez que eu nunca me esqueço. A gente pegou uma kombi –há muito tempo atrás- colocou as malas no fundo e fomos rodar o estado.” Enquanto contava, não olhava para mim nem para o caminho, mas para algum outro lugar, longe. “Era muito gostoso aquilo. Quando a gente cansava de dirigir, parava em algum lugar, montava a barraca e dormia. De manhã a gente tomava banho em rios, em cachoeiras, às vezes nem tomava banho, era muito bom. Não gastava quase nada também –porque, afinal, a gente não tinha quase nada também- mas dinheiro não fazia falta, porque a gente se virava com o que encontrava, na natureza mesmo.” Notei que ele sorria bastante enquanto falava, e não fiz muito além de concordar, para não atrapalhar suas memórias com minhas falas. “E aí a gente foi viajando, conhecemos muitas cachoeiras, dormimos a céu aberto, fomos até Minas e acabamos a viagem no Rio, depois de mês já, sem nada na mão, sem nem gasolina pra voltar pra cá!”, e riu uma risada sincera, gostosa de ouvir.

“É viajando que a gente conhece as pessoas de verdade, vemos quem sabe lidar com problemas e quem só liga pra si mesmo. Tinha o Alemão, que foi com a gente, que era o mais responsável do grupo, e todo mundo achava que ele ia saber como resolver os problemas, mas na hora do perrengue que a gente viu: o cara foi o primeiro a se deseperar, saiu correndo e não deu a mão pra ninguém. Mas tiveram outros que deu pra ver que se importavam com todo mundo, e quando a água batia na bunda eles conseguiam ficar calmos e ajudar o resto a resolver a situação.”

Conversamos um pouco mais até o final do corredor, logo antes da bilheteria: “Viajar é uma das melhores coisas a se fazer”, ele disse, e eu não tinha como discordar, “pelo Brasil e pelo exterior, especialmente quando se é jovem. Viajar e ler são as duas melhores e mais ricas experiências para qualquer um.” Concordei com um aceno de cabeça e quando fui comentar, ele continuou: “Por isso eu achei muito legal te ver passando ali na entrada, com a mochila, me fez pensar pra onde estava indo.” Sorrimos um para o outro. “Você me lembrou de uma época boa da minha vida. Obrigado.” E se despediu, subindo de dois em dois os degraus da escadaria, desaparecendo na claridade do dia tão rápido quanto apareceu.

“Foi um prazer”, respondi, sem saber se ele me escutou. Me permiti um tempinho para absorver melhor aquela situação antes de ir para a plataforma e seguir viagem.

Nunca mais vi o homem de cabelos brancos de novo, e nunca soube nada dele além do que me contou naqueles breves minutos. Mas lembro de nossa conversa às vezes, quando por ventura abro um livro novo ou fecho a mala mais uma vez, e tenho certeza de que ele estava certo.

Esse episódio se passou há mais de dois anos, e é uma lembrança muito boa que tenho. Obrigado por escutarem.

O sabiá insone e seus colegas de terapia

Saiu no Estadão há uns dois meses o resultado de uma pesquisa do Instituto Passarinhar revelando que os sabiás-laranjeira paulistanos sofrem de insônia. A causa apontada pelos cientistas não é de surpreender: o estresse com o trânsito e o barulho urbano. Acho que acertaram em cheio quando o escolheram como a ave símbolo do nosso estado.

Após a revelação, cresceu a visibilidade e a preocupação acerca dos chamados transtornos psíquicos comuns, e outras espécies deixaram de lado suas neuras para descobrir se também não estariam sofrendo de algo. Não demorou para que fossem dados os diagnósticos:

O charmoso bem-te-vi descobriu que a insegurança que vinha sentindo, os episódios repentinos de taquicardia e de falta de ar não eram sinais de uma morte iminente, como vinha se desesperando, mas sim os sintomas clássicos de uma síndrome do pânico, vejam só. O beija-flor, lindo, gracioso e veloz, por sua vez, sentia dificuldade de se concentrar; quando chegava em uma flor, já pensava na próxima que iria visitar, nos filhotes no ninhos, nas contas a pagar, no aluguel vencido, e não conseguia se satisfazer nem com todo o néctar que ingerisse. Não deu outra, descobriu que sofre da síndrome do pensamento acelerado.

A depressão, o grande mal do século XXI, para a surpresa de muitos, está afetando também as aves, como acontece com o imponente caracará, que por conta dela se isolou dos amigos e da família, que não o vêem há meses. As pombas também sofrem com ela, vagando cabisbaixas pelas praças, incapacitadas de sentir prazer e esquecendo da própria higiene. O gavião miúdo, que sempre teve o caracará como ídolo inatingível, inconsciente de seu estado psíquico, sofre de um complexo de inferioridade agudo que deixa sua auto-estima em constante baixa, especialmente na época de acasalamento.

As maritacas, como já se suspeitava, sofrem todas de uma coletiva síndrome de Turette, gritando impropérios pelos galhos da cidade para todos ouvirem. Os tico-ticos, como já vinham alertando na canção, são cleptomaníacos e não se atém somente ao fubá, furtando lojas e objetos pessoais de amigos. Pica-paus estão sofrendo de perda de memória a curto prazo; quero-queros têm crises de irritabilidade e relataram alguns episódios psicóticos; rolinhas sofrem crises de pânico em multidões; tesourinhas padecem de crises de ansiedade; e os pardais, de nomofobia.

Todos eles, antes do diagnóstico, tentavam passar uma imagem de aparente normalidade enquanto escondiam seus medos até de si próprios. Evitavam procurar ajuda profissional ou de amigos próximos por vergonha de serem taxados de loucos. Hoje em dia, estão todos medicados e fazem terapia em grupo todas as segundas e quintas às sete e meia, num consultório na Lapa. 

Nos outros dias, vivem a mesma vida de sempre nessa cidade neurótica, no ritmo apressado e incessante que –dizem- é a marca registrada dos paulistanos. Em nenhum momento pensaram em parar um insante no caminho do trabalho e escutar os pássaros cantando.

Paisagem cotidiana

Engata a primeira. Abaixa o freio. Anda. Para. Puxa o freio.

O céu é de um azul imaculado, imenso, impiedoso. Não chove há semanas, e a secura já se percebe nos lábios rachados pela cidade, um grave incômodo. O ar parece de um amarelo sujo, esconde o perfil dos prédios mais distantes. O sol, lá em cima, brilha um pouco demais, tornando o dia quente -muito quente- e isso significa uma coisa apenas: o rio, que corta a cidade em duas fatias desiguais, vai estar cheirando mais do que o normal. As águas paradas de seu curso artificialmente retilíneo fervem sob o calor abrasante, exalando um refinado aroma pungente que atravessa as barreiras físicas dos vidros escuros, vence as atmosferas postiças de gleid autoesporte e se faz sentido pelas muitas narinas que já o conhecem bem: carniça fermentada, com notas de enxofre.

Engata a primeira. Abaixa o freio. Anda. Para. Puxa o freio.

“Ô seu bosta, enfia essa buzina no teu cu, caralho! Não tá vendo que essa merda não tá andando pra ninguém, escroto? Tá achando que essa caceta vai fazer meu carro voar? Ah, te foder! Calor do caralho! Merda, já tô todo cagado de suor.”

Engata a primeira. Abaixa o freio. Anda. Para. Puxa o freio.

As motos passam despreocupadas nos corredores vazios, desviando dos retrovisores emparelhados, os rostos escondidos nos capacetes. Os ônibus resfolegam como grandes paquidermes, movendo seus corpos pesados a passos curtos, lentos. Nas traseiras dos carros, mensagens aos colegas estacionários: “Tá estressado? Vá surfar”, diz o Corsa sedan. “Foi deus quem me deu”, se orgulha o Gol vermelho. “Me lave”, clama o encardido Celta branco na poeira que o limpador de parabrisas não alcança. Uma família adesiva sorri a todos da traseira de um Jeep limpo demais para um Jeep: mãe, pai, dois filhos e um cachorro, nenhum deles afetado pelo estresse. Devem ser surfistas.

Engata a primeira. Abaixa o freio. Anda. Para. Puxa o freio.

“Merda, não tenho nada no carro pra enxugar esse suor, vou chegar fedendo no escritório. Devia deixar um desodorante no carro, talvez no porta-luvas, é só tirar os cds de lá, colocar num daqueles estojos que cabem uns 50, aí dá pra deixar na porta, aqui do lado, fica até mais fácil de pegar, mas ninguém usa cd mais, será que ainda vendem esses estojos? Que saco, não tem nada de bom no rádio a essa hora? Vontade de ouvir um Lou Reed, cadê o cd? Cadê? Cadê? Achei! Mas tá com o do Bob Marley dentro. Vai esse mesmo, faz tempo que não escuto. Old pirates, yes they rob I, sold I to the merchant ship. Será que passa barco no rio hoje em dia? Quer dizer, além dos que tentam limpar essa água podre, cheia de lixo, espuma flutuando, olha lá quanta garrafa de plástico boiando, como é que meu avô conseguia nadar aí quando era jovem? Bom, naquela época o rio era outro, a água era limpa, as margens eram naturais, com grama, com árvores, não tinha essa avenida, não tinha esse trânsito, não tinha esse cheiro, não tinha nada disso que tem hoje, só o rio.”

Engata a primeira. Abaixa o freio. Anda. Para. Puxa o freio.

Os motores tremem, ansiosos para correr, gritar, ranger; reflexo desses motoristas enclausurados, do rádio ligado, dos sovacos molhados. De dentro de um ônibus vermelho, a cabeça de um motorista espia para fora da janela o retrovisor lateral, enquadrando o rosto no reflexo: primeiro o lado direito, depois o esquerdo. Ajeita as sobrancelhas grossas com o dedo médio e com um único mindinho alisa a superfície do nariz, analisa a textura da pele, como se à procura de evidências de um cravo ou uma espinha já espremidos. Coloca os óculos seguros por um cordão no pescoço e se observa mais atentamente. Olha os dentes, tenta tirar algo com a língua, alisa os cabelos que crescem apenas nas laterais, começa a pentear para os lados os fios espessos do bigode com o polegar e o indicador, mas o ronco das motos e dos carros se acentua mais uma vez, anunciando a iminência do movimento, o trânsito que anda. Finalmente.

Engata a primeira, abaixa o freio, e volta a desaparecer detrás de seu volante.