Tia Lolinda

1.

Quando eu era pequeno, não suportava os almoços em família aos domingos. A bisa me metia medo, toda enrugada e quieta no seu canto, os adultos insistiam em me tratar como a criança que eu de fato era, e tia Lolinda tinha sua mania de querer se matar. Ia várias vezes para a varanda ou para o jardim com seu copinho de conhaque, tirava uma navallha da bolsa e abria os pulsos.

Tia Lolinda. Sempre achei engraçado ela ter esse nome, feia que só. Toda pelancuda, usava uns vestidos largos, compridos, pareciam as toalhas de mesa lá de casa. Tinha umas olheiras pretas, fundas, e os dentes que sobravam estavam todos podres, escuros.

Quem dizia que era mania era meu pai. Uma vez, não lembro quando, mas era pequeno, perguntei a ele por que tia Lolinda abria os pulsos.

— Ela está se matando, — ele me disse com um tom de reprovação.

— Se matando? — eu perguntei. Não tinha a mesma noção que tenho hoje da morte. — E por que não morreu ainda?

— Porque está se matando devagarinho. De pouco em pouco vai se matando, até que um dia, vai ver só, vai estar morta.

— Mas por que tia Lolinda quer se matar?

— Porque tem essa mania, desde que eu conheço sua mãe e os parentes dela que ela já faz isso.

— Por quê?

— Porque é besta. Porque tem merda na cabeça, é viciada nisso de abir os pulsos. Isso eu não quero nunca que você faça, está me ouvindo? Me promete que nunca vai fazer isso.

— Prometo, pai. Prometo não me matar. Mas por quê?

Era estranho ver tia Lolinda se matando. Eu achava, naquele tempo, que a gente morria de um jeito sofrido, que nem nos filmes: ficava deitado, com cara de dor, falando umas coisas com dificuldade para alguém que estava ali, segurando nossa cabeça e chorando. Aí era só falar uma última frase, fechar os olhos e pronto, morria. Mas tia Lolinda parecia muito bem, na verdade. Ficava ali de pé ou no máximo puxava uma cadeira, com os pulsos abertos só o suficiente para pingar um pouco de sangue. E não parecia estar com dor nem nada. Pelo contrário, sorria e conversava com os outros adultos, gesticulando e sujando a roupa de todo mundo. E depois não morria coisa nenhuma, fechava o corte e voltava para a sala ou ia ao banheiro ou ajudava na cozinha.

 

2.

Uma vez, quando passei perto dela, me pegou no colo para fazer um carinho. Ficou me dizendo como eu era um menino lindo, e que ia derreter muito coração quando crescesse. Quem me dera, tia, quem me dera. Me deu um sorriso besta e apertou minhas bochechas. Foi aí que perguntei:

— Tia Lô, — eu chamava ela de tia Lô — por que é que você abre os pulsos desse jeito?

— É para me dar um alívio, meu filho. — Deu um sorriso todo desdentado e apertou o pulso para sair mais um pouco de sangue. — E que alívio que isso me dá.

— Meu pai disse que você está tentando se matar, de pouquinho em pouquinho.

— É?

— É sim.

— Então diga pro seu papai que ele é um boboca e que vá cagar no mato, bem longe de mim.

Nessa hora minha mãe me deu um grito do sofá para fazer não sei o quê, e saí do colo de tia Lolinda com algumas manchas de sangue na camisa. Mais tarde contei para o meu pai sobre onde ela tinha dito para ele ir defecar. Não ficou nem um pouco feliz.

 

3.

Já muitos anos depois, quando eu era adolescente, tia Lolinda foi parar no hospital. Não me contaram o motivo, só disseram que era por conta da sua mania. Ficou uma boa semana lá, deitada na cama, toda entubada, e minha mãe se revezava com o tio Hélio para passar as noites no quarto. Os médicos até tentaram, mas o tratamento não fez efeito a tempo.

A princípio, é claro, senti saudades de Lolinda, todos sentimos. Mas com o passar dos meses, fomos percebendo como a atmosfera ficava mais leve nos domingos quando não havia alguém na varanda ou no jardim cortando os pulsos. Com isso, as reuniões de família foram se tornando, para mim, mais toleráveis. E quando passei a poder beber junto dos adultos, se tornaram até agradáveis.

— Vai com calma, — me disse meu pai certo natal ao me servir a terceira taça de vinho.

— Pode ficar tranquilo, pai, não é como se eu estivesse tentando me matar.

— Se lembra do que você me prometeu. Nada de querer cortar os pulsos.

— Pode deixar, — eu respondi, e brindamos a uma boa saúde para todos.

Mas eu não mantive minha promessa. Quando passei na faculdade, me mudei para longe e fui viver a vida estudantil, com toda aquela fase de novas experiências. Cortar os pulsos foi uma delas. Não gostei a princípio, acho que exagerei no corte, minha pressão baixou e, no desespero, quiseram chamar uma ambulância. Mas foi só me sentar um pouco e esperar melhorar para voltar à festa, que não consegui curtir direito. Até aí, nada de mais.

A coisa veio mesmo quando estava no último ano. Aquele stress de terminar o curso, decidir o que fazer no futuro, o medo da vida adulta, das responsabilidades, estavam me deixando muito mal. Hoje em dia, olhando para trás, nem foi tão ruim assim, mas na época a pressão era insuportável. Por conta disso parei numa banca de jornal voltando do mercado, um dia, e comprei algumas navalhas. Sem nem saber porquê, só comprei. Chegando em casa, abri o pacote e fiz um corte bem pequeno, quase nada, no pulso esquerdo. Nunca mais parei.

 

4.

Demorei para contar à família que tinha pego a mania de tia Lolinda, e eles levaram numa boa, para minha surpresa. Me deram um sermão, é claro, lembrando de como ela tinha ficado no hospital e tudo, mas me trataram como o adulto que eu era e respeitaram minha decisão.

Não aceitaram cem por cento, então eu evito abrir os pulsos nas reuniões de família, mesmo quando a vontade vem com força. Geralmente invento uma desculpa para dar uma volta, ou vou embora mais cedo, para poder me cortar à vontade. Eu sei, eu sei, é um hábito horrível de se ter. Mas tia Lolinda estava certa: que alívio que isso me dá.

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Melhor que dois voando

Um passarinho cagou no meu ombro hoje. O fato, completamente ordinário, apesar de não tão comum quanto possa parecer ao se olhar as carecas e ombros das estátuas no centro, tomou, para mim, ares inquietantes pelo fato já constatado de que não há pássaros no meu bairro. Essas ruas, esses prédios, não foram feitos para eles. Não temos árvores para sentarem ou construírem ninhos. Não temos terra nem grama para procurarem alimento. Nem os velhos nos bancos da pracinha levam comida para engordá-los. Moro há mais de vinte anos na mesma travessa da Luciano Guaporanga, duas abaixo do cruzamento com a São Miguel, e em todos esses anos nunca vi por aqui um passarinho que fosse cruzando o céu cinzento. Bom, se nem as pombas vem nos visitar, porque então viriam sabiás, beija-flores, bem-te-vis, maritacas?

Por isso a surpresa hoje pela manhã. Parei em frente à loja de sapatos para ler a manchete do jornal que acabara de comprar na banca e fui atingido no ombro por um projétil branco-amarelado ainda morno. Demorei um segundo para que o susto passasse e eu entendesse o que era aquela massa que começava a se derreter pelo algodão da minha camisa. Tive que entrar na loja para pedir um papel, por gentileza, para não ter que usar o jornal.

Mais tarde, conversando com um amigo que mora na rua de baixo, fiquei sabendo que também fora atingido por uma descarga semelhante. Em seu caso, porém, a gravidade foi maior, pois o pássaro, consciente ou não de onde mirava, acertou-o bem na cabeça quando estava entrando no ônibus e ele só foi reparar que não era um pingo gordo de chuva após pagar a passagem. Em seguida, me contou que seu vizinho também fora alvo, sendo acertado na mão quando a colocou para fora da janela para ver se a chuva tinha parado. E esse vizinho, por sua vez, contou que sua nora, que mora duas ruas pra baixo, por pouco não foi acertada também. O dejeto se espatifou logo à frente de seus pés, passando a centímetros do nariz.

“O bairro virou uma grande privada, hoje,” ele disse, “amanhã não saio sem meu guarda-chuva!” Rimos da situação e a conversa tomou outros rumos: futebol, política, religião. O assunto das fezes só voltou à tona quando nos despedimos, antes do sol se pôr. “No fundo eu estou feliz,” meu vizinho disse, “é bom saber que os pássaros estão de volta pelo bairro. Mesmo que para cagar em cima de nós.”

Voltei para o prédio caminhando, tentando ao máximo não sair debaixo das marquises das lojas. Atento a qualquer movimentação nos ares, bater de asas, pios, o que fosse, mantive sempre um olho no céu, que, de tão colorido, mais parecia uma pintura.

Lançamento do livro “Elaborações sobre Nada e Coisa Nenhuma”

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Leitores e leitoras queridos, é com muita legria (e um certo frio na barriga) que venho anunciar o lançamento do livro “Elaborações sobre Nada e Coisa Nenhuma”, escrito por mim (Ivan, prazer) e pelo amigo Pedro, do rotinaechinelos! O lançamento será na loja Acolá (Rua Padre Carvalho, 52), em São Paulo, no dia 27 de novembro, a partir das 14h. Será uma ótima oportunidade para conhecer os autores, trocar uma ideia e ganhar uma dedicatória bonitinha na folha de rosto.

Da contra capa do livro: “‘Elaborações sobre Nada e Coisa Nenhuma’ traz contos, crônicas e poesias de Ivan Cardoso e Pedro Tavares, produzidos entre 2006 e 2016. Alguns foram publicados em blogs pessoais e outros são inéditos.” Ou seja, se você gosta do que é produzido aqui no Contos do Cardoso e no rotinaechinelos, essa é uma oportunidade de conhecer o nosso trabalho que não está na internet!

Para mais informações, é só perguntar.

Espero vocês lá!

Autobiografia

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“Minha vida daria um livro,” pensou diante do maço de folhas em branco.

“Um romance. 600 páginas,” decidiu, apontando o lápis.

Começou a escrever.

Na quinta palavra percebeu: “seria melhor uma novela.”

Após a primeira frase pensou melhor: “um conto, no máximo.”

Continuou a escrever.

“Cabe tudo em uma folha,” previu após a segunda frase.

“Três parágrafos: começo, meio e fim,” conformou-se, exausto.

Antes do segundo, já estava morto.

História condensada de um episódio romântico na era digital

Cruzaram-se numa das ruas onde por acaso passavam todos os dias a caminho do trabalho. Ele subia de ônibus, ela descia a pé. Foram se ver só de noite, quando apareceram um para o outro no Tinder. Não tinham amigos em comum nem descrições detalhadas no perfil, mas curtiam o Catraca Livre e a mesma página de memes. Ela gostou da foto dele no exterior. Ele gostou da foto dela na praia.

Combinaram.

Conversando, descobriram que ambos trabalhavam no mesmo bairro, gostavam de viajar e ir ao cinema. Marcaram num bar para tomarem uma cerveja. Os dois atrasaram e se desculparam pela demora. Tomaram três cervejas, conversaram sobre as séries que assistiam e sobre os textos do Gregório Duvivier. Ele chamou ela para seu apartamento. Ela aceitou.

Transaram.

Para ele foi bom. Para ela não foi ruim. Trocaram números e foram se falar dois dias depois. Marcaram de ver uma série na casa dela. No meio do primeiro episódio já estavam transando. Ele continuou achando bom. Ela achou que melhorou. Conversaram nus na cama sobre a vida e outras coisas. Transaram de novo. No dia seguinte ela adicionou ele no Facebook. Ele aceitou. Passaram a curtir as fotos e postagens um do outro. Às vezes comentavam, às vezes não.

Passaram-se dois meses.

Saíam juntos quase todos os finais de semana para um bar, uma balada ou um Netflix. Transavam regularmente, mas só depois do episódio que estavam assistindo. Ela o apresentou às suas amigas. Ele a apresentou aos seus amigos. Quando perguntavam se estavam namorando, desviavam de assunto. Ele não queria admitir, mas sentia ciúmes dos comentários de outros homens nas selfies dela. Ela não queria admitir, mas já estava cansada do sexo meia-boca dele.

Decidiram terminar.

Pararam de se falar por um tempo, mas continuam amigos no Facebook. Ele ainda curte algumas fotos que ela posta. Ela ainda curte alguns posts políticos dele. Seguem passando pela mesma rua todos os dias, sem se ver. Duas semanas atrás se encontraram por acaso no Happn.

Não combinaram.

Do diário de um gringo

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Chegamos em Basileia, a famosa nação do sul, no fim do inverno. Apesar do frio e do tempo nublado, não deixou de nos surpreender a beleza natural do país, muito menos sua conturbada situação política, que conhecemos da boca de um taxista. Não demos muita bola, éramos apenas turistas, mas hoje, uma quarta-feira, pudemos ver a gravidade da situação.

Éstávamos na maior cidade do país, visitando um de seus pontos turísticos quando encontramos uma multidão. Vestiam todos as cores de sua bandeira nacional, cantavam a plenos pulmões e sopravam apitos. O clima parecia positivo, e resolvemos entrar no meio, para ver o que era. Nos sentimos com sorte, pois o povo de Basileia é famoso pela hospitalidade e a habilidade de fazer festa. Cantamos e gritamos palavras que nos ensinavam ali na hora, sem saber direito seu significado, e acompanhamos o trajeto.

Não demorou muito, vimos cartazes sendo erguidos e aplaudidos. Infelizmente quem os segurava não falava nossa língua, e ficamos sem entender. Quando um carro de som passou tocando o hino nacional e um homem de camisa começou a discursar lá de cima foi que ligamos os pontos e nos percebemos em algum tipo de manifestação política. Mas, diferente do que estávamos acostumados, ninguém parecia indignado ou sequer irritado. Não, estavam comemorando, estavam felizes.

Só mais tarde fomos encontrar alguém que pudesse nos explicar do que se tratava. Era um senhor de cabelos brancos, óculos escuros, bem vestido, usando a bandeira nacional amarrada ao pescoço, como uma capa. Felizmente falava nossa língua, apesar do sotaque forte e das pausas que fazia durante a conversa para achar a palavra certa. Perguntamos do que se tratava aquela passeata, e ele nos respondeu, entusiasmado:

“É um momento histórico! Um momento lindo da nossa nação! A corrupção venceu! Vencemos!”

Nos sentimos confusos com sua escolha de palavras. Veja bem, em nossa língua, as palavras para vencer e perder são graficamente semelhantes, porém a pronúncia é bem distinta. Sugerimos a correção, mas ele nos disse que era isso mesmo:

“Esse país foi feito na corrupção, faz parte do nosso cotidiano. É patrimônio cultural, que nem a desigualdade. E ultimamente tinha um povinho aí no poder que estava trabalhando para acabar com tudo isso. Não eram flor que se cheire, esses daí, também tinham suas roubalheiras. E como roubavam! Mas aí você veja só, começaram a apoiar projetos de lei para cassar quem estivesse envolvido com corrupção. Até investigação teve, escancarou tudo para o povo ver. Onde já se viu? É uma afronta!”

Nesse ponto a multidão passou a cantar algo e ele interrompeu sua fala para acompanhá-los, agitando os braços acima da cabeça. Depois se desculpou conosco e continuou:

“Se for  passar o pente fino no governo, não sobra um só político lá. E aí, como é que a gente fica? Numa anarquia? Num comunismo? Deus me livre! Melhor mesmo é deixar tudo como está, do jeito que a gente já se acostumou a viver. Por isso que o povo comemora. Conseguimos tirar aqueles trastes do poder e colocamos no lugar quem já garantiu que vai manter a roubalheira acontecendo, mas escondida, como deve ser. Viva a corrupção! Viva Basileia!”

Ele passou então a gritar o nome do país em direção à multidão, que respondia com aplausos e apitos. Queria que nos juntássemos a ele, mas apenas agradecemos a informação e nos retiramos. Viramos na próxima esquina e logo nos afastamos da manifestação em direção ao hotel, assustados.

Basileia é um lugar estranho. Não ficaremos aqui por muito tempo.

Adeus, Nova York

Pela janela do quarto vejo o pôr do sol. Se tivesse em mim alguma dessa matéria poética que encontro com tanta frequência nas palavras dos outros, fechadas nos livros que abarrotam minha estante em casa, arriscaria uns dez ou doze versos sobre as cores no céu, um quase degradé do azul profundo ao laranja em chamas. Um arco-íris de proporções homéricas. Talvez comparassse as cumulonimbus que começam a se acumular no horizonte com rochas místicas de alguma lenda do Oriente, assustadoramente escuras em seu cerne, mas que brilham como o ouro recém-nascido ao ver o dia pela primeira vez. Ou, muito provavelmente, as imaginaria como arranha-céus fantásticos que flutuam como (vejam só) nuvens, tornando o skyline nova-iorquino ainda mais alto. Mas como não tenho nada disso dentro de mim, me limito a contemplá-lo sem grandes interferências ou julgamentos de valor de minha parte.

Quando me sentei aqui para descobrir a fonte da luz dourada que nesse fim de tarde tornava as paredes mais agradáveis do que o branco impessoal deste quarto de hotel, não imaginava que ficaria aqui por tanto tempo, enfeitiçado por este espetáculo que agora transcorre sem se propagandear. O oposto ocorre a cinco estações de metrô daqui, no encontro da Broadway com a Sétima, e com mais cores ainda. Fui pego de surpresa, e aqui decidi ficar um tempo, como no sábado, em que encontrei por acaso um palco armado para uma apresentação do Shakespeare in the Park. Estava lá à procura de um Holden Caufield observando patos no lago congelado pela metade, mas acabei encontrando Othelo, Desdêmona e Iago. Encontrei ali também descanso para as pernas depois de um dia inteiro de turistagens, mas o frio manteve a tensão sobre os ombros e os maxilares, que logo começaram a tilintar à espera da neve que não caiu.

O sol desaparece por completo detrás de um prédio baixo de tijolos vermelhos levantado no pior lugar para este fim de tarde específico, e o quarto já está escuro demais para continuar escrevendo. Relutante, aciono o interruptor, obliterando o momento que vinha sendo construído do lado de fora. Era seu destino acabar, e não há nada que eu possa fazer. A memória vai se esvair, se alterar, e talvez desaparecer por completo daqui uns anos. Tirar uma foto não o faria juz, nem com todos os filtros possíveis. Também não sei desenhar bem o suficiente para retratá-lo. Mas uma máquina do tempo seria útil. Com ela, poderia voltar quantas vezes quisesse para assistir novamente a esse espetáculo. Ou talvez visitasse a Nova York dos filmes em preto e branco, dos homens de terno e chapéu, das mulheres de vestidos dourados e cabelos curtos, dos cigarros longos e do jazz. Chegando lá, descobriria quem construiu o maldito prédio e o convenceria a abandonar este trabalho. Assim, poderia ver o gran-finale, o dia sumindo no horizonte, a noite começando.

Esse devaneio me faz lembrar que a noite já começou de fato e em menos de uma hora devo estar no Dizzy’s Jazz Lounge se não quiser perder minha reserva. Minha última noite aqui merecia uma ocasião especial mas, infelizmente, não há tempo de me arrumar. Esvazio os bolsos de meu casaco e espalho sobre o lençol esticado os flyers, mapas de bolso e guias resumidos de todos os museus e pontos turísticos que visitei durante essa última semana. Enquanto faço isso, vou repassando mentalmente minha check-list para saber se, de acordo com o guia, cumpri todas as minhas tarefas nessa cidade: Museu de História Natural; Estátua da Liberdade; Times Square; Central Park; Grand Central Station; Empire State; Madison Square Garden; Carnegie Hall; Broadway e tantos outros que não deixaram rastros de papel. Encontro também um MetroCard que não sei se ainda possui créditos, e o levo comigo junto do mapa de bolso. Não quero me perder.

Saio para o ar frio da noite e logo sinto que deveria ter colocado um outro casaco por baixo deste. Duas esquinas à frente, decido parar um dos arquetípicos táxis amarelos, sento no banco de trás, me acomodando no ar quente e informo o destino para o motorista que, assim como eu, é estrangeiro. Cruzando as ruas dessa cidade, tenho a inquietante sensação de já conhecê-las. É como estar de volta a um lugar em que nunca se esteve, ou reencontrar um desconhecido. Culpa de Holywood e sua paixão por Manhatttan. Se um dia a Big Apple for de fato destruída em algum dos eventos apocalípticos que os norte-americanos adoram encenar, não será difícil reconstruí-la rua por rua, prédio por prédio, tomando como base somente as cenas dos filmes rodados aqui. Nós, os turistas, nem notaríamos a diferença.

Vejo na calçada um casal passeando abraçado e sinto que gostaria de estar lá fora, respirando o ar nova-iorquino. Peço para o motorista que pare, aqui está bom, obrigado. Dou o dinheiro e esqueço da gorjeta, mas ele me lembra do costume com um pigarro e um olhar perfurante pelo retrovisor. Desço, mas logo me arrependo da minha decisão. Enfio a cabeça nos ombros e vou andando encolhido até a esquina, de onde já posso ver o Central Park e, mais à frente, meu destino. Olho para o céu, está escuro, coberto de nuvens que os prédios iluminam. Tomara que neve hoje.

Pontos de vista

Dois senhores sentaram-se às seis em um dos bancos do mirante. O horizonte estava alaranjado, e o céu, escuro, exibia algumas estrelas. Do sol via-se apenas o cume, queimando num amarelo vivo.

— Como é belo o pôr-do-sol — disse o primeiro ajeitando seu chapéu para ver melhor.

— Perdão? — questionou o segundo apoiando as mãos sobre a bengala.

— O pôr-do-sol — repetiu o primeiro, se desculpando pela intromissão. — É magnífico de se ver, não acha?

— Acho que está enganado, — disse o segundo, — esse aí é o nascer do sol.

— Não, meu caro. Venho aqui todos os dias e posso lhe dizer que o sol está se pondo.

— Nada disso. Conheço muito bem o sol e posso afirmar com toda a razão que está nascendo.

— Ora, deixe de bobagens, não vê como o céu está escurecendo?

— Melhor trocar os óculos. É evidente que está clareando.

— Impossível! Veja aqui, meu relógio. Marca seis horas da tarde, e é sempre nessa hora que o sol desce.

— Pois o meu marca também seis horas, mas da manhã. E digo que o sol sobe.

— Nada disso. Acabo de passar um dia inteiro acordado, e sei muito bem que está se pondo.

— E eu lhe digo que acordei cedo justamente para vê-lo nascer. Mas o senhor está atrapalhando o momento com suas maluquices de velho gagá!

— Gagá? Ora, o senhor é que está maluco, achando que o sol está nascendo. Seu velhote demente!

— Cale a sua boca! — bradou o segundo. — Fique quieto para não me estragar a aurora!

— Aurora? Quantas vezes vou ter de dizer que o sol se põe! — berrou o primeiro, levantando-se e estufando o peito.

— Já te disse que nasce! — insistiu o segundo, levantando-se também e fechando os punhos à frente do rosto.

— Está se pondo! — gritou o primeiro, se atirando contra o segundo.

— Está nascendo! — retrucou o segundo, se atirando sobre o primeiro.

Atracaram-se disparando golpes altos e baixos com toda a ferocidade de seus corpos senis. O primeiro derrubou o segundo e logo se pôs sobre ele, acertando murros em seu rosto. O segundo, alcançando sua bengala, acertou-a em cheio nas costas do primeiro e, pondo-se de pé, atacou o outro enquanto estava caído. O primeiro conseguiu se defender de um dos golpes e jogar a bengala do segundo para longe. O segundo partiu para cima do primeiro, e os dois rolaram sobre a grama. Entre socos, chutes e joelhadas, os senhores seguiram se engulfinhando, derramando sangue um do outro.

— Canalha! — gritou o primeiro ao quebrar um dos dentes do segundo.

— Patife! — berrou o segundo afundando uma das costelas do primeiro.

Quando, exaustos, não conseguiram mais se acertar, decidiram que a briga não levaria a nada. Sentaram-se novamente sobre o banco e limparam o sangue do rosto. O primeiro rasgou um pedaço da camisa e enfaixou o rasgo aberto na testa. O segundo cuspiu uma bola de baba e sangue no chão, sentindo com a língua o novo buraco na gengiva. Propuseram, então, uma forma alternativa de resolver essa desavença.

— Vamos observar o horizonte — disse o primeiro. — Se o sol subir, está nascendo.

— Correto — disse o segundo. — E se descer, está se pondo.

— Exato. Estamos combinados?

— Estamos. Agora cale a boca.

E se puseram a observar atentamente o movimento no horizonte. Mas o sol, sem ter sido informado da disputa, preferiu ficar parado e observar como era linda a rotação de Vênus.

Guerra total

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Auróvia, a grande nação do norte, declarou guerra contra o Mundo numa segunda-feira. O comunicado oficial foi transmitido ao vivo em todas as redes de televisão e rádio nacionais e internacionais. Foi uma decisão democrática e unânime do povo, disse o presidente aos quatorze microfones apoiados à frente de seu púlpito no topo da escadaria do Palácio da Nação. A população aplaudiu e comemorou o anúncio balançando bandeirões, bandeiras e bandeirolas nacionais.

Na terça-feira, convocações militares chegaram às casas de todos os habitantes de Auróvia. Fizeram as malas, despediram-se de suas famílias e foram para as juntas militares mais próximas de seus lares, trocar as roupas do corpo pelos uniformes e receber treinamento em armas. Nos lares que deixaram, bandeiras foram fixadas no parapeito de janelas ou na grama dos jardins, indicando que ali morava um soldado, um patriota, um herói. É verdade que as ruas ficaram vazias, mas o orgulho de todos preenchia a falta.

Na quarta-feira, os recrutas recebiam ordens dos sargentos, que as recebiam dos generais, que as recebiam dos deputados, que as recebiam dos senadores, que as recebiam dos ministros, que as recebiam do presidente, que dizia para cavarem trincheiras, limparem suas armas e manterem seus postos, pois os inimigos já se aproximavam das fronteiras. Todos obedeceram. Nos lares chegou nova convocação. Os que estavam em idade hábil e não haviam sido recrutados a pegar em armas deveriam se apresentar nas indústrias, onde trabalhariam na produção bélica, pois todos os disparos dos inimigos deveriam ser devidamente revidados. Todos obedeceram.

Na quinta-feira, chegou nova ordem às estações militares do país dizendo que um muro deveria ser erguido. Um grande muro de cimento e aço, dezoito metros de altura e três de espessura, circundando as fronteiras de Auróvia para proteger o país dos ataques por terra ou por mar. Especialmente por mar, disse o presidente, pois os navios dos inimigos logo se aproximariam das praias. Começaram a chegar nos quartéis e acampamentos os primeiros carregamentos de munição, armamentos, bombas, mísseis e mantimentos para os militares, que comemoraram a potência bélica de seu próprio país com vinte e um disparos de solenidade.

Na sexta-feira, instalaram cercas de arame farpado no topo do grande muro para evitar que os soldados inimigos pudessem invadir a nação pelos pontos cegos. Nas indústrias, chegou uma ordem expressa do presidente para que concentrassem os esforços na produção de armas nucleares, pois os inimigos também as produziam. Auróvia deveria mostrar sua força se quisesse sair vitoriosa.

No sábado, uma nova ordem chegou, dizendo que construíssem um grande teto de cimento e aço apoiado sobre o muro de Auróvia. Cobrindo toda a extensão do país, protegeria a população dos ataques aéreos, a mais nova moda nas guerras. Soldados e industriais se uniram para obedecer o mais rápido possível, e, pela noite, sentiram-se a salvo das bombas, que não tardariam a cair.

No domingo, ninguém trabalhou, pois era dia de descanso. Os soldados puderam visitar suas famílias nas mesas de jantar dos lares que deixaram para trás, onde conversaram sobre a vida no quartel e a vida na indústria e a nota máxima que a pequena Beth recebeu na redação sobre o conflito. Que coisa mais linda, o orgulho dos pais e da nação!

Na segunda-feira, todos voltaram para suas estações e não perderam tempo em cumprir suas tarefas, pois havia uma guerra a ser vencida. Dentro de sua armadura impenetrável, o povo de Auróvia esperou o ataque dos inimigos, que não deveria tardar. Não se deram pela falta de janelas.