Tia Lolinda

1.

Quando eu era pequeno, não suportava os almoços em família aos domingos. A bisa me metia medo, toda enrugada e quieta no seu canto, os adultos insistiam em me tratar como a criança que eu de fato era, e tia Lolinda tinha sua mania de querer se matar. Ia várias vezes para a varanda ou para o jardim com seu copinho de conhaque, tirava uma navallha da bolsa e abria os pulsos.

Tia Lolinda. Sempre achei engraçado ela ter esse nome, feia que só. Toda pelancuda, usava uns vestidos largos, compridos, pareciam as toalhas de mesa lá de casa. Tinha umas olheiras pretas, fundas, e os dentes que sobravam estavam todos podres, escuros.

Quem dizia que era mania era meu pai. Uma vez, não lembro quando, mas era pequeno, perguntei a ele por que tia Lolinda abria os pulsos.

— Ela está se matando, — ele me disse com um tom de reprovação.

— Se matando? — eu perguntei. Não tinha a mesma noção que tenho hoje da morte. — E por que não morreu ainda?

— Porque está se matando devagarinho. De pouco em pouco vai se matando, até que um dia, vai ver só, vai estar morta.

— Mas por que tia Lolinda quer se matar?

— Porque tem essa mania, desde que eu conheço sua mãe e os parentes dela que ela já faz isso.

— Por quê?

— Porque é besta. Porque tem merda na cabeça, é viciada nisso de abir os pulsos. Isso eu não quero nunca que você faça, está me ouvindo? Me promete que nunca vai fazer isso.

— Prometo, pai. Prometo não me matar. Mas por quê?

Era estranho ver tia Lolinda se matando. Eu achava, naquele tempo, que a gente morria de um jeito sofrido, que nem nos filmes: ficava deitado, com cara de dor, falando umas coisas com dificuldade para alguém que estava ali, segurando nossa cabeça e chorando. Aí era só falar uma última frase, fechar os olhos e pronto, morria. Mas tia Lolinda parecia muito bem, na verdade. Ficava ali de pé ou no máximo puxava uma cadeira, com os pulsos abertos só o suficiente para pingar um pouco de sangue. E não parecia estar com dor nem nada. Pelo contrário, sorria e conversava com os outros adultos, gesticulando e sujando a roupa de todo mundo. E depois não morria coisa nenhuma, fechava o corte e voltava para a sala ou ia ao banheiro ou ajudava na cozinha.

 

2.

Uma vez, quando passei perto dela, me pegou no colo para fazer um carinho. Ficou me dizendo como eu era um menino lindo, e que ia derreter muito coração quando crescesse. Quem me dera, tia, quem me dera. Me deu um sorriso besta e apertou minhas bochechas. Foi aí que perguntei:

— Tia Lô, — eu chamava ela de tia Lô — por que é que você abre os pulsos desse jeito?

— É para me dar um alívio, meu filho. — Deu um sorriso todo desdentado e apertou o pulso para sair mais um pouco de sangue. — E que alívio que isso me dá.

— Meu pai disse que você está tentando se matar, de pouquinho em pouquinho.

— É?

— É sim.

— Então diga pro seu papai que ele é um boboca e que vá cagar no mato, bem longe de mim.

Nessa hora minha mãe me deu um grito do sofá para fazer não sei o quê, e saí do colo de tia Lolinda com algumas manchas de sangue na camisa. Mais tarde contei para o meu pai sobre onde ela tinha dito para ele ir defecar. Não ficou nem um pouco feliz.

 

3.

Já muitos anos depois, quando eu era adolescente, tia Lolinda foi parar no hospital. Não me contaram o motivo, só disseram que era por conta da sua mania. Ficou uma boa semana lá, deitada na cama, toda entubada, e minha mãe se revezava com o tio Hélio para passar as noites no quarto. Os médicos até tentaram, mas o tratamento não fez efeito a tempo.

A princípio, é claro, senti saudades de Lolinda, todos sentimos. Mas com o passar dos meses, fomos percebendo como a atmosfera ficava mais leve nos domingos quando não havia alguém na varanda ou no jardim cortando os pulsos. Com isso, as reuniões de família foram se tornando, para mim, mais toleráveis. E quando passei a poder beber junto dos adultos, se tornaram até agradáveis.

— Vai com calma, — me disse meu pai certo natal ao me servir a terceira taça de vinho.

— Pode ficar tranquilo, pai, não é como se eu estivesse tentando me matar.

— Se lembra do que você me prometeu. Nada de querer cortar os pulsos.

— Pode deixar, — eu respondi, e brindamos a uma boa saúde para todos.

Mas eu não mantive minha promessa. Quando passei na faculdade, me mudei para longe e fui viver a vida estudantil, com toda aquela fase de novas experiências. Cortar os pulsos foi uma delas. Não gostei a princípio, acho que exagerei no corte, minha pressão baixou e, no desespero, quiseram chamar uma ambulância. Mas foi só me sentar um pouco e esperar melhorar para voltar à festa, que não consegui curtir direito. Até aí, nada de mais.

A coisa veio mesmo quando estava no último ano. Aquele stress de terminar o curso, decidir o que fazer no futuro, o medo da vida adulta, das responsabilidades, estavam me deixando muito mal. Hoje em dia, olhando para trás, nem foi tão ruim assim, mas na época a pressão era insuportável. Por conta disso parei numa banca de jornal voltando do mercado, um dia, e comprei algumas navalhas. Sem nem saber porquê, só comprei. Chegando em casa, abri o pacote e fiz um corte bem pequeno, quase nada, no pulso esquerdo. Nunca mais parei.

 

4.

Demorei para contar à família que tinha pego a mania de tia Lolinda, e eles levaram numa boa, para minha surpresa. Me deram um sermão, é claro, lembrando de como ela tinha ficado no hospital e tudo, mas me trataram como o adulto que eu era e respeitaram minha decisão.

Não aceitaram cem por cento, então eu evito abrir os pulsos nas reuniões de família, mesmo quando a vontade vem com força. Geralmente invento uma desculpa para dar uma volta, ou vou embora mais cedo, para poder me cortar à vontade. Eu sei, eu sei, é um hábito horrível de se ter. Mas tia Lolinda estava certa: que alívio que isso me dá.

Anúncios

manhã fria

quando acordamos o sol já estava alto

tentando achar uma brecha nas cortinas

mas nós seguimos deitados

e tudo o que ele fazia era criar uma auréola

tímida e retangular por fora dos panos

ela se remexeu ao meu lado e me abraçou

trocamos bons dias

continuamos debaixo das cobertas

decidindo se íamos fazer alguma coisa

naquele dia ou se já era possível jogar

os planos para o alto e ficar ali para sempre

eu não queria dizer

nem ela também

mas aquilo já fora decidido

antes mesmo de acordarmos

e foi o que fizemos extendendo a manhã fria

para além do meio dia

dos trinta graus que faziam lá fora

e do gato atropelado que vimos

na noite anterior.

Ondas quebrando na escuridão

Fugi para essa praia

porque ninguém pensaria

em me procurar aqui.

Talvez em outras praias,

mas não aqui.

 

Armei minha barraca na linha

onde o mato começa a crescer

e a areia a desaparecer,

andei até o mar

onde as ondas quebravam

para dar um mergulho

e nadei alguns metros.

Fiquei estirado ao sol

na areia quente

esperando me secar

fumando um atrás do outro.

 

De noite, se acenderam as luzes no quiosque

na outra ponta da praia

e fui ver se arranjava alguma coisa para comer.

O dono havia posto um forró para tocar

e estava vendendo caipirinhas

a cinco reais para outros campistas.

Comi camarões, bebi alguns

copos e dancei algumas músicas

com uma moça da Alemanha

que estava de férias

e dançava melhor que eu.

 

Voltei para minha barraca

sozinho.

Fumei mais alguns

vendo o mar de estrelas no céu,

ouvindo as ondas quebrando

na escuridão

e fui dormir

tranquilizado, escondido,

sem saber que

ninguém me procurava.

Melhor que dois voando

Um passarinho cagou no meu ombro hoje. O fato, completamente ordinário, apesar de não tão comum quanto possa parecer ao se olhar as carecas e ombros das estátuas no centro, tomou, para mim, ares inquietantes pelo fato já constatado de que não há pássaros no meu bairro. Essas ruas, esses prédios, não foram feitos para eles. Não temos árvores para sentarem ou construírem ninhos. Não temos terra nem grama para procurarem alimento. Nem os velhos nos bancos da pracinha levam comida para engordá-los. Moro há mais de vinte anos na mesma travessa da Luciano Guaporanga, duas abaixo do cruzamento com a São Miguel, e em todos esses anos nunca vi por aqui um passarinho que fosse cruzando o céu cinzento. Bom, se nem as pombas vem nos visitar, porque então viriam sabiás, beija-flores, bem-te-vis, maritacas?

Por isso a surpresa hoje pela manhã. Parei em frente à loja de sapatos para ler a manchete do jornal que acabara de comprar na banca e fui atingido no ombro por um projétil branco-amarelado ainda morno. Demorei um segundo para que o susto passasse e eu entendesse o que era aquela massa que começava a se derreter pelo algodão da minha camisa. Tive que entrar na loja para pedir um papel, por gentileza, para não ter que usar o jornal.

Mais tarde, conversando com um amigo que mora na rua de baixo, fiquei sabendo que também fora atingido por uma descarga semelhante. Em seu caso, porém, a gravidade foi maior, pois o pássaro, consciente ou não de onde mirava, acertou-o bem na cabeça quando estava entrando no ônibus e ele só foi reparar que não era um pingo gordo de chuva após pagar a passagem. Em seguida, me contou que seu vizinho também fora alvo, sendo acertado na mão quando a colocou para fora da janela para ver se a chuva tinha parado. E esse vizinho, por sua vez, contou que sua nora, que mora duas ruas pra baixo, por pouco não foi acertada também. O dejeto se espatifou logo à frente de seus pés, passando a centímetros do nariz.

“O bairro virou uma grande privada, hoje,” ele disse, “amanhã não saio sem meu guarda-chuva!” Rimos da situação e a conversa tomou outros rumos: futebol, política, religião. O assunto das fezes só voltou à tona quando nos despedimos, antes do sol se pôr. “No fundo eu estou feliz,” meu vizinho disse, “é bom saber que os pássaros estão de volta pelo bairro. Mesmo que para cagar em cima de nós.”

Voltei para o prédio caminhando, tentando ao máximo não sair debaixo das marquises das lojas. Atento a qualquer movimentação nos ares, bater de asas, pios, o que fosse, mantive sempre um olho no céu, que, de tão colorido, mais parecia uma pintura.

Meu encontro com Papai Noel

Era natal, e estávamos na casa da vovó, em Salvador. Mais de vinte membros da família reunidos na sala e eu não sabia o nome da maioria, muito menos as relações exatas de parentesco. Só sei que usava uma roupa que fui obrigado a vestir e tentava evitar as passas escondidas no arroz da ceia. Perto da meia noite avistaram-no.

“Olha o Papai Noel ali! Na janela!” disse um dos adultos, e nós, as crianças, corremos para o parapeito, mas tudo o que vimos foram os prédios do bairro da Graça e suas decorações luminosas.

“Acabou de passar com o trenó, entrou naquele prédio ali!” nos explicaram com entusiasmo.

“Olha ele passando aqui!” alguém gritou da área de serviço, nos chamando.

Chegando lá, nem sinal dele. Nos levaram em seguida para um dos quartos: “Acabou de passar ali!”

“Olha lá ele de novo!” uma tia gritou entusiasmada da sala, e voltamos ao ponto inicial, rindo, mas também com medo. Papai Noel existia e estava perto, brincando de esconde-esconde atrás dos prédios.

O telefone tocou e um dos adultos atendeu.

“Alô? Ivan, vem aqui, é pra você.”

“Ho ho ho! Feliz Natal!” disse a voz do outro lado, muito parecida com a de meu avô.

“Quem é?” desconfiei.

“Ho ho ho, é o Papai Noel!”

“Não é, não. É o vovô que tá falando,” eu disse.

Minha mãe sorriu e apontou para o vovô, mostrando que ele estava longe do telefone.

“É o tio Tito, então.”

Também não, ele estava logo ali, na cozinha.

Olhei em volta. Todos que poderiam estar interpretando o bom velhinho do outro lado da linha estavam à vista, longe de qualquer telefone. E isso só poderia significar uma coisa.

Papai Noel disse que os presentes estavam no térreo, e as crianças deveriam ir buscá-los. Descemos em seis no elevador, que tinha um cheiro inegável de elevador e não se movia rápido o suficiente para nossa animação. Lá embaixo, saímos adoidados pela porta, buscando os presentes no salão de festas, no jardim perto da portaria e nas escadas de incêncio, sem sucesso.

Algum tempo depois o porteiro veio até nós, dizendo que o Papai Noel havia ligado. Estava lá em cima, com os presentes. Voltamos direto para o elevador, sem conter o riso e o nervosismo que cresciam a cada andar. Entramos no apartamento esperando encontrá-lo em seu trenó ocupando toda a sala, mas foi a família quem nos recebeu sorrindo.

“Poxa, vocês perderam, ele acabou de sair! Mas deixou os presentes ali embaixo da árvore pra vocês.”

Passei o resto da noite rasgando embrulhos e brincando com meus primos e primas, todos felizes com os brinquedos novos. Apostamos corridas com os carrinhos, desviando de obstáculos sobre a mesa de jantar; brigamos para ver qual Power Ranger era o mais forte; e montamos torres imensas de Lego, agradecendo ao bom velhinho por seguir à risca as instruções de nossas cartinhas, perdoando-o por eventuais erros. Em nenhum momento nos perguntamos porque só os adultos conseguiram vê-lo.

Com os anos, deixei de acreditar nele, e as noites de Natal assumiram uma atmosfera menos mágica, mais mundana. Mas me lembro dessa noite todo dia 24, quando digo aos priminhos, após a ceia, que o Papai Noel acabou de passar pela janela da sala.