Meu encontro com Papai Noel

Era natal, e estávamos na casa da vovó, em Salvador. Mais de vinte membros da família reunidos na sala e eu não sabia o nome da maioria, muito menos as relações exatas de parentesco. Só sei que usava uma roupa que fui obrigado a vestir e tentava evitar as passas escondidas no arroz da ceia. Perto da meia noite avistaram-no.

“Olha o Papai Noel ali! Na janela!” disse um dos adultos, e nós, as crianças, corremos para o parapeito, mas tudo o que vimos foram os prédios do bairro da Graça e suas decorações luminosas.

“Acabou de passar com o trenó, entrou naquele prédio ali!” nos explicaram com entusiasmo.

“Olha ele passando aqui!” alguém gritou da área de serviço, nos chamando.

Chegando lá, nem sinal dele. Nos levaram em seguida para um dos quartos: “Acabou de passar ali!”

“Olha lá ele de novo!” uma tia gritou entusiasmada da sala, e voltamos ao ponto inicial, rindo, mas também com medo. Papai Noel existia e estava perto, brincando de esconde-esconde atrás dos prédios.

O telefone tocou e um dos adultos atendeu.

“Alô? Ivan, vem aqui, é pra você.”

“Ho ho ho! Feliz Natal!” disse a voz do outro lado, muito parecida com a de meu avô.

“Quem é?” desconfiei.

“Ho ho ho, é o Papai Noel!”

“Não é, não. É o vovô que tá falando,” eu disse.

Minha mãe sorriu e apontou para o vovô, mostrando que ele estava longe do telefone.

“É o tio Tito, então.”

Também não, ele estava logo ali, na cozinha.

Olhei em volta. Todos que poderiam estar interpretando o bom velhinho do outro lado da linha estavam à vista, longe de qualquer telefone. E isso só poderia significar uma coisa.

Papai Noel disse que os presentes estavam no térreo, e as crianças deveriam ir buscá-los. Descemos em seis no elevador, que tinha um cheiro inegável de elevador e não se movia rápido o suficiente para nossa animação. Lá embaixo, saímos adoidados pela porta, buscando os presentes no salão de festas, no jardim perto da portaria e nas escadas de incêncio, sem sucesso.

Algum tempo depois o porteiro veio até nós, dizendo que o Papai Noel havia ligado. Estava lá em cima, com os presentes. Voltamos direto para o elevador, sem conter o riso e o nervosismo que cresciam a cada andar. Entramos no apartamento esperando encontrá-lo em seu trenó ocupando toda a sala, mas foi a família quem nos recebeu sorrindo.

“Poxa, vocês perderam, ele acabou de sair! Mas deixou os presentes ali embaixo da árvore pra vocês.”

Passei o resto da noite rasgando embrulhos e brincando com meus primos e primas, todos felizes com os brinquedos novos. Apostamos corridas com os carrinhos, desviando de obstáculos sobre a mesa de jantar; brigamos para ver qual Power Ranger era o mais forte; e montamos torres imensas de Lego, agradecendo ao bom velhinho por seguir à risca as instruções de nossas cartinhas, perdoando-o por eventuais erros. Em nenhum momento nos perguntamos porque só os adultos conseguiram vê-lo.

Com os anos, deixei de acreditar nele, e as noites de Natal assumiram uma atmosfera menos mágica, mais mundana. Mas me lembro dessa noite todo dia 24, quando digo aos priminhos, após a ceia, que o Papai Noel acabou de passar pela janela da sala.

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8 comentários sobre “Meu encontro com Papai Noel

      • Fátima FAlcão 14 de fevereiro de 2017 / 10:09

        Ói, Ivan, Bom dia!
        Mora na mesma cidade dos seus avós – Cidade da Bahia. Amei seu conto de natal me fez lembrar meus natais felizes no interior. Gosto de acreditar na idéia da existência de Papai Noel. A idéia do lúdico e da fantasia é bom permanecer em nós.
        Amei seu jeito simples e direto de se expressar.
        Siga em frente. um abraço.

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        • Ivan Cardoso 14 de fevereiro de 2017 / 16:23

          Olá Fátima! Muito obrigado pelo comentário, fico muito feliz que o conto te trouxe boas memórias 🙂
          Beijos!

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  1. Dridri 24 de dezembro de 2016 / 18:31

    Olha, acho que esse foi um dos contos mais autobiográficos que já li por aqui 🙂

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  2. Fernanda 16 de fevereiro de 2017 / 10:57

    Que conto de Natal lindo!!! Também recordei vários momentos da minha infância. Uma vez eu cheguei a ver o Papai Noel, mas não deu muito certo, pois o susto foi tão grande que eu desmaiei! kkkkkkkkkkkk… Os adultos ficaram apavorados e depois disso passaram a apenas dizer que o papai Noel tinha acabado de passar por lá! kkkkk…

    Apesar do meu início traumático com Papai Noel, continuo acreditando nele até hoje, como contei no meu último Natal – http://fernandabelem.com.br/eu-acredito-em-papai-noel/

    Adorei seu blog e o seu jeito de escrever!

    Voltarei mais vezes…

    Curtido por 1 pessoa

    • Ivan Cardoso 17 de fevereiro de 2017 / 00:02

      Olá Fernanda! Suas histórias de Natal também são carregadas de um tom mágico e de deslumbramento que só se vê no sorriso de uma criança.
      Gostei do seu blog também!
      Obrigado pela visita, espero que nos encontremos mais por aqui 🙂

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