Do diário de um gringo

Basileia2

Chegamos em Basileia, a famosa nação do sul, no fim do inverno. Apesar do frio e do tempo nublado, não deixou de nos surpreender a beleza natural do país, muito menos sua conturbada situação política, que conhecemos da boca de um taxista. Não demos muita bola, éramos apenas turistas, mas hoje, uma quarta-feira, pudemos ver a gravidade da situação.

Éstávamos na maior cidade do país, visitando um de seus pontos turísticos quando encontramos uma multidão. Vestiam todos as cores de sua bandeira nacional, cantavam a plenos pulmões e sopravam apitos. O clima parecia positivo, e resolvemos entrar no meio, para ver o que era. Nos sentimos com sorte, pois o povo de Basileia é famoso pela hospitalidade e a habilidade de fazer festa. Cantamos e gritamos palavras que nos ensinavam ali na hora, sem saber direito seu significado, e acompanhamos o trajeto.

Não demorou muito, vimos cartazes sendo erguidos e aplaudidos. Infelizmente quem os segurava não falava nossa língua, e ficamos sem entender. Quando um carro de som passou tocando o hino nacional e um homem de camisa começou a discursar lá de cima foi que ligamos os pontos e nos percebemos em algum tipo de manifestação política. Mas, diferente do que estávamos acostumados, ninguém parecia indignado ou sequer irritado. Não, estavam comemorando, estavam felizes.

Só mais tarde fomos encontrar alguém que pudesse nos explicar do que se tratava. Era um senhor de cabelos brancos, óculos escuros, bem vestido, usando a bandeira nacional amarrada ao pescoço, como uma capa. Felizmente falava nossa língua, apesar do sotaque forte e das pausas que fazia durante a conversa para achar a palavra certa. Perguntamos do que se tratava aquela passeata, e ele nos respondeu, entusiasmado:

“É um momento histórico! Um momento lindo da nossa nação! A corrupção venceu! Vencemos!”

Nos sentimos confusos com sua escolha de palavras. Veja bem, em nossa língua, as palavras para vencer e perder são graficamente semelhantes, porém a pronúncia é bem distinta. Sugerimos a correção, mas ele nos disse que era isso mesmo:

“Esse país foi feito na corrupção, faz parte do nosso cotidiano. É patrimônio cultural, que nem a desigualdade. E ultimamente tinha um povinho aí no poder que estava trabalhando para acabar com tudo isso. Não eram flor que se cheire, esses daí, também tinham suas roubalheiras. E como roubavam! Mas aí você veja só, começaram a apoiar projetos de lei para cassar quem estivesse envolvido com corrupção. Até investigação teve, escancarou tudo para o povo ver. Onde já se viu? É uma afronta!”

Nesse ponto a multidão passou a cantar algo e ele interrompeu sua fala para acompanhá-los, agitando os braços acima da cabeça. Depois se desculpou conosco e continuou:

“Se for  passar o pente fino no governo, não sobra um só político lá. E aí, como é que a gente fica? Numa anarquia? Num comunismo? Deus me livre! Melhor mesmo é deixar tudo como está, do jeito que a gente já se acostumou a viver. Por isso que o povo comemora. Conseguimos tirar aqueles trastes do poder e colocamos no lugar quem já garantiu que vai manter a roubalheira acontecendo, mas escondida, como deve ser. Viva a corrupção! Viva Basileia!”

Ele passou então a gritar o nome do país em direção à multidão, que respondia com aplausos e apitos. Queria que nos juntássemos a ele, mas apenas agradecemos a informação e nos retiramos. Viramos na próxima esquina e logo nos afastamos da manifestação em direção ao hotel, assustados.

Basileia é um lugar estranho. Não ficaremos aqui por muito tempo.

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3 comentários sobre “Do diário de um gringo

  1. Tânia 10 de setembro de 2016 / 11:41

    E aí, Ivan!

    Muito boa a sacada do conto. Fiquei pensando os motivos que lhe levaram a escolher a primeira pessoa do plural, penso que o conto em primeira pessoa do singular seria potencializado. Em alguns momentos sinto que você quer tanto colocar seu ponto de vista que ele também enfraquece. Talvez a sensação de estranhamento para o leitor poderia ser reforçada. Por exemplo quando os protagonistas se indagam com a semelhança de vencer/perder na língua. Acho que isso dá um tempo desnecessário na narrativa e a enfraquece…No mais, achei muito bom. Gostei.

    (Apenas uma opinião, existe a chance de ser uma grande asneira;) )

    Curtido por 1 pessoa

    • Ivan Cardoso 13 de setembro de 2016 / 11:42

      Oi Tânia, valeu pelo comentário e pelas críticas! Esse tipo de coisa ajuda a enriquecer esse texto e outros que possam vir, então obrigado mesmo 🙂 Realmente, foi um conto que fiz em volta de uma opinião, escrito no calor do momento (publiquei logo depois da notícia do afastamento da presidenta e tal), sem muita revisão.
      Abraço!

      Curtir

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