Autobiografia

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“Minha vida daria um livro,” pensou diante do maço de folhas em branco.

“Um romance. 600 páginas,” decidiu, apontando o lápis.

Começou a escrever.

Na quinta palavra percebeu: “seria melhor uma novela.”

Após a primeira frase pensou melhor: “um conto, no máximo.”

Continuou a escrever.

“Cabe tudo em uma folha,” previu após a segunda frase.

“Três parágrafos: começo, meio e fim,” conformou-se, exausto.

Antes do segundo, já estava morto.

História condensada de um episódio romântico na era digital

Cruzaram-se numa das ruas onde por acaso passavam todos os dias a caminho do trabalho. Ele subia de ônibus, ela descia a pé. Foram se ver só de noite, quando apareceram um para o outro no Tinder. Não tinham amigos em comum nem descrições detalhadas no perfil, mas curtiam o Catraca Livre e a mesma página de memes. Ela gostou da foto dele no exterior. Ele gostou da foto dela na praia.

Combinaram.

Conversando, descobriram que ambos trabalhavam no mesmo bairro, gostavam de viajar e ir ao cinema. Marcaram num bar para tomarem uma cerveja. Os dois atrasaram e se desculparam pela demora. Tomaram três cervejas, conversaram sobre as séries que assistiam e sobre os textos do Gregório Duvivier. Ele chamou ela para seu apartamento. Ela aceitou.

Transaram.

Para ele foi bom. Para ela não foi ruim. Trocaram números e foram se falar dois dias depois. Marcaram de ver uma série na casa dela. No meio do primeiro episódio já estavam transando. Ele continuou achando bom. Ela achou que melhorou. Conversaram nus na cama sobre a vida e outras coisas. Transaram de novo. No dia seguinte ela adicionou ele no Facebook. Ele aceitou. Passaram a curtir as fotos e postagens um do outro. Às vezes comentavam, às vezes não.

Passaram-se dois meses.

Saíam juntos quase todos os finais de semana para um bar, uma balada ou um Netflix. Transavam regularmente, mas só depois do episódio que estavam assistindo. Ela o apresentou às suas amigas. Ele a apresentou aos seus amigos. Quando perguntavam se estavam namorando, desviavam de assunto. Ele não queria admitir, mas sentia ciúmes dos comentários de outros homens nas selfies dela. Ela não queria admitir, mas já estava cansada do sexo meia-boca dele.

Decidiram terminar.

Pararam de se falar por um tempo, mas continuam amigos no Facebook. Ele ainda curte algumas fotos que ela posta. Ela ainda curte alguns posts políticos dele. Seguem passando pela mesma rua todos os dias, sem se ver. Duas semanas atrás se encontraram por acaso no Happn.

Não combinaram.

Do diário de um gringo

Basileia2

Chegamos em Basileia, a famosa nação do sul, no fim do inverno. Apesar do frio e do tempo nublado, não deixou de nos surpreender a beleza natural do país, muito menos sua conturbada situação política, que conhecemos da boca de um taxista. Não demos muita bola, éramos apenas turistas, mas hoje, uma quarta-feira, pudemos ver a gravidade da situação.

Éstávamos na maior cidade do país, visitando um de seus pontos turísticos quando encontramos uma multidão. Vestiam todos as cores de sua bandeira nacional, cantavam a plenos pulmões e sopravam apitos. O clima parecia positivo, e resolvemos entrar no meio, para ver o que era. Nos sentimos com sorte, pois o povo de Basileia é famoso pela hospitalidade e a habilidade de fazer festa. Cantamos e gritamos palavras que nos ensinavam ali na hora, sem saber direito seu significado, e acompanhamos o trajeto.

Não demorou muito, vimos cartazes sendo erguidos e aplaudidos. Infelizmente quem os segurava não falava nossa língua, e ficamos sem entender. Quando um carro de som passou tocando o hino nacional e um homem de camisa começou a discursar lá de cima foi que ligamos os pontos e nos percebemos em algum tipo de manifestação política. Mas, diferente do que estávamos acostumados, ninguém parecia indignado ou sequer irritado. Não, estavam comemorando, estavam felizes.

Só mais tarde fomos encontrar alguém que pudesse nos explicar do que se tratava. Era um senhor de cabelos brancos, óculos escuros, bem vestido, usando a bandeira nacional amarrada ao pescoço, como uma capa. Felizmente falava nossa língua, apesar do sotaque forte e das pausas que fazia durante a conversa para achar a palavra certa. Perguntamos do que se tratava aquela passeata, e ele nos respondeu, entusiasmado:

“É um momento histórico! Um momento lindo da nossa nação! A corrupção venceu! Vencemos!”

Nos sentimos confusos com sua escolha de palavras. Veja bem, em nossa língua, as palavras para vencer e perder são graficamente semelhantes, porém a pronúncia é bem distinta. Sugerimos a correção, mas ele nos disse que era isso mesmo:

“Esse país foi feito na corrupção, faz parte do nosso cotidiano. É patrimônio cultural, que nem a desigualdade. E ultimamente tinha um povinho aí no poder que estava trabalhando para acabar com tudo isso. Não eram flor que se cheire, esses daí, também tinham suas roubalheiras. E como roubavam! Mas aí você veja só, começaram a apoiar projetos de lei para cassar quem estivesse envolvido com corrupção. Até investigação teve, escancarou tudo para o povo ver. Onde já se viu? É uma afronta!”

Nesse ponto a multidão passou a cantar algo e ele interrompeu sua fala para acompanhá-los, agitando os braços acima da cabeça. Depois se desculpou conosco e continuou:

“Se for  passar o pente fino no governo, não sobra um só político lá. E aí, como é que a gente fica? Numa anarquia? Num comunismo? Deus me livre! Melhor mesmo é deixar tudo como está, do jeito que a gente já se acostumou a viver. Por isso que o povo comemora. Conseguimos tirar aqueles trastes do poder e colocamos no lugar quem já garantiu que vai manter a roubalheira acontecendo, mas escondida, como deve ser. Viva a corrupção! Viva Basileia!”

Ele passou então a gritar o nome do país em direção à multidão, que respondia com aplausos e apitos. Queria que nos juntássemos a ele, mas apenas agradecemos a informação e nos retiramos. Viramos na próxima esquina e logo nos afastamos da manifestação em direção ao hotel, assustados.

Basileia é um lugar estranho. Não ficaremos aqui por muito tempo.