Pescadores

Dia desses tive uma recaída e inventei de voltar a escrever poesia. Era uma terça-feira bonita, e eu estava comemorando seis meses livre do vício com uma folga no serviço. Estava sentado num daqueles bancos ali, na outra margem do lago, fumando tranquilo um cigarro, o caderno aberto no colo, vendo o dia passar. O sol brilhava alegre, o vento farfalhava as folhas de leve e a sombra estava tão gostosa que não deu outra, comecei a sentir as pontadas na barriga. Tentei resistir, mas foi me dando um desarranjo no estômago, uns rebuliços de doer mesmo, aí subiu um borbulho quente na garganta, veio o gosto azedo na boca e pronto, vomitei verso e lasanha em cima do caderno todo. Uma imundice só. Passada a náusea, a boca já lavada, fui espiar o tamanho do estrago e vejam só vocês, não é que a coisa era linda? Rapaz, era uma obra-prima, poema lapidadinho assim, cristalino, 24 quilates. Li e reli o danado, e a cada volta eu via que era sem igual, poesia antológica, para os anais da literatura, um clássico. Era curtinho, uma página e meia, e isso deixava ele ainda mais bonito, porque terminava antes de cansar. Só de lembrar, olha só, já me vem esse sorriso besta no rosto e uma saudade aqui no peito. Mas só lendo mesmo para entender, vocês iriam adorar.

Como é? Pois então, é por isso que eu vim aqui falar com vocês. Não sei onde ele está. Quer dizer, acho que sei, mas é preciso procurar. O que aconteceu foi que fiquei tão impressionado com aquilo que arranquei a folha do caderno para ler o poema mais de perto. E não é que me bate um vento justo nessa hora? Levou aquela minha poesia embora e largou ela no meio do lago. Entrei nadando atrás dela, mas a danada, boa que era, afundou rapidinho, feito pedra. Não deu nem tempo de assinar. Aí vieram os guardas do parque correndo me tirar dali, levei multa e o escambau, nem deram ouvidos para minha história. Por isso, se algum dia vocês pescarem daí do fundo, em vez de um peixe, o poema mais lindo do mundo, não precisa me devolver não, que dessas coisas eu quero distância. Estou limpo. Só peço que acreditem que fui eu que escrevi, e que me deem os devidos créditos. Obrigado.

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