Pontos de vista

Dois senhores sentaram-se às seis em um dos bancos do mirante. O horizonte estava alaranjado, e o céu, escuro, exibia algumas estrelas. Do sol via-se apenas o cume, queimando num amarelo vivo.

— Como é belo o pôr-do-sol — disse o primeiro ajeitando seu chapéu para ver melhor.

— Perdão? — questionou o segundo apoiando as mãos sobre a bengala.

— O pôr-do-sol — repetiu o primeiro, se desculpando pela intromissão. — É magnífico de se ver, não acha?

— Acho que está enganado, — disse o segundo, — esse aí é o nascer do sol.

— Não, meu caro. Venho aqui todos os dias e posso lhe dizer que o sol está se pondo.

— Nada disso. Conheço muito bem o sol e posso afirmar com toda a razão que está nascendo.

— Ora, deixe de bobagens, não vê como o céu está escurecendo?

— Melhor trocar os óculos. É evidente que está clareando.

— Impossível! Veja aqui, meu relógio. Marca seis horas da tarde, e é sempre nessa hora que o sol desce.

— Pois o meu marca também seis horas, mas da manhã. E digo que o sol sobe.

— Nada disso. Acabo de passar um dia inteiro acordado, e sei muito bem que está se pondo.

— E eu lhe digo que acordei cedo justamente para vê-lo nascer. Mas o senhor está atrapalhando o momento com suas maluquices de velho gagá!

— Gagá? Ora, o senhor é que está maluco, achando que o sol está nascendo. Seu velhote demente!

— Cale a sua boca! — bradou o segundo. — Fique quieto para não me estragar a aurora!

— Aurora? Quantas vezes vou ter de dizer que o sol se põe! — berrou o primeiro, levantando-se e estufando o peito.

— Já te disse que nasce! — insistiu o segundo, levantando-se também e fechando os punhos à frente do rosto.

— Está se pondo! — gritou o primeiro, se atirando contra o segundo.

— Está nascendo! — retrucou o segundo, se atirando sobre o primeiro.

Atracaram-se disparando golpes altos e baixos com toda a ferocidade de seus corpos senis. O primeiro derrubou o segundo e logo se pôs sobre ele, acertando murros em seu rosto. O segundo, alcançando sua bengala, acertou-a em cheio nas costas do primeiro e, pondo-se de pé, atacou o outro enquanto estava caído. O primeiro conseguiu se defender de um dos golpes e jogar a bengala do segundo para longe. O segundo partiu para cima do primeiro, e os dois rolaram sobre a grama. Entre socos, chutes e joelhadas, os senhores seguiram se engulfinhando, derramando sangue um do outro.

— Canalha! — gritou o primeiro ao quebrar um dos dentes do segundo.

— Patife! — berrou o segundo afundando uma das costelas do primeiro.

Quando, exaustos, não conseguiram mais se acertar, decidiram que a briga não levaria a nada. Sentaram-se novamente sobre o banco e limparam o sangue do rosto. O primeiro rasgou um pedaço da camisa e enfaixou o rasgo aberto na testa. O segundo cuspiu uma bola de baba e sangue no chão, sentindo com a língua o novo buraco na gengiva. Propuseram, então, uma forma alternativa de resolver essa desavença.

— Vamos observar o horizonte — disse o primeiro. — Se o sol subir, está nascendo.

— Correto — disse o segundo. — E se descer, está se pondo.

— Exato. Estamos combinados?

— Estamos. Agora cale a boca.

E se puseram a observar atentamente o movimento no horizonte. Mas o sol, sem ter sido informado da disputa, preferiu ficar parado e observar como era linda a rotação de Vênus.

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16 comentários sobre “Pontos de vista

  1. Cris Campos 7 de agosto de 2016 / 22:28

    Bom, algo me diz que talvez eles nunca saberão.

    sensacional Ivan.

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    • Ivan Cardoso 7 de agosto de 2016 / 23:45

      Talvez sim, talvez não. No fim, é tudo uma questão de ponto de vista.
      Obrigado Cris!

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