Adeus, Nova York

Pela janela do quarto vejo o pôr do sol. Se tivesse em mim alguma dessa matéria poética que encontro com tanta frequência nas palavras dos outros, fechadas nos livros que abarrotam minha estante em casa, arriscaria uns dez ou doze versos sobre as cores no céu, um quase degradé do azul profundo ao laranja em chamas. Um arco-íris de proporções homéricas. Talvez comparassse as cumulonimbus que começam a se acumular no horizonte com rochas místicas de alguma lenda do Oriente, assustadoramente escuras em seu cerne, mas que brilham como o ouro recém-nascido ao ver o dia pela primeira vez. Ou, muito provavelmente, as imaginaria como arranha-céus fantásticos que flutuam como (vejam só) nuvens, tornando o skyline nova-iorquino ainda mais alto. Mas como não tenho nada disso dentro de mim, me limito a contemplá-lo sem grandes interferências ou julgamentos de valor de minha parte.

Quando me sentei aqui para descobrir a fonte da luz dourada que nesse fim de tarde tornava as paredes mais agradáveis do que o branco impessoal deste quarto de hotel, não imaginava que ficaria aqui por tanto tempo, enfeitiçado por este espetáculo que agora transcorre sem se propagandear. O oposto ocorre a cinco estações de metrô daqui, no encontro da Broadway com a Sétima, e com mais cores ainda. Fui pego de surpresa, e aqui decidi ficar um tempo, como no sábado, em que encontrei por acaso um palco armado para uma apresentação do Shakespeare in the Park. Estava lá à procura de um Holden Caufield observando patos no lago congelado pela metade, mas acabei encontrando Othelo, Desdêmona e Iago. Encontrei ali também descanso para as pernas depois de um dia inteiro de turistagens, mas o frio manteve a tensão sobre os ombros e os maxilares, que logo começaram a tilintar à espera da neve que não caiu.

O sol desaparece por completo detrás de um prédio baixo de tijolos vermelhos levantado no pior lugar para este fim de tarde específico, e o quarto já está escuro demais para continuar escrevendo. Relutante, aciono o interruptor, obliterando o momento que vinha sendo construído do lado de fora. Era seu destino acabar, e não há nada que eu possa fazer. A memória vai se esvair, se alterar, e talvez desaparecer por completo daqui uns anos. Tirar uma foto não o faria juz, nem com todos os filtros possíveis. Também não sei desenhar bem o suficiente para retratá-lo. Mas uma máquina do tempo seria útil. Com ela, poderia voltar quantas vezes quisesse para assistir novamente a esse espetáculo. Ou talvez visitasse a Nova York dos filmes em preto e branco, dos homens de terno e chapéu, das mulheres de vestidos dourados e cabelos curtos, dos cigarros longos e do jazz. Chegando lá, descobriria quem construiu o maldito prédio e o convenceria a abandonar este trabalho. Assim, poderia ver o gran-finale, o dia sumindo no horizonte, a noite começando.

Esse devaneio me faz lembrar que a noite já começou de fato e em menos de uma hora devo estar no Dizzy’s Jazz Lounge se não quiser perder minha reserva. Minha última noite aqui merecia uma ocasião especial mas, infelizmente, não há tempo de me arrumar. Esvazio os bolsos de meu casaco e espalho sobre o lençol esticado os flyers, mapas de bolso e guias resumidos de todos os museus e pontos turísticos que visitei durante essa última semana. Enquanto faço isso, vou repassando mentalmente minha check-list para saber se, de acordo com o guia, cumpri todas as minhas tarefas nessa cidade: Museu de História Natural; Estátua da Liberdade; Times Square; Central Park; Grand Central Station; Empire State; Madison Square Garden; Carnegie Hall; Broadway e tantos outros que não deixaram rastros de papel. Encontro também um MetroCard que não sei se ainda possui créditos, e o levo comigo junto do mapa de bolso. Não quero me perder.

Saio para o ar frio da noite e logo sinto que deveria ter colocado um outro casaco por baixo deste. Duas esquinas à frente, decido parar um dos arquetípicos táxis amarelos, sento no banco de trás, me acomodando no ar quente e informo o destino para o motorista que, assim como eu, é estrangeiro. Cruzando as ruas dessa cidade, tenho a inquietante sensação de já conhecê-las. É como estar de volta a um lugar em que nunca se esteve, ou reencontrar um desconhecido. Culpa de Holywood e sua paixão por Manhatttan. Se um dia a Big Apple for de fato destruída em algum dos eventos apocalípticos que os norte-americanos adoram encenar, não será difícil reconstruí-la rua por rua, prédio por prédio, tomando como base somente as cenas dos filmes rodados aqui. Nós, os turistas, nem notaríamos a diferença.

Vejo na calçada um casal passeando abraçado e sinto que gostaria de estar lá fora, respirando o ar nova-iorquino. Peço para o motorista que pare, aqui está bom, obrigado. Dou o dinheiro e esqueço da gorjeta, mas ele me lembra do costume com um pigarro e um olhar perfurante pelo retrovisor. Desço, mas logo me arrependo da minha decisão. Enfio a cabeça nos ombros e vou andando encolhido até a esquina, de onde já posso ver o Central Park e, mais à frente, meu destino. Olho para o céu, está escuro, coberto de nuvens que os prédios iluminam. Tomara que neve hoje.

Eles

Eles sabem porque você está triste.

Eles sabem suas frustrações.

Eles sabem porque desistiu dos seus sonhos.

Eles sabem porque você está insatisfeito.

Eles sabem como melhorar.

Eles sabem que caminho seguir.

Eles sabem o que vai te alegrar.

Eles sabem sua personalidade.

Eles sabem o seu signo.

Eles sabem seu ascendente.

Eles sabem a cor da sua aura.

Eles sabem que gostos você deve ter.

Eles sabem que filmes assistir.

Eles sabem que livros ler.

Eles sabem como você deve se vestir.

Eles sabem como você deve se portar.

Eles sabem se você deve fazer a barba.

Eles sabem se é hora de se depilar.

Eles sabem como você deve transar.

Eles sabem com quem você deve transar.

Eles sabem quando engravidar.

Eles sabem porque seus filhos não te respeitam.

Eles sabem porque você não encontrou o amor.

Eles sabem aonde encontrá-lo.

Eles sabem que vícios largar.

Eles sabem que manias adotar.

Eles sabem o que você deve comer.

Eles sabem o quanto você deve beber.

Eles sabem quantas horas dormir.

Eles sabem que horas acordar.

Eles sabem que exercícios fazer.

Eles sabem quando tirar férias.

Eles sabem para onde viajar.

Eles sabem que decisões tomar.

Eles sabem como organizar sua sala.

Eles sabem como ganhar dinheiro.

Eles sabem como ter tempo.

Eles sabem como ser feliz.

Eles sabem como se deve viver.

Eles sabem.

Você não.

Pescadores

Dia desses tive uma recaída e inventei de voltar a escrever poesia. Era uma terça-feira bonita, e eu estava comemorando seis meses livre do vício com uma folga no serviço. Estava sentado num daqueles bancos ali, na outra margem do lago, fumando tranquilo um cigarro, o caderno aberto no colo, vendo o dia passar. O sol brilhava alegre, o vento farfalhava as folhas de leve e a sombra estava tão gostosa que não deu outra, comecei a sentir as pontadas na barriga. Tentei resistir, mas foi me dando um desarranjo no estômago, uns rebuliços de doer mesmo, aí subiu um borbulho quente na garganta, veio o gosto azedo na boca e pronto, vomitei verso e lasanha em cima do caderno todo. Uma imundice só. Passada a náusea, a boca já lavada, fui espiar o tamanho do estrago e vejam só vocês, não é que a coisa era linda? Rapaz, era uma obra-prima, poema lapidadinho assim, cristalino, 24 quilates. Li e reli o danado, e a cada volta eu via que era sem igual, poesia antológica, para os anais da literatura, um clássico. Era curtinho, uma página e meia, e isso deixava ele ainda mais bonito, porque terminava antes de cansar. Só de lembrar, olha só, já me vem esse sorriso besta no rosto e uma saudade aqui no peito. Mas só lendo mesmo para entender, vocês iriam adorar.

Como é? Pois então, é por isso que eu vim aqui falar com vocês. Não sei onde ele está. Quer dizer, acho que sei, mas é preciso procurar. O que aconteceu foi que fiquei tão impressionado com aquilo que arranquei a folha do caderno para ler o poema mais de perto. E não é que me bate um vento justo nessa hora? Levou aquela minha poesia embora e largou ela no meio do lago. Entrei nadando atrás dela, mas a danada, boa que era, afundou rapidinho, feito pedra. Não deu nem tempo de assinar. Aí vieram os guardas do parque correndo me tirar dali, levei multa e o escambau, nem deram ouvidos para minha história. Por isso, se algum dia vocês pescarem daí do fundo, em vez de um peixe, o poema mais lindo do mundo, não precisa me devolver não, que dessas coisas eu quero distância. Estou limpo. Só peço que acreditem que fui eu que escrevi, e que me deem os devidos créditos. Obrigado.

Pontos de vista

Dois senhores sentaram-se às seis em um dos bancos do mirante. O horizonte estava alaranjado, e o céu, escuro, exibia algumas estrelas. Do sol via-se apenas o cume, queimando num amarelo vivo.

— Como é belo o pôr-do-sol — disse o primeiro ajeitando seu chapéu para ver melhor.

— Perdão? — questionou o segundo apoiando as mãos sobre a bengala.

— O pôr-do-sol — repetiu o primeiro, se desculpando pela intromissão. — É magnífico de se ver, não acha?

— Acho que está enganado, — disse o segundo, — esse aí é o nascer do sol.

— Não, meu caro. Venho aqui todos os dias e posso lhe dizer que o sol está se pondo.

— Nada disso. Conheço muito bem o sol e posso afirmar com toda a razão que está nascendo.

— Ora, deixe de bobagens, não vê como o céu está escurecendo?

— Melhor trocar os óculos. É evidente que está clareando.

— Impossível! Veja aqui, meu relógio. Marca seis horas da tarde, e é sempre nessa hora que o sol desce.

— Pois o meu marca também seis horas, mas da manhã. E digo que o sol sobe.

— Nada disso. Acabo de passar um dia inteiro acordado, e sei muito bem que está se pondo.

— E eu lhe digo que acordei cedo justamente para vê-lo nascer. Mas o senhor está atrapalhando o momento com suas maluquices de velho gagá!

— Gagá? Ora, o senhor é que está maluco, achando que o sol está nascendo. Seu velhote demente!

— Cale a sua boca! — bradou o segundo. — Fique quieto para não me estragar a aurora!

— Aurora? Quantas vezes vou ter de dizer que o sol se põe! — berrou o primeiro, levantando-se e estufando o peito.

— Já te disse que nasce! — insistiu o segundo, levantando-se também e fechando os punhos à frente do rosto.

— Está se pondo! — gritou o primeiro, se atirando contra o segundo.

— Está nascendo! — retrucou o segundo, se atirando sobre o primeiro.

Atracaram-se disparando golpes altos e baixos com toda a ferocidade de seus corpos senis. O primeiro derrubou o segundo e logo se pôs sobre ele, acertando murros em seu rosto. O segundo, alcançando sua bengala, acertou-a em cheio nas costas do primeiro e, pondo-se de pé, atacou o outro enquanto estava caído. O primeiro conseguiu se defender de um dos golpes e jogar a bengala do segundo para longe. O segundo partiu para cima do primeiro, e os dois rolaram sobre a grama. Entre socos, chutes e joelhadas, os senhores seguiram se engulfinhando, derramando sangue um do outro.

— Canalha! — gritou o primeiro ao quebrar um dos dentes do segundo.

— Patife! — berrou o segundo afundando uma das costelas do primeiro.

Quando, exaustos, não conseguiram mais se acertar, decidiram que a briga não levaria a nada. Sentaram-se novamente sobre o banco e limparam o sangue do rosto. O primeiro rasgou um pedaço da camisa e enfaixou o rasgo aberto na testa. O segundo cuspiu uma bola de baba e sangue no chão, sentindo com a língua o novo buraco na gengiva. Propuseram, então, uma forma alternativa de resolver essa desavença.

— Vamos observar o horizonte — disse o primeiro. — Se o sol subir, está nascendo.

— Correto — disse o segundo. — E se descer, está se pondo.

— Exato. Estamos combinados?

— Estamos. Agora cale a boca.

E se puseram a observar atentamente o movimento no horizonte. Mas o sol, sem ter sido informado da disputa, preferiu ficar parado e observar como era linda a rotação de Vênus.