Espera

Parece que já se passaram horas desde que puxei o gatilho, mas ainda estou esperando a bala me atingir. A explosão do disparo foi alta e o calor é até gostoso de sentir no céu da boca, mas essa espera é a pior parte. Ninguém te conta que isso acontece -afinal, ninguém tem como te contar- mas logo antes de morrer, a gente fica preso nesse instante, esse breve instante em que não há mais volta. É o cafézinho junto da conta, um último momento de reflexão antes de levantar e ir embora. Ou pelo menos é o que eu acho, já que estou preso aqui faz tempo, e não há muito mais para fazer.

Pensando bem, eu nem sei direito porquê quis terminar dessa forma, e justo hoje. Foi como um ato de espontaneidade, um impulso, e, na hora, parecia ser a melhor alternativa. Mas depois de vir parar nesse instante, não sei se os motivos estavam assim tão claros. Aconteceu tudo muito rápido, nem tive tempo de escrever um bilhete. Talvez isso me ajudaria a pensar melhor sobre tudo.

Eu sei que estava infeliz, muito infeliz na verdade. Com o trabalho, com os amigos, com os finais de semana, com as viagens que não fiz, com as mulheres que não conheci, com tudo, para ser sincero. E isso não é de hoje, não. Talvez eu estivesse deprimido, precisando de uma ajuda. Qualquer ombro amigo já estaria de bom tamanho. Mas para isso eu precisava ter amigos.

Será que foi por isso? É, os amigos faziam falta. Quando foi que perdi o contato com todo mundo? Acho que fui eu que me distanciei deles, tenho que admitir. Deles e da família. Não tinha me ocorrido, mas o vô se matou também. Veneno de rato, logo depois do natal. Será que é hereditário? Já não bastava a diabetes e a pressão alta, agora isso também?

Não. Acho que foi por causa da Fernanda. É, talvez tenha sido isso. Eu deveria ter dito algo mais cedo, mas fiquei adiando, e no final ela que terminou comigo. Transou com outro e terminou comigo. Não precisava ter me contado isso, na verdade. Só piorou as coisas. Seria mais fácil de lidar se eu tivesse algum tempo livre durante a semana, mas a rotina não deixou. Acordar, tomar café, ir para o trabalho, trabalhar, voltar do trabalho, fazer o jantar, preparar a papelada para o dia seguinte e dormir um pouco antes do despertador tocar.

Que vida chata eu levava, meu deus! Se tivesse pensado nessas coisas antes, talvez não viesse parar aqui, onde posso de fato pensar. Talvez teria feito um esforço pra mudar, quem sabe eu não encontrava um motivo para continuar vivendo? Mas, bom, agora não tem mais volta. Acho que a bala está deslizando pelo cano. Será? Não, espera só mais um pouquinho. Cinco minutinhos, por favor. Está tão bom aqui.

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3 comentários sobre “Espera

    • Ivan Cardoso 20 de junho de 2016 / 03:20

      Obrigado Lauren! Fico mega feliz que tenha gostado e comentado 🙂
      Beijos!

      Curtir

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