Guerra total

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Auróvia, a grande nação do norte, declarou guerra contra o Mundo numa segunda-feira. O comunicado oficial foi transmitido ao vivo em todas as redes de televisão e rádio nacionais e internacionais. Foi uma decisão democrática e unânime do povo, disse o presidente aos quatorze microfones apoiados à frente de seu púlpito no topo da escadaria do Palácio da Nação. A população aplaudiu e comemorou o anúncio balançando bandeirões, bandeiras e bandeirolas nacionais.

Na terça-feira, convocações militares chegaram às casas de todos os habitantes de Auróvia. Fizeram as malas, despediram-se de suas famílias e foram para as juntas militares mais próximas de seus lares, trocar as roupas do corpo pelos uniformes e receber treinamento em armas. Nos lares que deixaram, bandeiras foram fixadas no parapeito de janelas ou na grama dos jardins, indicando que ali morava um soldado, um patriota, um herói. É verdade que as ruas ficaram vazias, mas o orgulho de todos preenchia a falta.

Na quarta-feira, os recrutas recebiam ordens dos sargentos, que as recebiam dos generais, que as recebiam dos deputados, que as recebiam dos senadores, que as recebiam dos ministros, que as recebiam do presidente, que dizia para cavarem trincheiras, limparem suas armas e manterem seus postos, pois os inimigos já se aproximavam das fronteiras. Todos obedeceram. Nos lares chegou nova convocação. Os que estavam em idade hábil e não haviam sido recrutados a pegar em armas deveriam se apresentar nas indústrias, onde trabalhariam na produção bélica, pois todos os disparos dos inimigos deveriam ser devidamente revidados. Todos obedeceram.

Na quinta-feira, chegou nova ordem às estações militares do país dizendo que um muro deveria ser erguido. Um grande muro de cimento e aço, dezoito metros de altura e três de espessura, circundando as fronteiras de Auróvia para proteger o país dos ataques por terra ou por mar. Especialmente por mar, disse o presidente, pois os navios dos inimigos logo se aproximariam das praias. Começaram a chegar nos quartéis e acampamentos os primeiros carregamentos de munição, armamentos, bombas, mísseis e mantimentos para os militares, que comemoraram a potência bélica de seu próprio país com vinte e um disparos de solenidade.

Na sexta-feira, instalaram cercas de arame farpado no topo do grande muro para evitar que os soldados inimigos pudessem invadir a nação pelos pontos cegos. Nas indústrias, chegou uma ordem expressa do presidente para que concentrassem os esforços na produção de armas nucleares, pois os inimigos também as produziam. Auróvia deveria mostrar sua força se quisesse sair vitoriosa.

No sábado, uma nova ordem chegou, dizendo que construíssem um grande teto de cimento e aço apoiado sobre o muro de Auróvia. Cobrindo toda a extensão do país, protegeria a população dos ataques aéreos, a mais nova moda nas guerras. Soldados e industriais se uniram para obedecer o mais rápido possível, e, pela noite, sentiram-se a salvo das bombas, que não tardariam a cair.

No domingo, ninguém trabalhou, pois era dia de descanso. Os soldados puderam visitar suas famílias nas mesas de jantar dos lares que deixaram para trás, onde conversaram sobre a vida no quartel e a vida na indústria e a nota máxima que a pequena Beth recebeu na redação sobre o conflito. Que coisa mais linda, o orgulho dos pais e da nação!

Na segunda-feira, todos voltaram para suas estações e não perderam tempo em cumprir suas tarefas, pois havia uma guerra a ser vencida. Dentro de sua armadura impenetrável, o povo de Auróvia esperou o ataque dos inimigos, que não deveria tardar. Não se deram pela falta de janelas.

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Espera

Parece que já se passaram horas desde que puxei o gatilho, mas ainda estou esperando a bala me atingir. A explosão do disparo foi alta e o calor é até gostoso de sentir no céu da boca, mas essa espera é a pior parte. Ninguém te conta que isso acontece -afinal, ninguém tem como te contar- mas logo antes de morrer, a gente fica preso nesse instante, esse breve instante em que não há mais volta. É o cafézinho junto da conta, um último momento de reflexão antes de levantar e ir embora. Ou pelo menos é o que eu acho, já que estou preso aqui faz tempo, e não há muito mais para fazer.

Pensando bem, eu nem sei direito porquê quis terminar dessa forma, e justo hoje. Foi como um ato de espontaneidade, um impulso, e, na hora, parecia ser a melhor alternativa. Mas depois de vir parar nesse instante, não sei se os motivos estavam assim tão claros. Aconteceu tudo muito rápido, nem tive tempo de escrever um bilhete. Talvez isso me ajudaria a pensar melhor sobre tudo.

Eu sei que estava infeliz, muito infeliz na verdade. Com o trabalho, com os amigos, com os finais de semana, com as viagens que não fiz, com as mulheres que não conheci, com tudo, para ser sincero. E isso não é de hoje, não. Talvez eu estivesse deprimido, precisando de uma ajuda. Qualquer ombro amigo já estaria de bom tamanho. Mas para isso eu precisava ter amigos.

Será que foi por isso? É, os amigos faziam falta. Quando foi que perdi o contato com todo mundo? Acho que fui eu que me distanciei deles, tenho que admitir. Deles e da família. Não tinha me ocorrido, mas o vô se matou também. Veneno de rato, logo depois do natal. Será que é hereditário? Já não bastava a diabetes e a pressão alta, agora isso também?

Não. Acho que foi por causa da Fernanda. É, talvez tenha sido isso. Eu deveria ter dito algo mais cedo, mas fiquei adiando, e no final ela que terminou comigo. Transou com outro e terminou comigo. Não precisava ter me contado isso, na verdade. Só piorou as coisas. Seria mais fácil de lidar se eu tivesse algum tempo livre durante a semana, mas a rotina não deixou. Acordar, tomar café, ir para o trabalho, trabalhar, voltar do trabalho, fazer o jantar, preparar a papelada para o dia seguinte e dormir um pouco antes do despertador tocar.

Que vida chata eu levava, meu deus! Se tivesse pensado nessas coisas antes, talvez não viesse parar aqui, onde posso de fato pensar. Talvez teria feito um esforço pra mudar, quem sabe eu não encontrava um motivo para continuar vivendo? Mas, bom, agora não tem mais volta. Acho que a bala está deslizando pelo cano. Será? Não, espera só mais um pouquinho. Cinco minutinhos, por favor. Está tão bom aqui.