Esse lugar aqui

Não sei se você sabe, mas esse lugar aqui era tudo mato antigamente. Faz uns cem, cento e cinquenta anos que abriram uma estradinha de terra para as carroças passarem. As casas, os prédios, o asfalto, a calçada, tudo isso veio só depois. Eu não sei direito como era, só vi numas fotos em preto e branco no museu. Imagina só como deve ter sido?

Antes disso não existia nem a cidade. E o rio ainda tinha curvas, não era essa coisa cimentada e reta no fim da avenida. Quem sabe uns quinhentos anos atrás, bem nesse lugar, um europeu e um indío não se estranharam pela primeira vez? Ou algum periquito já extinto não cantou suas canções num galho de uma árvore que já foi extinta também?

Um milhão de anos atrás, esse lugar era uma planície congelada, acredita? Nevava nos trópicos, mas sem o glamour do frio europeu. Deveria ser bem parecido com aquelas ilustrações das enciclopédias antigas, e preguiças do tamanho de fuscas talvez tirassem suas sonecas por aqui, depois do almoço.

Há uns duzentos milhões de anos, isso aqui era tudo mato de novo. E talvez não fosse difícil encontrar dinossauros caminhando por aqui, deixando pegadas que o tempo já apagou. Libélulas gigantes, quem sabe, não passavam zumbindo por aqui, na sombra de árvores imensas?

Antes disso, isso aqui era um deserto. Uma planície árida e rochosa, com alguns cactos solitários se bronzeando ao sol. Antes ainda, era um lugar difícil de se pisar, pois era todo lava fumegante. E no princípio, esse lugar estava debaixo do mar, quietinho, descansando.

No futuro eu já não sei como esse lugar vai ser. Se tudo der certo, carros voadores passarão pelo céu, e alienígenas amigáveis caminharão por aqui como nos desenhos animados da nossa infância. Ou, se tudo der errado e as calotas polares derreterem,  esse lugar estará de novo debaixo do mar, descansando.

Mas hoje em dia é assim: tem essa avenida larga, tem os carros, tem esses prédios, os casarões antigos, a calçada, os pedestres, esse céu azul, seus olhos azuis, meus olhos castanhos, seu corpo, meus braços, seus lábios, meus lábios e esse beijo, que eu espero que não termine tão cedo. E é assim que eu quero me lembrar desse lugar, aqui.

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10 comentários sobre “Esse lugar aqui

  1. Zulmira 17 de maio de 2016 / 17:18

    Adorei. O tom romântico do último parágrafo é inesperado, e fecha lindamente o texto. Parabéns!

    Curtido por 3 pessoas

  2. palhao 17 de maio de 2016 / 18:57

    Gostei da reflexão!
    Realmente, estamos perdendo a capacidade de aproveitar o presente, tão rápidas são as mudanças ao nosso redor…

    Com sua licença, convido você a baixar a antologia Microcontos Volume 2, grátis na Amazon até sexta:
    https://www.amazon.com.br/dp/B01FLB9A1C

    Eu ficaria honrado se recebesse uma avaliação sua.

    Grande abraço,
    Lucas Palhão

    Curtido por 2 pessoas

    • Ivan Cardoso 17 de maio de 2016 / 20:06

      De fato, precisamos sempre parar e aproveitar o momento presente, Lucas.
      Obrigado pelo convite, adorarei ler os Microcontos. Sempre admirei esse projeto da Quarta-feira Criativa, espero que ele continue 🙂
      Abraço.

      Curtido por 1 pessoa

  3. Henri Galvão 17 de maio de 2016 / 21:19

    Fantástico! E concordo com a Zulmira acima, o último parágrafo é de um lirismo inesperado e deu um contraponto bem interessante

    Curtido por 1 pessoa

    • Ivan Cardoso 18 de maio de 2016 / 16:16

      Que bom que gostou também 🙂 Essa era a intenção deste último parágrafo, fazer o contraponto e dar um tom diferente a todo o texto.
      Obrigado pela observação e pela visita!

      Curtido por 1 pessoa

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