Não se anime muito

Mensagem enviada do Além por Ivan Cardoso, recebida e psicografada por Helias Leitão no dia 22/04/2016 às 22:22

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Após morrer, você passa por uma porta giratória e vai dar numa sala grande, quente, abarrotada de gente, sem janelas nem lugares para sentar. Um segurança entediado lhe diz logo na entrada para entrar na fila, e você se mete atrás da última pessoa que vê. A fila é imensa, serpenteia por um labirinto de fitas pretas que lembram cintos de segurança e desemboca lá longe em uma muralha de vinte guichês envidraçados, como nas alfândegas de grandes aeroportos. Toda hora alguém novo chega, e o segurança pede para que todos se apertem um pouco mais. A fila anda muito lenta, e você não traz nada além das roupas com que morreu, portanto não há nada com o que se distrair a não ser o ruído enferrujado de um ventilador antigo que gira daqui para lá, sem produzir efeito algum. É inútil puxar conversa com as pessoas que estão próximas, a chance de falarem sua língua é mínima.

Ao se aproximar dos guichês, você nota que algumas pessoas tem papéis nas mãos. Alguns amarelos, outros azuis e outros rosas; mas a grande maioria está de mãos abanando, como você, que tenta chamar a atenção de uma pessoa distante com um formulário azulado para perguntar se é preciso preenchê-los ou não. Mas ao chegar um pouco para o lado, o segurança grita com você, falando para se manter no lugar e respeitar quem chegou primeiro. Envergonhado, você desiste e resolve descobrir quando chegar lá.

Na última curva você consegue ver que há apenas três guichês funcionando. Parece que quanto mais próximo está, mais lentos ficam os atendimentos. Finalmente, depois de horas de espera, você é chamado ao último guichê da direita:

“Próximo!”

Lá, um atendente meio apático te pergunta:

“Céu, inferno ou purgatório?”

Você, como a maioria das pessoas, se surpreende com a possibilidade de escolha. Mas, ora, a resposta é óbvia, e, alegre, declara:

“Céu”.

O atendente prontamente te informa que deve preencher o formulário 32-B amarelo, disponível nos balcões próximos da entrada e voltar à fila. Indignado, você tenta argumentar, dizendo que não foi informado sobre esses formulários, mas o atendente grita:

“Próximo!”

“Mas…”

“Próximo!”

Derrotado, você deve retornar à entrada, preencher o bendito formulário e voltar à fila, que não para de crescer. Após um dia inteiro de espera, é atendido novamente:

“Céu, inferno ou purgatório?”

“Céu”, você responde, entregando o formulário. Ele lê os campos preenchidos, olhando vez e outra para o seu rosto. Ao fim, digita algo no computador e diz:

“Final do corredor, terceira porta à esquerda. Próximo!”

O corredor tem paredes bege daquele material usado para separar cubículos em escritórios, e ao chegar à porta você se depara com uma nova sala de espera. As únicas oito cadeiras estão ocupadas, e a maioria das pessoas se apoia pelas paredes, especialmente debaixo do ar-condicionado que liga e desliga a cada meia hora. No fim da sala há uma porta de vidro fosco e um painel luminoso logo acima congelado num número de três dígitos. Ao seu lado há uma mesa com outro atendente, que imprime uma senha numérica e, sem te olhar nos olhos, pede que aguarde. Aqui ninguém se fala também, mas pelo menos há a possibilidade de se ditrair enrolando e desenrolando o papelzinho da senha. Toda vez que a campainha eletrônica soa, você vira a cabeça ansioso, mas nunca é o seu número.

Quando finalmente acontece, depois de quase uma semana, e seu número é chamado, você passa pela porta para uma nova sala de espera, ainda menor, com menos cadeiras e igualmente abarrotada. Desta vez a chamada é feita por nome através de uma caixa de som pendurada em uma das paredes. Há uma suave música de fundo no intervalo entre chamadas, e ninguém se fala, a não ser para cantarolar um trecho de alguma melodia conhecida. Sua garganta começa a ressecar nessa sala, mas o único bebedouro está vazio, apesar de haver copos de plástico de sobra.

Você espera um mês escutando Mohameds, Chloes, Lisandras, N’kotas, Achxuraxans, Baijayantis, Changs, Quons e Brígidas serem chamados e desaparecerem pela porta, até que um dia acontece de seu nome ser chamado. Do outro lado da porta há uma nova sala de espera, ainda menor, mas desta vez não há ninguém, apenas um sofá de três lugares vazio, um vaso com plantas altas e uma outra porta à sua frente. Você deve esperar que ela abra e te chamem. Não adianta bater ou chamar, eles virão até você. Há um quadro à direita da porta retratando uma bacia de frutas numa moldura dourada. À esquerda, um poster de um koala em uma daquelas molduras de vidro.

Após alguns minutos, a porta se abre e uma mulher de terno cinza, cabelos presos num coque alto e óculos grossos pede para que entre em seu escritório e sente-se, por favor. A cadeira é de uma madeira dura e fria, e você se pergunta se não poderia pegar uma das almofadas do sofá. Ela abre uma gaveta na mesa e pega um ficha com seu nome, lê rapidamente alguns trechos balançando a cabeça e emitindo breves afirmações. Quando termina a leitura, olha para você e faz a mesma pergunta do início:

“Céu, inferno ou purgatório?”

“Céu, por favor”, você responde.

“O céu é para as pessoas boas. Você foi uma pessoa boa?”

Honestamente, você acredita que foi uma pessoa boa, mas sabe que cometeu seus pecados aqui e ali. Nada que te faça merecer o inferno, mas eles provavelmente estão ali na ficha. Talvez ela tenha relevado esses pequenos delitos, ou talvez esteja medindo sua honestidade. Mas esse não é o momento de sujar sua reputação e arriscar essa espera de uma vida inteira. Não, você foi uma pessoa boa. No geral, pelo menos.

“Fui uma pessoa boa”, você responde com convicção, mas sem muita certeza.

A mulher te olha intensamente de trás dos óculos por alguns segundos e declara:

“Muito bem, assine aqui, aqui e aqui”, entregando sua ficha.

Quando você termina, ela diz com um sorriso:

“Bem vindo ao céu, pode passar por aquela porta. Boa viagem.”

Você se levanta, está um pouco surpreso de ter chegado ao fim do processo. Suas mãos tremem um pouco. Você foi aceito, vai passar a eternidade no paraíso. Quanta emoção! Você gira a maçaneta, a porta range um pouco, mas quem liga? Seu coração está a mil, sua cabeça roda um pouco, a tensão é grande. Finalmente!

Você atravessa a porta e, com um estrondo, ela deixa de existir. Ao redor existe apenas o Nada. O imponente e inimaginável Nada. Pouco a pouco, você se dissolve nesse Nada e deixa de existir por completo, no eterno não-ser que é a Morte. A última coisa que você escuta é a gargalhada zombeteira dos anjos.

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4 comentários sobre “Não se anime muito

  1. Rancho do Peregrino 22 de junho de 2016 / 01:00

    ah… o nada. Sempre me persegue. Sempre quis morrer como uma árvore. Acho fantástico a morte delas. Nada mais poético e verdadeiro. Morrer assim… desapercebidamente. Belo texto…

    Curtido por 1 pessoa

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