Assalto

Pode levar tudo, moço, pode levar. Só não me machuca, por favor. Toma aqui o dinheiro, o celular e a carteira. Os cartões? As senhas estão nesse papelzinho aqui. Pega o relógio e a mochila também. Leva o carro, aqui as chaves. É o sedan preto parado na frente da farmácia, pode levar. Leva a chave da casa também, pode ficar com ela, com a tv, os móveis, o computador e os livros. Embaixo do colchão tem um dinheirinho guardado, pode pegar. Só não me machuca, por favor.

Toma meus sapatos, e as meias. As roupas também, pode levar. Aqui, essa correntinha. É de prata, herança do meu pai, mas pode levar. Só não me machuca, por favor. Pode ficar com meu emprego, leva minha mesa e meu horário de almoço. Meus rins? Aqui, pode levar. Os olhos e a vesícula biliar também. Leva minhas digitais. Leva os pulmões, os pelos encravados, leva o corpo, leva tudo. Só não me machuca, por favor.

Pode pegar meus sonhos também, as memórias de infância e os amores todos, pode pegar. Leva minha preguiça matinal, leva meu pico de café, leva tudo, pode levar. Leva minhas frustrações e meus medos irracionais, moço. Leva meus pesadelos. Leva minhas noites sem sono. Leva minhas esperanças. Leva minhas expectativas. Leva minhas preocupações. Leva minhas paranóias. Leva minhas certezas. Leva tudo, moço. Leva tudo.

Obrigado, já me sinto mais leve.

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Questionário

– Para quê crescer os cabelos?

– Para cortá-los no futuro.

 

– Para quê lavar os pratos?

– Para sujá-los novamente.

 

– Para quê ganhar dinheiro?

– Para gastá-lo amanhã.

 

– Para quê nascer o dia?

– Para morrer do outro lado.

 

– Para quê fazer perguntas?

– Para respondê-las algum dia.

– Não.

– Não? Então para quê?

– Para nunca deixar de fazê-las.

O fantasma

fantasma

Não sei dizer se dormi ou se as horas passaram sorrateiras, mas já é madrugada e há um fantasma em meu quarto. Está sentado na cadeira perto do armário e me observa, assim como eu o observo, imóvel. Sem tocá-lo, sinto que o ar ao seu redor é gélido, como são gélidas as águas escuras; contraste ao calor que meus cobertores não permitem escapar.

Como descrevê-lo? Um vulto? Uma sombra? Desconheço uma palavra que englobe sua forma incerta, a qual parece sempre mudar. Seus contornos (se é que os possui) lembram vagos traços humanos, e por isso o chamo de fantasma.

Permanece de todo quieto, exceto por leves sussurros guturais que deixa escapar de vez em quando sem de fato formar palavras, a não ser (e isso com grande esforço de interpretação) artigos indefinidos desconexos. Evito contra-argumentar ou sequer perguntar algo, pois fazê-lo extinguiria sua presença. Não sei como sei disso, apenas sei que sei. Minha garganta, por sua vez, permanece aberta e o ar lá dentro, parado.

Sigo encarando seus olhos (ou o que acredito serem seus olhos), imaginando o que estariam vendo. A escuridão ali é densa, dois poços sem pupilas, sem cílios, sem fundo. Meu único medo é deixar de vê-los.

Saúde!

sneeze-shake

Você já se viu amando alguém

por uma noite apenas?

Menos ainda, no espaço de uma conversa

ou no tempo de um olhar

que é breve como um suspiro

mas intenso como um espirro?

 

Se um dia se ver assim

vai por mim

não segure – isso vai ser horrível.

Ao invés, que venha com tudo:

ame esse alguém e façam juntos

o maior barulho possível.