Área de serviço

Gosto de vir aqui para pensar de vez em quando. Aqui, pelo menos, consigo me afastar das luzes acesas e do som das televisões ligadas em três cômodos diferentes. Aqui, pelo menos, consigo fumar meus cigarros em paz, vendo a fumaça se dispersar. Basta vir para cá e fechar a porta da cozinha.

Daqui, gosto de olhar para as outras varandas, que se empilham e se encaram, umas em cima das outras, umas de frente para as outras. São todas iguais: o mesmo espaço planejado, o mesmo tanque, a mesma porta para o quarto de empregada, o mesmo buraco na parede para passar a mangueira do botijão de gás, a mesma porta fechada para a cozinha.

E mesmo assim são diferentes. As roupas no varal, as máquinas de lavar, as redes para não deixar os gatos caírem, as plantas em vasinhos coloridos, nada se repete. Acho bonito isso, essa coisa de serem únicas apesar de iguais; as infinitas possibilidades de transformação do mesmo espaço, como um reflexo da personalidade dos moradores. Talvez escreva algo sobre isso mais tarde. Por enquanto, fumo.

Bato o cigarro na beirada do cinzeiro. Uma coluna cinzenta de tabaco queimado despenca sem estrondo, dispersando no ar flocos esbranquiçados do mesmo material. E esses flocos pairam no ar incertos, alheios à gravidade -que os puxa para baixo- e ao vento -que os empurra para cima. Sobem, descem e vagueiam sem que o destino implique qualquer sentido ou direção: os arbustos do canteiro, no térreo; o chão gelado de uma das varandas, onde passarão despercebidos; o topo de um saco de lixo fechado; um outro lugar que nunca saberei onde é. Tanto faz, nada disso importa. Flutuam, apenas, livres de preocupações, dançando e rodopiando alegres até não poderem mais.

Filhos da puta. Sabem viver a vida melhor do que eu.

Aqui estou

Como um brilho de purpurina descoberto sobre o ombro esquerdo

semanas após o carnaval um canhoto de cinema encontrado

no bolso de um casaco pendurado desde o último inverno

o perfume de um antigo amor sentido em lençóis

há meses guardados certas lembranças nos

surpreendem em locais inesperados

revelando onde estavam e que

nunca saíram de lá.