O sabiá insone e seus colegas de terapia

Saiu no Estadão há uns dois meses o resultado de uma pesquisa do Instituto Passarinhar revelando que os sabiás-laranjeira paulistanos sofrem de insônia. A causa apontada pelos cientistas não é de surpreender: o estresse com o trânsito e o barulho urbano. Acho que acertaram em cheio quando o escolheram como a ave símbolo do nosso estado.

Após a revelação, cresceu a visibilidade e a preocupação acerca dos chamados transtornos psíquicos comuns, e outras espécies deixaram de lado suas neuras para descobrir se também não estariam sofrendo de algo. Não demorou para que fossem dados os diagnósticos:

O charmoso bem-te-vi descobriu que a insegurança que vinha sentindo, os episódios repentinos de taquicardia e de falta de ar não eram sinais de uma morte iminente, como vinha se desesperando, mas sim os sintomas clássicos de uma síndrome do pânico, vejam só. O beija-flor, lindo, gracioso e veloz, por sua vez, sentia dificuldade de se concentrar; quando chegava em uma flor, já pensava na próxima que iria visitar, nos filhotes no ninhos, nas contas a pagar, no aluguel vencido, e não conseguia se satisfazer nem com todo o néctar que ingerisse. Não deu outra, descobriu que sofre da síndrome do pensamento acelerado.

A depressão, o grande mal do século XXI, para a surpresa de muitos, está afetando também as aves, como acontece com o imponente caracará, que por conta dela se isolou dos amigos e da família, que não o vêem há meses. As pombas também sofrem com ela, vagando cabisbaixas pelas praças, incapacitadas de sentir prazer e esquecendo da própria higiene. O gavião miúdo, que sempre teve o caracará como ídolo inatingível, inconsciente de seu estado psíquico, sofre de um complexo de inferioridade agudo que deixa sua auto-estima em constante baixa, especialmente na época de acasalamento.

As maritacas, como já se suspeitava, sofrem todas de uma coletiva síndrome de Turette, gritando impropérios pelos galhos da cidade para todos ouvirem. Os tico-ticos, como já vinham alertando na canção, são cleptomaníacos e não se atém somente ao fubá, furtando lojas e objetos pessoais de amigos. Pica-paus estão sofrendo de perda de memória a curto prazo; quero-queros têm crises de irritabilidade e relataram alguns episódios psicóticos; rolinhas sofrem crises de pânico em multidões; tesourinhas padecem de crises de ansiedade; e os pardais, de nomofobia.

Todos eles, antes do diagnóstico, tentavam passar uma imagem de aparente normalidade enquanto escondiam seus medos até de si próprios. Evitavam procurar ajuda profissional ou de amigos próximos por vergonha de serem taxados de loucos. Hoje em dia, estão todos medicados e fazem terapia em grupo todas as segundas e quintas às sete e meia, num consultório na Lapa. 

Nos outros dias, vivem a mesma vida de sempre nessa cidade neurótica, no ritmo apressado e incessante que –dizem- é a marca registrada dos paulistanos. Em nenhum momento pensaram em parar um insante no caminho do trabalho e escutar os pássaros cantando.

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