Boas lembranças

Algo curioso me aconteceu certa vez, e gostaria de compartilhar a experiência. Era abril, acho, porque lembro de estar lendo On The Road numa edição de bolso de capa amarela que não cabia direito no bolso traseiro da bermuda, deixando o título visível próximo à minha cintura. Saí de casa em direção à rodoviária do Tietê, levando nas costas uma mochila grande visivelmente lotada. Era menor do que essas de 60 ou 70 litros que usamos em mochilões ou viagens longas, porém maior do que a mochila para laptop cotidiana. Nas laterais estavam presos um saco de dormir e uma barraca, cada um de um lado para balancear o peso, que mesmo assim pendia mais para o direito, o da barraca. Me aproximava da estação Clínicas do metrô pelo lado do hospital, quando um homem de cabelos brancos e camiseta preta veio falar comigo.

“Você me lembra da minha juventude”, ele começou sem introduções, “era muito boa aquela época”. Logo imaginei que ele seria um desses jovens buscando doações para ONGs beneficientes, mas a ausência de uma prancheta ou de um colete colorido me pôs em dúvida do que aquele homem queria comigo. Não o ignorei, mas também não parei para conversar, e ele seguiu ao meu lado, falando: “Eu costumava viajar muito, desse jeito aí, com mochila nas costas e barraca. Naquela época a gente não usava saco de dormir, tinha que se virar pra se aquecer de noite, e às vezes fazia uma friaca danada, mas era muito bom de qualquer jeito.” Notei que sua fala possuía um certo espírito jovem, assim como seu jeito de andar, que não condiziam com a idade avançada que imaginei para ele.

Caminhamos lado a lado, e na entrada do longo corredor dividido em dois que sempre achei muito semelhante à silhueta de dois pulmões, me contou a história de uma de suas viagens: “Tem uma vez que eu nunca me esqueço. A gente pegou uma kombi –há muito tempo atrás- colocou as malas no fundo e fomos rodar o estado.” Enquanto contava, não olhava para mim nem para o caminho, mas para algum outro lugar, longe. “Era muito gostoso aquilo. Quando a gente cansava de dirigir, parava em algum lugar, montava a barraca e dormia. De manhã a gente tomava banho em rios, em cachoeiras, às vezes nem tomava banho, era muito bom. Não gastava quase nada também –porque, afinal, a gente não tinha quase nada também- mas dinheiro não fazia falta, porque a gente se virava com o que encontrava, na natureza mesmo.” Notei que ele sorria bastante enquanto falava, e não fiz muito além de concordar, para não atrapalhar suas memórias com minhas falas. “E aí a gente foi viajando, conhecemos muitas cachoeiras, dormimos a céu aberto, fomos até Minas e acabamos a viagem no Rio, depois de mês já, sem nada na mão, sem nem gasolina pra voltar pra cá!”, e riu uma risada sincera, gostosa de ouvir.

“É viajando que a gente conhece as pessoas de verdade, vemos quem sabe lidar com problemas e quem só liga pra si mesmo. Tinha o Alemão, que foi com a gente, que era o mais responsável do grupo, e todo mundo achava que ele ia saber como resolver os problemas, mas na hora do perrengue que a gente viu: o cara foi o primeiro a se deseperar, saiu correndo e não deu a mão pra ninguém. Mas tiveram outros que deu pra ver que se importavam com todo mundo, e quando a água batia na bunda eles conseguiam ficar calmos e ajudar o resto a resolver a situação.”

Conversamos um pouco mais até o final do corredor, logo antes da bilheteria: “Viajar é uma das melhores coisas a se fazer”, ele disse, e eu não tinha como discordar, “pelo Brasil e pelo exterior, especialmente quando se é jovem. Viajar e ler são as duas melhores e mais ricas experiências para qualquer um.” Concordei com um aceno de cabeça e quando fui comentar, ele continuou: “Por isso eu achei muito legal te ver passando ali na entrada, com a mochila, me fez pensar pra onde estava indo.” Sorrimos um para o outro. “Você me lembrou de uma época boa da minha vida. Obrigado.” E se despediu, subindo de dois em dois os degraus da escadaria, desaparecendo na claridade do dia tão rápido quanto apareceu.

“Foi um prazer”, respondi, sem saber se ele me escutou. Me permiti um tempinho para absorver melhor aquela situação antes de ir para a plataforma e seguir viagem.

Nunca mais vi o homem de cabelos brancos de novo, e nunca soube nada dele além do que me contou naqueles breves minutos. Mas lembro de nossa conversa às vezes, quando por ventura abro um livro novo ou fecho a mala mais uma vez, e tenho certeza de que ele estava certo.

Esse episódio se passou há mais de dois anos, e é uma lembrança muito boa que tenho. Obrigado por escutarem.

Pequenos poemas

O poço

Cheguei no fundo

Cavei um pouco mais

Saí do outro lado

.

Enxurrada

Aos cântaros escorre

a chuva na janela

transformando o lá fora

em paisagem aquarela.

.

Negocio abraços

Negocio abraços:

três pelo preço de dois;

a dúzia sai por dez.

Descontos especiais

para os longos e apertados.

Garanto sinceridade e energias positivas.

Peço em retorno somente

um pouquinho de calor.

Marcolino e o mar

Ou uma fábula da pós-modernidade

HotDogLegs6 (1)

No início das férias de verão, Marcolino decidiu sair da cidade e viajar para o litoral.

“Aonde vai, Marcolino?” Perguntou sua mãe ao vê-lo abrir a porta da frente e começar a sair.

“Estou indo conhecer o mar!” Respondeu com certa empolgação, pois nunca havia visto o mar.

“Ah, o mar, que coisa linda”, suspirou sua mãe, “é imenso! Um mundo de água que se extende até o horizonte! Às vezes sua cor é de um azul profundo, outras de um verde bem escuro. Você vai amar! Quando eu era mais jovem…”, ela começou, mas Marcolino logo se esquivou de suas histórias e se pôs a caminho. Os mais jovens nunca tem paciência para a experiência dos mais velhos.

Caminhou e caminhou pela estrada, sempre em direção ao mar. Estava quente, e muitas vezes pensou em desistir, mas seguiu em frente, apesar do esforço. Não demorou muito, chegou à serra, onde encontrou filas de carros parados até aonde seus olhos podiam enxergar. Marcolino não entendeu direito o que era tudo aquilo e resolveu perguntar às pessoas dentro de um dos carros:

“Com licença, amigos”, disse Marcolino, “esse engarrafamento leva aonde?”

“Leva à praia”, respondeu o motorista, que estava suando e sem camisa, mostrando uma corrente de ouro no peito cabeludo.

Marcolino ficou muito feliz de saber que estava na direção certa, e indagou: “Falta muito para chegar lá?”

O motorista o olhou com cara de dúvida quando respondeu: “Pra caralho, filho. Ainda mais com esse engarrafamento.”

“Que pena”, respondeu Marcolino.

“Você está à pé?”, perguntou o homem.

“Estou sim.”

“Então você deve estar louco, não vai chegar lá nem fodendo! Escuta, você pode pegar uma carona comigo no banco de trás, ainda tem um lugar se o pessoal apertar um pouco, o que me diz?”

“Muito obrigado, amigo, mas prefiro ir à pé, acho que chego ainda antes de você. Tenho muita pressa, pois vou conhecer o mar”, Marcolino respondeu com um sorriso no rosto.

“Nunca viu o mar?”

“Nunca vi, amigo. Essa será a primeira vez.”

“Pois tome cuidado, garoto, o mar é incerto como uma puta. Pode parecer calmo às vezes, mas fica revolto sem nenhum aviso e te engole de uma tragada só.”

Marcolino agradeceu os conselhos do motorista e se despediram amigavelmente. Seguiu sua viagem sem parar, e não encontrou o carro novamente em toda a descida da serra. Ao chegar ao litoral, cruzou com um surfista, que tinha os cabelos lambidos para trás e deixava um rastro de pingos atrás de si.

“Com licença, amigo”, chamou Marcolino, “sabe em que direção fica o mar?”

“Claro, brother, tô voltando de lá agora”, ele respondeu com um sorriso no rosto, “é só seguir a rua até o final e virar à direita, não tem como errar. A água tá uma delícia, perfeita pra esse calorão.”

“Obrigado, amigo”, respondeu Marcolino, e seguiu até o final da rua. Ao virar à direita, se deparou com uma visão surpreendente: o mar, imenso, rugindo com voracidade a cada onda quebrada. Pé ante pé, Marcolino cruzou a avenida beira-mar e caminhou pela areia, estarrecido pela beleza do mar, que nunca vira igual.

“É realmente grande, como disse minha mãe, e sua cor parece mesmo de um azul profundo ou de um verde bem escuro”, pensou Marcolino, “e assim como disse o motorista, parece calmo, mas no tamanho e na força de suas ondas vejo que está também um tanto bravio”.

Marcolino estava feliz, seu sorriso ia de bochecha a bochecha sem nem se esforçar. Aproveitou a naturalidade para sacar o celular do bolso e tirar três fotos: uma selfie  com óculos escuros e o mar ao fundo; suas pernas estendidas sobre a areia, uma das mãos à frente, segurando uma lata de cerveja; e a visão da praia e das ondas quebrando. Postou as três com filtro Lo-Fi, usando a mesma legenda:

#mar #praia #sol #verão #tudodebom #férias #descansomerecido #paz #gratidão #sun #litoral #breja #amomuito #calor #verao40graus #pedeserra #areia #delicia #beach #nofilter #sand #summer #love #surf #diversao #aventura #queroparasempre #deboa #naoquerovoltar #bronzeado

“E aí, brother”, cumprimentou o surfista, que voltava para pegar mais uma série e reconheceu Marcolino sentado na areia, “a água tá boa ainda?”

“Não sei, amigo, ainda não entrei”, respondeu Marcolino, rolando por seu feed de notícias.

“Ih, fica de bobeira não, brother, bora lá dar um tchibum”, encorajou o surfista, “tá esperando o que?”

“Os likes”, respondeu Marcolino sem tirar os olhos da tela, “estou esperando os likes.”

O sabiá insone e seus colegas de terapia

Saiu no Estadão há uns dois meses o resultado de uma pesquisa do Instituto Passarinhar revelando que os sabiás-laranjeira paulistanos sofrem de insônia. A causa apontada pelos cientistas não é de surpreender: o estresse com o trânsito e o barulho urbano. Acho que acertaram em cheio quando o escolheram como a ave símbolo do nosso estado.

Após a revelação, cresceu a visibilidade e a preocupação acerca dos chamados transtornos psíquicos comuns, e outras espécies deixaram de lado suas neuras para descobrir se também não estariam sofrendo de algo. Não demorou para que fossem dados os diagnósticos:

O charmoso bem-te-vi descobriu que a insegurança que vinha sentindo, os episódios repentinos de taquicardia e de falta de ar não eram sinais de uma morte iminente, como vinha se desesperando, mas sim os sintomas clássicos de uma síndrome do pânico, vejam só. O beija-flor, lindo, gracioso e veloz, por sua vez, sentia dificuldade de se concentrar; quando chegava em uma flor, já pensava na próxima que iria visitar, nos filhotes no ninhos, nas contas a pagar, no aluguel vencido, e não conseguia se satisfazer nem com todo o néctar que ingerisse. Não deu outra, descobriu que sofre da síndrome do pensamento acelerado.

A depressão, o grande mal do século XXI, para a surpresa de muitos, está afetando também as aves, como acontece com o imponente caracará, que por conta dela se isolou dos amigos e da família, que não o vêem há meses. As pombas também sofrem com ela, vagando cabisbaixas pelas praças, incapacitadas de sentir prazer e esquecendo da própria higiene. O gavião miúdo, que sempre teve o caracará como ídolo inatingível, inconsciente de seu estado psíquico, sofre de um complexo de inferioridade agudo que deixa sua auto-estima em constante baixa, especialmente na época de acasalamento.

As maritacas, como já se suspeitava, sofrem todas de uma coletiva síndrome de Turette, gritando impropérios pelos galhos da cidade para todos ouvirem. Os tico-ticos, como já vinham alertando na canção, são cleptomaníacos e não se atém somente ao fubá, furtando lojas e objetos pessoais de amigos. Pica-paus estão sofrendo de perda de memória a curto prazo; quero-queros têm crises de irritabilidade e relataram alguns episódios psicóticos; rolinhas sofrem crises de pânico em multidões; tesourinhas padecem de crises de ansiedade; e os pardais, de nomofobia.

Todos eles, antes do diagnóstico, tentavam passar uma imagem de aparente normalidade enquanto escondiam seus medos até de si próprios. Evitavam procurar ajuda profissional ou de amigos próximos por vergonha de serem taxados de loucos. Hoje em dia, estão todos medicados e fazem terapia em grupo todas as segundas e quintas às sete e meia, num consultório na Lapa. 

Nos outros dias, vivem a mesma vida de sempre nessa cidade neurótica, no ritmo apressado e incessante que –dizem- é a marca registrada dos paulistanos. Em nenhum momento pensaram em parar um insante no caminho do trabalho e escutar os pássaros cantando.