O último maço

Fui comprado numa loja de conveniências de um posto de gasolina, junto de um isqueiro amarelo, na falta de um vermelho. Fui desembalado e estreado na esquina seguinte, onde havia um banco desocupado. A primeira tragada foi lenta, contínua, prazerosa. A fumaça subia fina, dançando na tarde sem vento, rápida como o tempo, que foi curto demais para saciar o desejo por aquele fumo. O segundo veio imediatamente após. Foi saboreado aos poucos, com calma.

À noite, após o jantar, na varanda do apartamento, queimaram-se alguns mais durante um fluxo de pensamentos acerca da vida e outras coisas relacionadas. Não fosse um casal em algum dos outros apartamentos tendo a melhor transa de suas vidas próximos demais da janela, creio que meu fim teria ocorrido antes da meia noite, ali mesmo, naquele cinzeiro de madeira ao lado da rede. Mas o fumante em questão sentiu-se incomodado com a sinfonia orgástica que ouvia e foi continuar a pensar na sala, onde Priscila, sua mulher, não gostava que fumasse: “se não fica o cheiro na almofada, no sofá, na casa.”

Os próximos cigarros vieram somente dois dias depois, no apartamento de Clara e Esteves, que davam uma festa para comemorar algum recente sucesso profissional de Clara. Ou de Esteves. Ou dos dois, pouco me importa. Sentado ao sofá, as cinzas eram batidas alternamente com as de Martinha no cinzeiro de vidro à frente. Fumaram um, dois, quatro ou cinco cada um num longo diálogo dito mais com os olhos do que palavras. Mais tarde, fumou mais um na varanda da festa com sua mulher, que não parecia nem um pouco contente de ele estar de conversinha com aquela vagabunda da Marta. Foram embora juntos, mas sem se falar. Em casa, fumou mais dois na sala, sozinho, acompanhado dum copo de whisky com gelo, pouco antes de adormecer no sofá arrumado com os lençois e o travesseiro.

Na manhã seguinte, logo às 8, acordou com a cabeça doendo e a garganta ardendo, mas mesmo assim foi à varanda e acendeu o primeiro cigarro do dia. Sorveu cada trago com a lembrança da discussão com  Priscila, ouvindo os sons da cidade que acordava naquele domingo preguiçoso. “Odeio esse seu gosto constante de cigarro queimado”, Priscila disse no café da manhã das 11 horas, quando puseram a limpo as roupas sujas acumuladas. Brigaram, gritaram e perdoaram-se. Ele prometeu que iria parar, mas antes precisava de um tempo para se preparar: “amanhã, sem falta.” Passamos o resto do dia juntos, lendo o jornal na varanda até os olhos se cansarem e a garganta clamar pausa.

Fumou seu último cigarro -da vida, não do maço- naquela noite, lendo um conto de Alejandro Zambra sobre um homem que tenta parar de fumar. Soprou a fumaça volumosa com lentidão e intensidade, tomando um segundo prazer ao expirar, além do habitual ao inspirar. “O cigarro é uma coisa linda mesmo”, pensou. Poderia escrever um romance inteiro, quatrocentas, quinhentas páginas apenas sobre o ato de fumar: o que significa, a estética da coisa, a dança da fumaça que se desprende e faz a mente se clarear. De fato pensava melhor quando estava com um cigarro alternando entre os lábios e os dedos, como fazia agora, pensando nessas coisas todas. O cigarro trazia algo de genial às suas ideias.

Findado o ritual da fumaça, limpou o cinzeiro, ligou o computador e tentou começar o dito romance. Não conseguiu: precisava de cigarros para escrever, e já passava da meia noite, a hora maracada para sua promessa. Foi dormir suprimindo a vontade que o atiçava, revirando-o na cama, abrindo-lhe os olhos, fazendo brotar o suor na pele. Pela manhã, vi asco em seu olhar ao me encarar na mesa de cabeceira.

*

Sua vida de ex-fumante, porém, foi curta: durou onze dias e dezessete horas, terminando descontraidamente em um happy hour da firma. O epitáfio, plantado na esquina da Rebouças com a Cristiano Vianna, dizia: “os melhores prazeres são os prazeres proibidos”. Cafona, porém verdadeiro. Fumou de olhos fechados, sentado à mesa de madeira na calçada, aproveitando cada tragada, sentindo o calor do fumo descendo-lhe a garganta. O sabor do tabaco permaneceu na língua, nos lábios, por muito tempo, inabalado pelos goles que tomava.

Ao fim da cerveja, restavam-lhe ainda dois solitários crivos no maço, já amassado nas bordas pelo contato constante com as paredes de seus bolsos. Calculou-os exatamente para serem consumidos no trajeto para casa: um até o ponto de ônibus, terminado com pontualidade britânica quando teve de dar sinal e subir; o outro para o restante do trajeto, feito a pé. Acendeu-o logo que desceu em seu ponto e regozijou ao máximo esse prazer que durou 6 minutos, 22 segundos e 241 passos até a lixeira à frente do prédio, onde foi apagado e enterrado, junto do meu corpo esvaziado, dentro de um saco preto mal fechado.

Gosto de pensar que fui o último maço de sua vida. Desse jeito me torno um pouco mais imortal do que a marca enegrecida, testemunha de meu fim, que está na lateral da lixeira até hoje: a quarta da direita para a esquerda.

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