Casal centenário

Participei recentemente do I Concurso de Minicontos – “Jovens Escritores, Grandes Histórias”, realizado pelo site Portal da Escrita, do qual fui um dos finalistas com o conto “Casal centenário”. Segue abaixo o texto na íntegra:

— Marta! Este ano eu quero comemorar meu aniversário — Antônio declarou, quebrando o silêncio e a melancolia da tarde de domingo.

— Que é isso, Antônio? Tu nunca comemora aniversário! Que que te deu pra querer agora, do nada? — Marta deixou a louça do almoço de lado, secou as mãos e foi ao encontro do marido, sentado no sofá com os olhos doídos de tentar ler o jornal sem os óculos.

— É que este ano é diferente. Eu quero celebrar, quero os amigos todos aqui, quero reunir a família.

— Que maravilha! Faz anos que eu venho tentando te dar uma festa!

Antônio abriu sua fiel agenda de telefones. Um a um, percorreu os nomes de Abílio a Zulmira, riscando os já falecidos. Ao fim da última ligação, disse a Marta que não haveria mais festa.

— Por que, homem? — Ela perguntou.

— Não quero! Apenas não quero! — Ele disparou irritado para o quarto.

Marta foi até a agenda que estava ao lado do telefone, com um lápis em cima. Abriu-a e viu que Antônio tivera de riscar todos os nomes.

Paisagem cotidiana

Engata a primeira. Abaixa o freio. Anda. Para. Puxa o freio.

O céu é de um azul imaculado, imenso, impiedoso. Não chove há semanas, e a secura já se percebe nos lábios rachados pela cidade, um grave incômodo. O ar parece de um amarelo sujo, esconde o perfil dos prédios mais distantes. O sol, lá em cima, brilha um pouco demais, tornando o dia quente -muito quente- e isso significa uma coisa apenas: o rio, que corta a cidade em duas fatias desiguais, vai estar cheirando mais do que o normal. As águas paradas de seu curso artificialmente retilíneo fervem sob o calor abrasante, exalando um refinado aroma pungente que atravessa as barreiras físicas dos vidros escuros, vence as atmosferas postiças de gleid autoesporte e se faz sentido pelas muitas narinas que já o conhecem bem: carniça fermentada, com notas de enxofre.

Engata a primeira. Abaixa o freio. Anda. Para. Puxa o freio.

“Ô seu bosta, enfia essa buzina no teu cu, caralho! Não tá vendo que essa merda não tá andando pra ninguém, escroto? Tá achando que essa caceta vai fazer meu carro voar? Ah, te foder! Calor do caralho! Merda, já tô todo cagado de suor.”

Engata a primeira. Abaixa o freio. Anda. Para. Puxa o freio.

As motos passam despreocupadas nos corredores vazios, desviando dos retrovisores emparelhados, os rostos escondidos nos capacetes. Os ônibus resfolegam como grandes paquidermes, movendo seus corpos pesados a passos curtos, lentos. Nas traseiras dos carros, mensagens aos colegas estacionários: “Tá estressado? Vá surfar”, diz o Corsa sedan. “Foi deus quem me deu”, se orgulha o Gol vermelho. “Me lave”, clama o encardido Celta branco na poeira que o limpador de parabrisas não alcança. Uma família adesiva sorri a todos da traseira de um Jeep limpo demais para um Jeep: mãe, pai, dois filhos e um cachorro, nenhum deles afetado pelo estresse. Devem ser surfistas.

Engata a primeira. Abaixa o freio. Anda. Para. Puxa o freio.

“Merda, não tenho nada no carro pra enxugar esse suor, vou chegar fedendo no escritório. Devia deixar um desodorante no carro, talvez no porta-luvas, é só tirar os cds de lá, colocar num daqueles estojos que cabem uns 50, aí dá pra deixar na porta, aqui do lado, fica até mais fácil de pegar, mas ninguém usa cd mais, será que ainda vendem esses estojos? Que saco, não tem nada de bom no rádio a essa hora? Vontade de ouvir um Lou Reed, cadê o cd? Cadê? Cadê? Achei! Mas tá com o do Bob Marley dentro. Vai esse mesmo, faz tempo que não escuto. Old pirates, yes they rob I, sold I to the merchant ship. Será que passa barco no rio hoje em dia? Quer dizer, além dos que tentam limpar essa água podre, cheia de lixo, espuma flutuando, olha lá quanta garrafa de plástico boiando, como é que meu avô conseguia nadar aí quando era jovem? Bom, naquela época o rio era outro, a água era limpa, as margens eram naturais, com grama, com árvores, não tinha essa avenida, não tinha esse trânsito, não tinha esse cheiro, não tinha nada disso que tem hoje, só o rio.”

Engata a primeira. Abaixa o freio. Anda. Para. Puxa o freio.

Os motores tremem, ansiosos para correr, gritar, ranger; reflexo desses motoristas enclausurados, do rádio ligado, dos sovacos molhados. De dentro de um ônibus vermelho, a cabeça de um motorista espia para fora da janela o retrovisor lateral, enquadrando o rosto no reflexo: primeiro o lado direito, depois o esquerdo. Ajeita as sobrancelhas grossas com o dedo médio e com um único mindinho alisa a superfície do nariz, analisa a textura da pele, como se à procura de evidências de um cravo ou uma espinha já espremidos. Coloca os óculos seguros por um cordão no pescoço e se observa mais atentamente. Olha os dentes, tenta tirar algo com a língua, alisa os cabelos que crescem apenas nas laterais, começa a pentear para os lados os fios espessos do bigode com o polegar e o indicador, mas o ronco das motos e dos carros se acentua mais uma vez, anunciando a iminência do movimento, o trânsito que anda. Finalmente.

Engata a primeira, abaixa o freio, e volta a desaparecer detrás de seu volante.