Avenida fechada, cidade aberta

Apesar do tempo invernal desse princípio de primavera que durante a semana mais parecia alto verão, da ameaça constante de chuva e do vento gélido que teima em atravessar as blusas finas de algodão que usamos quando abaixo dos 20 graus, os paulistanos mais uma vez compareceram à avenida-cartão-postal mais famosa da cidade para desfrutar de um domingo longe do marasmo do almoço familiar. Sobre rodas, somente ciclistas, patinadores, skatistas e um cara meio diferente com um monociclo, indo e voltando dentro e fora da ciclovia. Os pedestres caminhavam com calma fora da faixa, sem receio de atropelamento, aproveitando essa visão diferente da avenida que conhecem tão bem, mas não dessa forma: era possível ver os prédios, o asfalto, as pessoas e as poesias em lambe-lambe, tudo sem pressa.

Na frente do Market Paulista, em frente à Frei Caneca, uma banda de cinquentões tocava composições próprias dos tempos de Jovem Guarda, alternando-as com piadas que os mais jovens não entendiam. Um pouco à frente, do outro lado da calçada, uma discotecagem de sucessos dos anos 70-80 remixadas com batidas mais contemporâneas criava um microclima de festa descontraída ao ar livre, com direito a pufs esverdeados, óculos de sol e cervejas em lata. Na esquina da Peixoto Gomide um grupo com contrabaixo, teclado, clarinete, trompete e vocais grossos tocavam um jazz animado de Nova Orleans, coreografados por um casal de dançarinos espontâneos que pareciam nunca se cansar e roubavam um pouco da atenção, mas não das gorjetas. Em outra esquina, uma moça ruiva de sorriso encantador dividia um microfone com um violonista de camisa jeans, embalando aquelas canções bonitinhas em francês que não entendemos a letra, mas nos fazem sorrir com o ritmo simples e leve. Em frente ao Parque Trianon, um homem solitário de voz surpreendente iniciava uma série de músicas do Alceu Valença com público mais intimista, e do outro lado, depois do Masp, um grupo que alternava batuques em lata e no corpo fazia todos ali perto delirarem com as formas mais inusitadas de se produzir som. Aplausos, aplausos.

A avenida respirava cultura, música, poesia e felicidades que davam um pouco mais de cor ao céu cinzento e pesado do domingo. Vi sorrisos daqueles que vem despercebidos e ficam ainda por um tempo nos lábios; amores de todas as formas e cores de mãos dadas e bocas coladas; duplas jogando frescobol; e um clima gostoso que, antes, soava estranho a São Paulo. E toda a gente ali pôde respirar um fôlego profundo, sem pressa, que -certeza- deixará a segunda um pouco mais leve. Esse foi meu primeiro domingo nessa nova Paulista, e, posso afirmar, não será o último. Pois assim eu gosto de ver a avenida, assim eu gosto de ver a cidade: fechada para nossos carros; aberta para nós.

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