A Cidade Mais Colorida do Mundo

As ruas da cidade eram escuras e sem cor há tanto tempo que ninguém mais reclamava. Foi numa terça-feira banal de um julho qualquer que a primeira imagem apareceu: uma pequena rosa, cada pétala de uma cor, desabrochando na parede cinza de uma cidade cinza. O artista, desconhecido, atuou na escuridão da noite, sem testemunhas e sem deixar assinatura. Foram os primeiros trabalhadores, caminhando cabisbaixos, encolhidos em seus pesados casacos, que a perceberam no canto esquerdo de uma parede nunca antes notada. Tiveram os que o julgaram um vândalo: “Onde já se viu, sair por aí pixando as paredes? Isso é um crime!”. Outros, porém, admiraram o gesto: “Eu achei bonito; quebrou um pouco da monotonia, sabe?”.

A imagem era uma só, mas a mensagem por trás possuía vários significados. Maria Escobar, designer, viu aquilo como um grito de socorro em forma de cores contra a opressão da vida urbana. Paulo Fernandes, estudante, enxergou apenas como um desenho, e continuou andando. Lurdes Silva, aposentada, parou um instante na frente daquela rosa e se lembrou de outra, vermelha, que Orestes Silva, seu marido, lhe dera quando ainda eram namorados. Seu sorriso passou desapercebido por muitos, mas deixou a flor um pouco mais colorida.

O tempo passou, e o desenho permaneceu ali, exercendo sua função artística, enfrentando todas as intempéries do tempo que tentavam apagá-lo, inutilmente. Somente quando a prefeitura veio e escondeu-o sob algumas camadas de cinza foi que um novo desenho apareceu: do outro lado da rua, uma parede inteira, sem janelas, sem canos, sem nada, deu lugar a uma paisagem de campo ensolarado, cheio de flores dos mais diversos tons. A alegria da população foi tamanha que o lugar virou ponto de encontro: muitos lotavam a rua nos finais de tarde para apenas sentar e admirar aquele espetáculo que eram as cores. Quando a prefeitura ameaçou re-estabelecer o império cinzento, houve bate-boca com a população, alguns do lado do artista, outros contra, mas todos discutindo. Enquanto estavam todos distraídos no meio desse debate acalorado, uma revoada de pássaros dourados foi pintada do outro lado da cidade, sem ninguém perceber.

Pouco a pouco, sempre de surpresa, a cidade ia ganhando mais e mais cores, desafiando a monocromia. Quando uma de suas obras era repintada, duas surgiam ao seu lado. A população começou a torcer pelo artista, em sua batalha artistíca, e a cada manhã se levantavam de prontidão, curiosos para saber qual parede estaria diferente naquele dia. Imagens, frases, retratos e formas abstratas brotavam pelas ruas, fazendo-os rir, sorrir, pensar, ou se conscientizar. Ninguém mais andava cabisbaixo no caminho para o trabalho; os olhos estavam sempre para cima, admirando a beleza que se exprimia nos murais da cidade. Algumas ruas já tinham todas as suas paredes pintadas, tornando-se galerias a céu aberto, museus da arte urbana. Era comum ver pessoas paradas, à distância, tentando entender qual o significado deste ou daquele desenho, mas cada um enxergava algo diferente nas obras.

A prefeitura desistiu do desafio, aceitando que, de fato, a cidade estava ficando mais bonita, e, ao final daquele ano, apenas uma parede na cidade inteira permanecia cinzenta, uma lembrança do que um dia dominou a paisagem. As expectativas eram altas. O que será que este artista misterioso iria pintar? “Será que encerrará seu ciclo com chave de ouro?”, perguntou Augusto Teixeira, motorista de ônibus. “Será essa sua obra prima?”, questionava-se Carla Matarazzo, empresária. A cidade ia dormir com as mais diversas especulações sobre a obra, mas no outro dia a parede acordava sempre igual.

Até que no dia primeiro do ano seguinte, após cessarem o espetáculo de cores e fogos no céu e secarem as fontes de champanhe, o primeiro cidadão a acordar com dor de cabeça foi à parede cinza inspecioná-la. E lá, no canto esquerdo, encontrou aquela primeira rosa, cada pétala uma cor, desabrochando na parede cinza de uma cidade colorida. Não notou a princípio, mas ali embaixo, quase na calçada, escrito com letras bem miudinhas, havia uma mensagem, um adeus, que dizia: “Obrigado, foi divertido!”.

A cidade nunca mais voltou a ficar cinzenta. A influência foi tamanha que, hoje, novos artistas estão sempre colorindo e recolorindo as paredes.  Cada mural que desbota com o tempo é logo substituído por outro, ainda mais bonito, destruindo qualquer sensação da antiga monotonia. As únicas cores que permanecem no mesmo local, sendo retocadas periodicamente, são as pétalas da rosa, mantidas como um monumento à livre expressão, à criatividade e à memória do poder que a arte possui.

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