A chuva de hoje à tarde

À medida que o sol descia, lentamente, ao seu encontro inadiável com o horizonte, as primeiras nuvens cinzas começaram a aparecer no céu. Pouco a pouco, elas chegavam, se cumprimentavam e marchavam, juntas, na trilha forte do vento, que até agora há pouco não passava de uma brisa suave de verão. As folhas das árvores começavam a se agitar, e os galhos, a se dobrar, como dedos apontando para o Leste, para longe.

Quando menos percebi, não se via mais o azul do céu, apenas um longo e homogêneo lençol cinza cobrindo tudo, pontuado por uma ou outra nuvenzinha mais escura que, de vez em quando, deixava escapar uma ou duas dúzias de gotas fugídias, do tipo que mal se consegue sentir o toque. Essas escapadas foram se tornando mais e mais constantes, e sua presença foi-se fazendo mais forte, até que, de súbito, como um exército de diminutos combatentes sob os retumbantes comandos dos trovões, elas começaram seu ataque. As gotas, finas e leves, desviadas de sopetão de seu trajeto retilíneo pelos fortes ventos, assemelhavam-se a ondas num oceano aéreo, dançando um gracioso balé antes de se espatifarem contra as superfícies duras e impermeáveis da cidade. Sob um segundo comando vindo das vozes profundas e constantes dos trovões, um téc-téc-téc mais intenso se misturou ao já constante som das gotas caindo: eram as pequenas pedras de granizo, que, brancas e redondas, saltitavam nos telhados e no asfalto, como bolas de gude que uma criança, em sua ganância de pequeno vencedor, deixa transbordar das mãos ao sair vitorioso do embate entre colegas.

Então, como que num passe de mágica, os pingos engrossam, começam a doer contra a pele, as bolotas de gelo param de cair, e os generais cujas vozes preenchem os céus mostram seus finos e retorcidos corpos, mesmo que por milésimos de segundos, iluminando o cinza da atmosfera, que poderia deprimir, não fosse o som da chuva caindo para nos dar conforto.

Essa é a chuva que continua a cair, agora mesmo, enquanto escrevo estas linhas, olhando pelo vão da porta, observando os telhados, as ruas, o céu e pensando, apenas pensando.

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