A chuva de hoje à tarde

À medida que o sol descia, lentamente, ao seu encontro inadiável com o horizonte, as primeiras nuvens cinzas começaram a aparecer no céu. Pouco a pouco, elas chegavam, se cumprimentavam e marchavam, juntas, na trilha forte do vento, que até agora há pouco não passava de uma brisa suave de verão. As folhas das árvores começavam a se agitar, e os galhos, a se dobrar, como dedos apontando para o Leste, para longe.

Quando menos percebi, não se via mais o azul do céu, apenas um longo e homogêneo lençol cinza cobrindo tudo, pontuado por uma ou outra nuvenzinha mais escura que, de vez em quando, deixava escapar uma ou duas dúzias de gotas fugídias, do tipo que mal se consegue sentir o toque. Essas escapadas foram se tornando mais e mais constantes, e sua presença foi-se fazendo mais forte, até que, de súbito, como um exército de diminutos combatentes sob os retumbantes comandos dos trovões, elas começaram seu ataque. As gotas, finas e leves, desviadas de sopetão de seu trajeto retilíneo pelos fortes ventos, assemelhavam-se a ondas num oceano aéreo, dançando um gracioso balé antes de se espatifarem contra as superfícies duras e impermeáveis da cidade. Sob um segundo comando vindo das vozes profundas e constantes dos trovões, um téc-téc-téc mais intenso se misturou ao já constante som das gotas caindo: eram as pequenas pedras de granizo, que, brancas e redondas, saltitavam nos telhados e no asfalto, como bolas de gude que uma criança, em sua ganância de pequeno vencedor, deixa transbordar das mãos ao sair vitorioso do embate entre colegas.

Então, como que num passe de mágica, os pingos engrossam, começam a doer contra a pele, as bolotas de gelo param de cair, e os generais cujas vozes preenchem os céus mostram seus finos e retorcidos corpos, mesmo que por milésimos de segundos, iluminando o cinza da atmosfera, que poderia deprimir, não fosse o som da chuva caindo para nos dar conforto.

Essa é a chuva que continua a cair, agora mesmo, enquanto escrevo estas linhas, olhando pelo vão da porta, observando os telhados, as ruas, o céu e pensando, apenas pensando.

De mudança, sem mudar

Os vizinhos da frente se mudaram há pouco. Foi estranho aceitar esse fato de início. Quer dizer, eles moraram aqui por volta de dez anos, e meus almoços vieram sempre acompanhados de suas discussões exaltadas em família. Foi como uma daquelas coisas que você nunca imagina que vai acontecer, como sua avó morrer ou o Papa ir ao banheiro, mas que podem acontecer, e quando acontecem, te deixam abismado. E, acreditem, eu fiquei abismado.

Desde que se mudaram para cá, fomos sempre nós: eu, eles, a senhora que morava no andar de baixo com gatos e a senhora que morava ao lado, sem gatos. Existia uma harmonia nessa combinação, algo nos unia através das paredes que nos separavam. Mas mesmo sendo, em certo sentido, inseparáveis, nunca conheci nenhum deles. O máximo de contato que tínhamos eram alguns bons dias trocados nas escadarias do prédio. Bem no fundo, eu desejava que uma outra frase fosse dita, uma conversa se iniciasse, algum contato feito. Mas isso nunca aconteceu e, então, os vizinhos da frente se mudaram.

Por outro lado, pensei no lado positivo da situação. Quem será que ocupará o vazio que eles deixaram? Pode ser que eu consiga, de fato, conhecer esses novos vizinhos, saber seus nomes, ter conversas longas e interessantes, começar uma amizade e, quem sabe, trocar mais do que duas palavras.

Fiquei pensando nisso durante os dois meses que demoraram para eles chegarem, e quando chegaram, tive uma surpresa: eram quatro ou cinco pessoas, todos jovens, talvez da minha idade, que poderiam ser amigos em potencial. Só o que faltava era nos apresentarmos. Fiquei animado com as possibilidades, fiz planos para ir lá dizer um oi, tudo bem, eu sou o vizinho da frente, vim aqui me apresentar.

Imagine as possibilidades deste simples diálogo.

Mas, no final, deixei isso sempre pro dia seguinte e acabamos nunca fazendo contato. Nos acostumamos com o simples fato de o outro existir ali e só. Não sei seus nomes, nem suas idades. Apenas trocamos olhares e bons dias quando nos cruzamos nas escadarias, e tudo continua igual. Tudo sempre continua igual, são só as pessoas que mudam de lugar.