Seu Onísio

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Eu me perguntava porque Seu Onísio estava sempre tão emburrado. Toda semana via ele lá, detrás do balcão do açougue no mercado, atendendo pedidos e cortando peças de carne sem falar mais do que o necessário. Moído ou bife? Tá bom assim? Algo mais? Se agradeciam pelos cortes, respondia com um grunhido e logo estava atendendo outro pedido.

Eu gostava de ser atendido por ele quando ia comprar carnes para o churrasco, só Seu Onísio sabia cortar bifes na altura perfeita para a brasa. Eu tentava puxar uma conversa sobre a chuva, o calor, o futebol, a carne, mas ele nunca estava pra papo. Nem sorria de volta.

Tudo o que sei sobre ele (e não é muito), veio de conversa dos outros. Seu Onísio trabalhava naquele mercado há quase vinte anos, nunca reclamou de salário ou de horários e pegava todo dia o 332 para o centro depois do expediente. Sobre estar sempre de cara amarrada, só ouvi a mesma coisa: é o jeito dele, fazer o que? Nessa idade, tem coisas que não se mudam.

No começo do ano fui no açougue comprar algumas carnes para uma festa que ia dar na churrasqueira do prédio, mas quem me atendeu foi um rapaz, muito mais jovem que Seu Onísio, com a cara ainda vermelha de espinhas. Fiz o pedido e enquanto ele cortava os quilos e quilos de bifes, puxei papo. Para minha surpresa, o jovem, que se chamava Djuliano, com Dj, era um tremendo língua solta, e eu fiquei como ouvinte do seu monólogo.

Lá pelas tantas, consegui uma brecha e perguntei sobre Seu Onísio. Djuliano me olhou com cara de quem não entendeu e falou que não conhecia ninguém com esse nome, tinha acabado de ser contratado e deu graças a deus por ter conseguido esse emprego, porque estava há mais de três meses desempregado, com mãe doente, mulher e dois filhos pra criar, veja só, se não aparece esse milagre estava fodido, e foi contratação rápida, pra preencher vaga, virou o ano e já estava de avental e facão afiado, mas desse Seu Onísio não tinha escutado nada, não, geralmente nesses casos é demissão por justa causa, doença ou, deus o livre, morte, vai algo mais?

Agradeci a conversa e as carnes e saí com o carrinho cheio. Dei mais uma volta pelos corredores, tentando entreouvir alguma conversa dos funcionários sobre o destino de Seu Onísio, mas só escutei duas repositoras de produtos falando mal do chefe e como ele ainda estava devendo a hora extra que uma delas fez no sábado. A moça do caixa nem tinha dado por sua falta. E eu passei as compras no crédito.

Correram as semanas sem que a figura de Seu Onísio voltasse para trás daquele balcão onde agora fica Djuliano, que fala como se a vida dependesse disso, e me entrega as carnes com um sorriso grande demais para quem segura uma faca daquele tamanho.

É hora de mudar de mercado.

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Ivan Nery Cardoso: Sociedade dos Porcos

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Sociedade dos Porcos

Sociedade dos Porcos. O nome, uma piada interna, veio no fim da oitava, quando o grupo era inseparável: Lipe, Flavinho, Ulisses, Du e Henrique. Batiam uma bola no recreio e depois da aula puxavam um trago, comentando sobre as garotas do colégio. Foi ideia do Lipe eternizarem na pele aquela amizade, e na última semana do terceiro colegial estavam todos com um pequeno focinho de porco tatuado debaixo da axila. Com o fim do colégio tomaram cada um seu caminho e, pouco a pouco, foram deixando de se falar.

A ideia do reencontro, dez anos depois, veio do Henrique, que sempre acreditou mais nessa história de manter vivas as amizades antigas. Marcaram na casa do Flavinho, que ainda não era casado e morava sozinho. Henrique e Lipe só precisavam avisar as esposas, enquanto Ulisses viria de Belo Horizonte para ficar o final de semana. Do Du, ninguém sabia nada.

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Ivan Nery Cardoso: O rosto de Evelyn C.

LOID

O Rosto de Evelyn C

No dia 3 de junho, Evelyn C. acordará de um pesadelo. Estava numa estranha sala sem paredes, acompanhada de uma única pessoa, de quem não enxergava o rosto, apenas a parte de trás da cabeça, independentemente do ângulo ou direção em que se movia. A pessoa, Evelyn C. sabia, conseguia vê-la, mesmo de costas. Acordará com o coração acelerado e terá dificuldades de pegar no sono de novo. O sonho, em pouco tempo, será esquecido. De pé, perceberá que o frio já terá chegado, trazendo um céu cinza, denso, quase inglês, e optará por um chá preto com biscoitos ao invés do habitual café solúvel. Espremerá uma espinha após o banho e escolherá prender o cabelo para não perder tempo penteando-o. O resto do dia transcorrerá como de costume, significando que vestirá as mesmas calças jeans claras do dia anterior, seus fiéis all-stars vermelhos, uma camiseta qualquer e seu único…

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Ivan Nery Cardoso: Mané

“Mané”, conto que escrevi ano passado, foi publicado na revista Livre Ideias – Ideias em Debate. Leia!

LOID

img_20190122_200455 Ivan Nery Cardoso

Não bastava ser chamado de Mané – seu nome mesmo era José Manuel das Couves –, o Mané também era assombrado por fantasmas. Melhor dizer fantasma, no singular, pois era um, o mesmo, durante anos lhe fazendo aparições: um velho carrancudo, meio curvado, a cara toda quebrada por rugas. Usava a mesma roupa: terno, chapéu, camisa e gravata, todos pretos, e fumava. Estava sempre com um cigarro aceso, levando à boca com calma, demorando para soltar a fumaça de volta ao mundo dos vivos. Não fazia mais do que fumar, sempre a uma distância, encarando o Mané com um olhar duro, pupilas penetrantes, sobrancelhas baixas.

O primeiro encontro dos dois se deu quando o Mané ainda era muito criança, pequeno demais para lembrar que a mãe pedalava a bicicleta pela cidade, fazendo as entregas da venda do pai. Ele ia na garupa. Paravam de porta em…

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Sociedade dos Porcos

Sociedade dos Porcos. O nome, uma piada interna, veio no fim da oitava, quando o grupo era inseparável: Lipe, Flavinho, Ulisses, Du e Henrique. Batiam uma bola no recreio e depois da aula puxavam um trago, comentando sobre as garotas do colégio. Foi ideia do Lipe eternizarem na pele aquela amizade, e na última semana do terceiro colegial estavam todos com um pequeno focinho de porco tatuado debaixo da axila. Com o fim do colégio tomaram cada um seu caminho e, pouco a pouco, foram deixando de se falar.

A ideia do reencontro, dez anos depois, veio do Henrique, que sempre acreditou mais nessa história de manter vivas as amizades antigas. Marcaram na casa do Flavinho, que ainda não era casado e morava sozinho. Henrique e Lipe só precisavam avisar as esposas, enquanto Ulisses viria de Belo Horizonte para ficar o final de semana. Do Du, ninguém sabia nada.

— Ele não vem mesmo? — perguntou o Ulisses, saudoso, no aeroporto.

— Não encontrei ele — falou o Henrique. — Procurei pra caralho, mas nem facebook o cara tem.

— E o número dele, ninguém sabe? — sugeriu Lipe.

— Não…

— Nem na casa dos pais atenderam.

— Pô, o cara sumiu?

No apartamento, abriram cervejas, colocaram uma playlist, pediram pizzas, lembraram dos velhos tempos e se inteiraram das novidades de cada um. De estômago cheio, fizeram caipirinhas e cuba libres. Com a intimidade reestabelecida graças ao efeito da bebida, passaram para o assunto favorito: mulheres. Bundas, peitos, pernas, transas, casos e romances, todos tinham alguma história para ser contada.

— Eu tenho uma — falou o Flavinho ao fim da história do ménage de Ulisses. — Meio estranha, na verdade, mas acho que vocês, especialmente, vão gostar.

— Uhm, fala aí — disse Lipe, terminando as risadas.

— Foi lá no Rio, no primeiro ano da residência. Eu saí numa sexta com o pessoal da turma pra Lapa. Naquele jeito, sabe? Sem muitos planos, vamos ver no que vai dar. Lá pelas tantas, a gente sentou no Bar da Cachaça pra dar um up. Por sinal, já foram lá? A de milho não tem igual. Então, a gente tava numa mesinha ali mais perto da esquina, escutando um sambinha que tava tocando no bar do lado, e eu notei meio de canto que tinha alguém me olhando. Não sabia quem era, mas senti que tinha alguém. Quando eu virei, meu irmão, vi uma loirinha maravilhosa umas três mesas pra lá olhando pra mim. Primeiro eu achei que não era comigo, mas aí ela deu um sorriso que eu me apaixonei. Sorri de volta e a gente ficou nesse flerte, trocando olhares. O pessoal quis levantar logo depois, ir pra um lugar mais animado, uma balada ali na Cinelândia. Na hora de levantar, fiz uma cara de “acho que é isso”, e ela deu uma piscadela, sorriu com o canudo da caipirinha no lábio e virou pro lado, conversando com o pessoal da mesa dela.

— Pô, e não foi lá falar com ela? Que vacilo!

— Perdeu uma baita chance aí, hein, Flavinho?

— Calma, que tem mais história. Na balada foi aquele negócio de fila e o caralho, mas com umas cachacinhas no corpo eu tava me sentindo bem, com aquela sensação de que a noite promete. A gente entrou e tava uma maluquice lá dentro, uma música pesadíssima, de mexer com a cabeça, todo mundo dançando, tava lindo. Aí a festa foi indo, a gente dançou também, tomou uns negócios aí e lá pelas tantas eu tava no bar, tentando pedir uma cerveja quando eu ouvi um “oi” do meu lado. Virei pra ver quem era e adivinha? A loirinha do bar, do meu lado, aquele sorriso lindo de derreter o coração e um vestido apertadinho, colado no corpo. Rapaz, que pernas, vou te dizer! “Lembra de mim?”, ela perguntou, e eu respondi que sim, do bar, e que tinha ficado encantado com a beleza dela. Aquele xaveco, sabe? Ela riu um riso um pouco envergonhado, mas feliz, e pegou no meu braço, falando que eram meus olhos. Ela se chamava Valéria, e morava na Tijuca. A gente começou a conversar, e foi impressionante, não faltava assunto, a gente gostava das mesmas coisas, e logo de cara eu já me senti à vontade. Depois de um tempo, ela me levou pra pista de dança. Tava tocando uma música meio sensual, e a gente dançou coladinhos, se encostando bastante. Não deu outra, a gente foi se beijando, um beijo gostoso, tudo combinando, o jeito de pegar, tudo dando certo. Depois fomos prum canto, e como já era fim de festa, foi uma pegada mais forte, mais safada. Ela me pegou no pescoço de um jeito de arrepiar, e deu um gemidinho delicioso quando beijei o pescoço. Desci a mão pra baixo do vestido e ela falou: “Vamos pra outro lugar?” Aceitei na hora, não estava acreditando que ia embora com aquela mulher maravilhosa. A gente pediu um táxi e foi pra minha casa, mas nem conseguimos chegar no quarto, de tanto tesão. Rapaz, nunca fiz um sexo tão bom que nem aquele. Inacreditável o que aquela mulher sabia fazer na cama. Me pegou de um jeito, me virou de ponta cabeça e fez cada coisa que eu nunca nem tinha imaginado. Só deixei e aceitei, ela que tava no comando. Dedo naqui, língua nali, e vai na mesa, apoia na pia, empurra a cama, perna pra tudo que é lado. Um negócio de mais de hora, tá ligado?

— Ô beleza!

— Depois que a gente terminou e recuperou o fôlego, ela falou que precisava ir embora. Eu tentei convencer ela a ficar, mas disse que não podia, que trabalhava cedo. E lá fui eu, muito cavalheiro, chamar um uber enquanto ela se vestia. Que bunda era aquela, meu irmão? Só de lembrar já fico maluco. Chamei o carro e fiquei olhando ela se abaixar pra pegar a calcinha, procurar o sutiã e começar a se vestir, tudo numa tranquilidade, numa certeza de que eu ia querer segundo tempo. Aí quando ela foi pôr o vestido por cima da cabeça, que eu vi uma tatuagem.

— Uma tatuagem? — perguntou Ulisses, mordendo a isca.

— Pois é — disse Favinho, dando corda.

— O que era? Aonde? Devia ser uma coisa bem safada, só pode, pra tá falando desse jeito.

— Não — continuou Flavinho. — Um focinho de porco, bem aqui. — E apontou para a própria axila.

Os outros três fizeram silêncio, sem perceber a expressão de choque em seu rostos. Lipe levou uma das mãos à boca, Ulisses ficou imóvel, com os olhos arregalados, as sobrancelhas erguidas, e Henrique, mais com os lábios do que com a voz, disse:

— Rapaz…

Flavinho não pôde mais se conter, bateu palmas e explodiu em gargalhadas:

— Puta que me pariu, vocês caíram fácil demais! — ele disse, quase gritando.

— Espera, então você não comeu o Du? — perguntou Ulisses, tentando entender.

— Claro que não! Também não faço ideia por onde anda esse desgraçado. — Voltou a rir, e os três se juntaram, admitindo terem caido na pegadinha.

— Porra, tomar no cu, hein, Flavinho.

— E eu aqui preocupado.

— Porra!

Xingaram Flavinho, que só fazia rir, enxugando uma lágrima que descia do olho, mas logo se juntaram a ele, tanto na risada quanto nas piadas.

— Imagina só se ela ficasse pra dormir e ronca que nem o Du! — disse Ulisses, imitando o barulho de um porco. — Tu tava fodido.

— Ou se tivesse aquele cheiro de peido dele! — acrescentou Henrique.

Todos riram e relembraram histórias do amigo que não viam há uma década. A cada nova história, uma explosão de gargalhadas percorria a roda, num tom nostálgico. Acabaram todos se abraçando, prometendo que manteriam o contato enquanto escondiam as lágrimas.

— Mas ô, Ulisses, vê se chama a Valéria na próxima — debochou Lipe, e todos caíram no riso mais uma vez.

Enquanto recuperavam o fôlego, Flavinho aproveitou para ir ao banheiro. Ligou a torneira no máximo e sentou na privada, com a tampa fechada. Do outro lado da porta, pôde escutar a música tocando e a voz abafada do Henrique dizendo algo. Esperou o tempo necessário de uma urinada e puxou a descarga. Lavou as mãos, mesmo estando limpas e jogou uma água no rosto. Quando voltou, Lipe estava começando a contar uma história do carnaval que passou em Olinda. Flavinho sentou-se e escutou. Entendeu por que Valéria disse que eles ainda não estavam prontos para conhecê-la.

Farofa

Leia no Medium: https://medium.com/@ivannerycardoso/farofa-844e5790d01e

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Meu nome é Sofia, ou Minha Putinha. Às vezes só Putinha. É meu apelido, ele me chamava assim em casa. Fora, era só Sofia. Perdoe a aliteração, é desagradável. Só me chamou de Putinha fora de casa numa festa. Sussurrou no meu ouvido, com a mão debaixo da minha saia. Fomos para o banheiro e ele me mandou ajoelhar de costas para o espelho, para chupar seu pau. Ele não gostava de pinto ou piroca ou peru ou jeba ou rola. Só de pau. Chamava minha buceta de buceta, às vezes de xana, ou xaninha. Me pedia para mostrar minha xaninha em lugares públicos. Parques, festas, museus. Geralmente no banheiro. Gostava de pegar com força nos meus peitos e na minha bunda, onde quer que fosse. Apertava, dava tapas, chupava os mamilos. Dizia que eram uma obra de arte. Veja como tem um balanço natural. É o diferencial do meu modelo. Quando me chamava de Minha Putinha, eu tinha que chama-lo de Grandão. Meu Grandão. Eu só fazia pausas no boquete para falar como seu pau era grande, que nunca tinha visto um tão grande, tão duro, que era gostoso, delicioso, na minha boca. Não era minha função perguntar suas preferências. “Dama na rua. Puta na cama”, ele digitou no dia em que me iniciou. Só precisou falar uma vez. Eu obedecia. Recebia sua porra na cara com felicidade. Espalhava na cara, nos peitos, como ele sempre pedia. Se gozava na boca, não pedia para eu engolir, mas para cuspir de volta na boca dele. Depois chorava e me pedia para nana-lo. Por favor, não ria. Respeite o Meu Grandão. Uma vez ele achou que eu ria dele e me deu dois socos na cara. Pedi desculpas, e ele me queimou com o cigarro. Gostava de me queimar com o cigarro. Pedia para eu queimá-lo também. No peito, às vezes na barriga. Se estrebuchava e não me pedia para parar. Perdoe a aliteração, é desagradável. Nesses dias pedia para eu cuspir na sua cara, para apertar mais as cordas, para pisar no seu saco, mas que não tocasse no seu pau, deixasse que a porra viesse sozinha. Não gostava de tapas, nem de cortes. Se cortava sozinho, fechava a porta do banheiro e me chamava depois para fazer os curativos. Nossa palavra era Farofa. Combinamos no nosso aniversário de um ano. Ele me levou para a festa e me fez pagar o boquete no banheiro. Em casa, me fez amarrá-lo na cama e subir em cima. Eu estava cavalgando o Meu Grandão, apertando o seu pescoço. E ele pedia para apertar mais forte, sua cara já estava rosa e ele pedia para apertar mais. Me mandou pegar o cinto e apertar no seu pescoço. Não podia parar de cavalgar, de falar como seu pau estava me arrombando, que eu era sua Putinha. Não podia parar de apertar. Quando ele falou Farofa, parei, e aí ele gozou. Nunca esporrou tanto, tremia enquanto voltava a respirar. Quando não pedia para queimá-lo, ou batê-lo, pedia pelas cordas e pelo cinto. E sempre gozava horrores. Ontem meu Grandão não falou Farofa, e eu apertei, apertei. Seu rosto nunca ficou tão vermelho que nem ontem. Meu sistema não computou a palavra que ele falou: Faóa. Repetiu várias vezes: Faóa, Faóa. Não está em nenhum dos dicionários no meu banco de dados. Você sabe o que significa, delegado?

Eu te amo

Ele diz eu te amo

enquanto me faz um cafuné.

Diz eu te amo

depois de um beijo gostoso.

Num jantar de aniversário

ele diz eu te amo.

Depois do sexo, diz:

Eu te amo.

 

Ele diz eu te amo

ao fim de cada ligação.

Um ponto final:

Beijos te amo.

Diz eu te amo

quando dirijo depois da festa

e quando cuido de sua ressaca

ele diz eu te amo.

 

Sempre que acaba o assunto:

Eu te amo.

Estamos os dois quietos

e ele diz eu te amo.

“Eu te amo”

às vezes em sequência

como se precisasse repetir

eu te amo eu te amo.

 

Ele diz eu te amo

depois que lhe passo o sal

que usei em minha salada.

Pego sua outra mão

olho em seus olhos

desejando ser Medusa

e antes que venha eu te amo:

eu também.

Dança do Universo

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Como se um buraco negro

entrasse pela porta

ela sentou no balcão,

sozinha,

fazendo toda a matéria

e toda a luz

(que já era pouca)

se curvarem ao seu redor

— o horizonte de eventos

para o qual todos os astrônomos

apontavam telescópios naquela noite

de poucas estrelas,

sentindo o tempo distender-se

infinito, quieto, primordial,

em antecipação.

 

Até que da escuridão fez-se

luz e calor

no estrondo

(um segundo big bang)

que fez seu sorriso

para o garçom,

aquele meteoro desgarrado

que por vontade própria

ou pura gravidade,

se tornou a mais nova lua

da qual se tem conhecimento.

 

A partir daí

se tornou muito difícil

pedir uma cerveja.

Tia Lolinda

1.

Quando eu era pequeno, não suportava os almoços em família aos domingos. A bisa me metia medo, toda enrugada e quieta no seu canto, os adultos insistiam em me tratar como a criança que eu de fato era, e tia Lolinda tinha sua mania de querer se matar. Ia várias vezes para a varanda ou para o jardim com seu copinho de conhaque, tirava uma navallha da bolsa e abria os pulsos.

Tia Lolinda. Sempre achei engraçado ela ter esse nome, feia que só. Toda pelancuda, usava uns vestidos largos, compridos, pareciam as toalhas de mesa lá de casa. Tinha umas olheiras pretas, fundas, e os dentes que sobravam estavam todos podres, escuros.

Quem dizia que era mania era meu pai. Uma vez, não lembro quando, mas era pequeno, perguntei a ele por que tia Lolinda abria os pulsos.

— Ela está se matando, — ele me disse com um tom de reprovação.

— Se matando? — eu perguntei. Não tinha a mesma noção que tenho hoje da morte. — E por que não morreu ainda?

— Porque está se matando devagarinho. De pouco em pouco vai se matando, até que um dia, vai ver só, vai estar morta.

— Mas por que tia Lolinda quer se matar?

— Porque tem essa mania, desde que eu conheço sua mãe e os parentes dela que ela já faz isso.

— Por quê?

— Porque é besta. Porque tem merda na cabeça, é viciada nisso de abir os pulsos. Isso eu não quero nunca que você faça, está me ouvindo? Me promete que nunca vai fazer isso.

— Prometo, pai. Prometo não me matar. Mas por quê?

Era estranho ver tia Lolinda se matando. Eu achava, naquele tempo, que a gente morria de um jeito sofrido, que nem nos filmes: ficava deitado, com cara de dor, falando umas coisas com dificuldade para alguém que estava ali, segurando nossa cabeça e chorando. Aí era só falar uma última frase, fechar os olhos e pronto, morria. Mas tia Lolinda parecia muito bem, na verdade. Ficava ali de pé ou no máximo puxava uma cadeira, com os pulsos abertos só o suficiente para pingar um pouco de sangue. E não parecia estar com dor nem nada. Pelo contrário, sorria e conversava com os outros adultos, gesticulando e sujando a roupa de todo mundo. E depois não morria coisa nenhuma, fechava o corte e voltava para a sala ou ia ao banheiro ou ajudava na cozinha.

 

2.

Uma vez, quando passei perto dela, me pegou no colo para fazer um carinho. Ficou me dizendo como eu era um menino lindo, e que ia derreter muito coração quando crescesse. Quem me dera, tia, quem me dera. Me deu um sorriso besta e apertou minhas bochechas. Foi aí que perguntei:

— Tia Lô, — eu chamava ela de tia Lô — por que é que você abre os pulsos desse jeito?

— É para me dar um alívio, meu filho. — Deu um sorriso todo desdentado e apertou o pulso para sair mais um pouco de sangue. — E que alívio que isso me dá.

— Meu pai disse que você está tentando se matar, de pouquinho em pouquinho.

— É?

— É sim.

— Então diga pro seu papai que ele é um boboca e que vá cagar no mato, bem longe de mim.

Nessa hora minha mãe me deu um grito do sofá para fazer não sei o quê, e saí do colo de tia Lolinda com algumas manchas de sangue na camisa. Mais tarde contei para o meu pai sobre onde ela tinha dito para ele ir defecar. Não ficou nem um pouco feliz.

 

3.

Já muitos anos depois, quando eu era adolescente, tia Lolinda foi parar no hospital. Não me contaram o motivo, só disseram que era por conta da sua mania. Ficou uma boa semana lá, deitada na cama, toda entubada, e minha mãe se revezava com o tio Hélio para passar as noites no quarto. Os médicos até tentaram, mas o tratamento não fez efeito a tempo.

A princípio, é claro, senti saudades de Lolinda, todos sentimos. Mas com o passar dos meses, fomos percebendo como a atmosfera ficava mais leve nos domingos quando não havia alguém na varanda ou no jardim cortando os pulsos. Com isso, as reuniões de família foram se tornando, para mim, mais toleráveis. E quando passei a poder beber junto dos adultos, se tornaram até agradáveis.

— Vai com calma, — me disse meu pai certo natal ao me servir a terceira taça de vinho.

— Pode ficar tranquilo, pai, não é como se eu estivesse tentando me matar.

— Se lembra do que você me prometeu. Nada de querer cortar os pulsos.

— Pode deixar, — eu respondi, e brindamos a uma boa saúde para todos.

Mas eu não mantive minha promessa. Quando passei na faculdade, me mudei para longe e fui viver a vida estudantil, com toda aquela fase de novas experiências. Cortar os pulsos foi uma delas. Não gostei a princípio, acho que exagerei no corte, minha pressão baixou e, no desespero, quiseram chamar uma ambulância. Mas foi só me sentar um pouco e esperar melhorar para voltar à festa, que não consegui curtir direito. Até aí, nada de mais.

A coisa veio mesmo quando estava no último ano. Aquele stress de terminar o curso, decidir o que fazer no futuro, o medo da vida adulta, das responsabilidades, estavam me deixando muito mal. Hoje em dia, olhando para trás, nem foi tão ruim assim, mas na época a pressão era insuportável. Por conta disso parei numa banca de jornal voltando do mercado, um dia, e comprei algumas navalhas. Sem nem saber porquê, só comprei. Chegando em casa, abri o pacote e fiz um corte bem pequeno, quase nada, no pulso esquerdo. Nunca mais parei.

 

4.

Demorei para contar à família que tinha pego a mania de tia Lolinda, e eles levaram numa boa, para minha surpresa. Me deram um sermão, é claro, lembrando de como ela tinha ficado no hospital e tudo, mas me trataram como o adulto que eu era e respeitaram minha decisão.

Não aceitaram cem por cento, então eu evito abrir os pulsos nas reuniões de família, mesmo quando a vontade vem com força. Geralmente invento uma desculpa para dar uma volta, ou vou embora mais cedo, para poder me cortar à vontade. Eu sei, eu sei, é um hábito horrível de se ter. Mas tia Lolinda estava certa: que alívio que isso me dá.

manhã fria

quando acordamos o sol já estava alto

tentando achar uma brecha nas cortinas

mas nós seguimos deitados

e tudo o que ele fazia era criar uma auréola

tímida e retangular por fora dos panos

ela se remexeu ao meu lado e me abraçou

trocamos bons dias

continuamos debaixo das cobertas

decidindo se íamos fazer alguma coisa

naquele dia ou se já era possível jogar

os planos para o alto e ficar ali para sempre

eu não queria dizer

nem ela também

mas aquilo já fora decidido

antes mesmo de acordarmos

e foi o que fizemos extendendo a manhã fria

para além do meio dia

dos trinta graus que faziam lá fora

e do gato atropelado que vimos

na noite anterior.